“O Brasil possui a capacidade intelectual de gerar conhecimento de fronteira e transformar pesquisa básica em inovação de impacto social”, aponta o fazendário Kleber Silveira
Confira:
A trajetória da pesquisadora Tatiana Coelho Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é relato de sucesso acadêmico revestido de lição prática sobre por que o investimento em ciência deve ser tratado como um compromisso inegociável com um projeto de nação. Após quase três décadas de investigação contínua sobre a polilaminina – uma versão inovadora em formato de rede derivada da laminina, proteína essencial que compõe o suporte natural das células no corpo humano, o trabalho dele rompeu as fronteiras dos laboratórios. O projeto obteve, recentemente, a autorização para iniciar a fase 1 de estudos clínicos em humanos, etapa crítica voltada para validar a segurança da substância e monitorar possíveis reações adversas.
Essa transição, frequentemente chamada de “vale da morte” da inovação, representa um dos maiores desafios da pesquisa em saúde no Brasil. Superá-la exige intelecto e uma infraestrutura de ponta, equipes multidisciplinares altamente qualificadas, protocolos éticos rigorosos, transparência absoluta e uma articulação constante com órgãos regulatórios e o setor produtivo.
A proposta central da polilaminina é revolucionária: oferecer um suporte estrutural e bioquímico favorável para que as fibras nervosas recuperem sua organização após lesões severas na medula espinhal. O trabalho ganhou destaque internacional ao mirar a reabilitação passiva com possibilidade real de reconexão entre neurônios e músculos. A tecnologia destaca-se, sobretudo, por ser um produto genuinamente brasileiro, fruto de 30 anos de persistência e suporte institucional em uma universidade pública.
Se os próximos passos confirmarem a segurança e a eficácia do tratamento, o avanço abrirá alternativa terapêutica nacional para um problema que hoje condena milhares de brasileiros à imobilidade. Até lá, a notícia a ser celebrada é a de que a ciência nacional provou sua capacidade de colocar uma hipótese robusta no trilho dos ensaios clínicos, o ambiente onde as promessas de laboratório são testadas para se transformarem em evidências científicas sólidas.
Contudo, esse percurso demonstra que o Brasil possui a capacidade intelectual de gerar conhecimento de fronteira e transformar pesquisa básica em inovação de impacto social. O grande entrave reside na continuidade: sem financiamento estável, bolsas de estudo dignas, laboratórios equipados e programas de fomento de longo prazo, projetos estratégicos correm o risco de interrupção, levando à perda de talentos para o exterior, a chamada “fuga de cérebros”.
Investir em pesquisa científica é, essencialmente, fortalecer as universidades, formar especialistas capazes de resolver problemas complexos, criar tecnologia própria e reduzir a asfixiante dependência externa por insumos e medicamentos de alto custo. É, também, criar pontes com a indústria para que as descobertas ganhem escala industrial e cheguem ao Sistema Único de Saúde (SUS) com qualidade e democratização do acesso.
O exemplo de dedicação da Dra. Tatiana nos recorda que descobertas transformadoras não surgem do acaso, resultam de anos de método científico, tentativas, erros, persistência e suporte governamental. Ao escolher financiar a ciência, um país decide resolver doenças, viabilizando o próprio futuro, construído com soberania tecnológica, desenvolvimento econômico sustentável e dignidade para toda a sua população.
Kleber Silveira
Presidente da CAFAZ – Caixa de Assistência dos Servidores Fazendários Estaduais
kleber.silveira@cafaz.org.br