Com o título “Belchior e suas Referências Poéticas”, eis artigo de Manoel Fonseca, médico epidemiologista e sanitarista e mestre em Sistemas Locais de Saúde pelo Instituto Superiore di Sanitá da Italia. Ele lembra, também com escritor e fã, os 50 anos de publicação do disco icônico e revolucionário “Alucinaão” desse cearense universal.
Confira:
Belchior, meu colega na Faculdade de Medicina, era um poeta culto, estudioso e revolucionário. Suas canções têm um cunho filosófico, de grande sensibilidade humana, impulsivamente rebeldes e transformadoras. Fala de amores, temores e sonhos de felicidade dos jovens e das pessoas comuns, que trabalham duro pela sua sobrevivência, comovendo e despertando vontades e sentimentos de pertencimento, pois se sentem parceiras/os da mesma jornada. Antes de compor suas músicas mergulhava no estudo de escritores e artistas compositores como fonte de inspiração. Em cada canção compunha uma frase símbolo de denúncia, presságio ou de esperança. Tinha, entre outras, suas referências preferidas: Pessoal do Ceará, Carlos Drumond de Andrade, Fernando Pessoa, os Beatles, Edgar Allan Poe, Bob Dylan, João Cabral de Melo Neto, Dante Alighieri, Garcia Lorca, Nietzsche, mostrando sua cearensidade, nordestinidade, brasilidade, latinidade e universalidade.
Embora tenha se inspirado em poetas clássicos brasileiros e internacionais, a base e formação artística que impulsionaram o vôo solo de Belchiar tiveram suas raízes fincadas no Ceará, no vínculo com o Movimento Cultural e Musical denominado “Pessoal do Ceará”, uma plêiade de cantores e compositores que, nos anos 70, marcou seu espaço no coração do Brasil. Composto por Augusto Ponte (filósofo), Fausto Nilo, Belchior, Ednardo, Fagner, Amelinha, Roger e Téti, destacaram-se através do álbum coletivo “Meu corpo minha embalagem toda gasta na viagem” (1972).
Belchior considerava Carlos Drumond como o seu “pai lírico” e, inclusive, compôs e ilustrou um álbum duplo com seus poemas, intitulado “As 31 caras de Drumond”. Inspirou-se nos versos drumonianos para falar do cotidiano das pessoas. Fez uma referência especial ao poema “Congresso Internacional do Medo”, de Drumond, expressando o medo e impotência do povo durante a Segunda Guerra Mundial, numa comparação com o período da Ditadura Militar, na canção “Populus”.
O poeta português Fernando Pessoa teve uma profunda influência sobre Belchior, que incorporou sua angústia existencial. Em “Fotografia 3×4” (1976) explicitou claramente a leitura comovida de seus poemas: “E lágrimas nos olhos de ler Pessoa”. A solidão urbana e a busca de si mesmo, como na obra de Pessoa, ressoam no canto de Belchior, bem como o amar com intensidade a mulher amada.
Os Beatles foram uma referência importante para o cancioneiro de Belchior. Em “Comentário a respeito de John” ela dialoga com John Lennon e reproduz sua frase famosa “A felicidade é uma arma quente”. Em “Medo de avião” reverencia a música beatleana “I wonna hold your hand”. Em “Velha roupa colorida” Belchior resume, em poucos versos, a influência dos Beatles (Black bird), de Edgar Allan Poe (Haven – Corvo) e cita Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (Assum Preto). Black bird representa a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, durante a segregação racial dos anos 60, inspirada pelos estudantes afro-americanos “Os nove de Litle Rock” e usa uma frase encorajadora: “Pega estas asas quebradas e aprenda a voar”. Haven – o Corvo expressa a perda definitiva da mulher amada (O passado é uma roupa que não nos serve mais) e Assum Preto revela a crueldade humana, que precisa ser combatida, de furar os olhos de um vivente para ele cantar melhor.
Belchior e Bob Dylan eram amigos e trocavam experiências musicais, destacando-se confluências sonoras e de conteúdo em “Velha Roupa Colorida” e em “Apenas um rapaz latino-americano”.
A Palo Seco, baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, representa o enfrentamento das dificuldades e revezes de peito aberto, com resistência e coragem. Expressa um chamamento para um confronto mais vigoroso diante das injustiças, quando afirma: “Eu quero é que este canto torto feito faca corte a carne de vocês”.
“A divina comédia humana” de Belchior interconecta-se com “A Divina Comédia” de Dante Alighieri, num intercâmbio intercultural, propondo viver intensamente o prazer e a dor (céu e inferno) e aceitando a impermanência (nada é eterno).
Ao relembrar a morte de Lorca pelos franquistas (“Botas de sangue na roupa de Lorca”), Belchior também denuncia o descaso e invisibilidade do Nordeste, a violência contra a legião dos condenados, dos esquecidos, dos ofendidos, dos tratados a pontapés no nosso país, no poema “Eu conheço o meu lugar”(1978).
Belchior estudava Nietzsche e tentava viver e escrever músicas de acordo com sua concepção de mundo: contra a moral de rebanho, pela vontade e potencia de poder, contra o eterno retorno e contra a idealização religiosa e filosófica. Era realista e vitalista e entendia que só assim seria possivel a verdadeira emancipação humana.
– “… de olhos abertos lhe direi: amigo eu me desesperava.”
– “A minha alucinação é viver o dia a dia e o meu delírio é a experiência com coisas reais”.
– “A felicidade é uma arma quente”.
– “Viver é melhor que sonhar”.
– “Sons, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém”.
– “… ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais:.
– “… não vou atar minhas mãos….nem fazer nada que seu mestre mandar…sempre desobedecer” (“Não mande flores”).
Estas influências assumidas por Belchior demonstram a profundidade com que compunha suas músicas, deixando um legado que permanece atraindo os jovens da geração 68 e das novas gerações, pela sua beleza e engajamento politico, transformando-se em uma bússola a apontar os caminhos de luta, de resistência e de autenticidade.
No disco Alucinação, o mais icônico e revolucionário de Belchior, faltou uma música “Populus”, censurada pela Ditadura, só publicada no disco seguinte “Coração Selvagem”. Esta música é uma expressão dura da luta de classes, expondo a exploração selvagem dos trabalhadores pela burguesia, sendo um verdadeiro libelo de denúncia contra a tortura e mortes sem razão durante a ditadura civil militar.
Para encerrar lembramos a música “Arte Final” que, no nosso entendimento, representa um adeus de Belchior, que expressa ironia e cansaço do sistema e da sociedade, desilusão com o presente, embora que ainda tente resistir intelectualmente e conclui: “Uma boa noite ilustrada de néon para vocês. E o último a sair apague a luz azul do aeroporto”.
A sensação que dá parece comparar-se com os 4 minutos em que Anna Pavlova, com movimentos suaves e progressivamente lentos dos braços, feito asas, representa os momentos finais e “a morte do cisne”. Seria a despedida de um dos maiores talentos musicais e poéticos brasileiros, que fez do amor uma arma quente e que conquistou e ainda conquista os corações de todas e todos que estão aqui, que amam a liberdade, a justiça e a igualdade social.
*Médico epidemiologista e sanitarista e mestre em Sistemas Locais de Saúde pelo Instituto Superiore di Sanitá da Italia.
Ver comentários (1)
Bel tinha raízes familiares em Coreaú, onde morava sua tia, Dona Deusa e os filhos (dela) ainda moram, tendo inclusive um pequeno memorial, no Bar do Domingos da Deusa, primo do poeta!