“Banquetes de Jussinara” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovítera é arquiteto e escritor. Foto: Reprodução

Com o título “Banquetes de Jussinara”, eis mais um ótimo texto de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Tem gente que gosta de boa mesa. Passada na casca do alho, Jussinara é senhorita inupta e faladeira que só. Vive sozinha, mas cercada de conhecidos: balconistas, cartomantes, copeiras de velório, desocupados, gente de fé, motoristas de ônibus e porteiros. Tem vida social intensa e apetite bem administrado.

Sustentando-se de uma minguada aposentadoria por tempo de contribuição, para ser pobre ainda falta mais uma coisinha. Também não chega a ser pobre de marré. Com dinheiro curto, aprendeu cedo o jeito de viver com pouco e comer sem gastar nada – ou quase nada.

Cedinho, ainda escurinho, sai de casa penteada, perfumada e emperequetada. Vai ao terminal de ônibus, onde servem café, leite e pão de graça. Abanca-se sem afobação, conversando com aposentados e trabalhadores madrugadores.

A merenda da manhã depende da sorte. Mas Jussinara confia nas degustações de supermercado. Conhece dias de promoção, horários de movimento e até a fisionomia das moças que distribuem queijo, bolacha recheada e gole de iogurte. Diz que supermercado moderno perdeu a vergonha de alimentar curioso faminto.

Perto do meio-dia, segue para o Restaurante Popular, no Centro. Para quem vive na rua, a refeição é gratuita; para os demais, custa quase nada. Jussinara almoça com formalidade. Acha bonito aquele ajuntamento diante de arroz, feijão, farinha e mistura. “Civilização começa no prato”, afirma, limpando os óculos no guardanapo.

Depois do almoço, palitando os dentes, sempre dá um jeito de passar numa clínica médica popular. Vai atrás do cafezinho. Senta-se na recepção, ouve queixas da vida alheia, sorri fácil e sai de fininho, cafeinada e informada das novidades.

Mas o ponto alto do seu itinerário gastronômico vem no fim da tarde. Nessa hora, Jussinara toma rumo à casa de velório. Garante, sem vacilar, que ali se bebe o melhor chocolate quente de Fortaleza. “Não é o chocolate, é o sentimento”, explica.

À noitinha, corre atrás da sopa distribuída na Praça do Ferreira. Organizada, ensina: “O negócio é chegar cedo. Quem chega tarde pega a panela raspada.”

Jussinara fala dessas coisas sem vergonha nem heroísmo. Apenas com realismo. Vê a cidade como uma grande mesa posta, onde sempre sobra alguma coisa para quem tiver paciência e delicadeza de procurar.

No fim, ajeita a bolsa no ombro e avisa, séria, em tom de utilidade pública: “As informações sobre o 0800 podem variar conforme o programa social.”

E volta para casa andando devagarinho, elegante, como quem conhece todos os atalhos da fome e da gentileza humana.

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