Com o título “Biometano, Data Centers e Térmicas Verdes: O Brasil diante dos Conflitos Geoeconômicos Globais”, eis artigo de Célio Fernando, economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia. “Desenvolver essa cadeia de valorização de coprodutos não é apenas uma questão de eficiência econômica das usinas, mas uma estratégia concreta de blindagem do agronegócio brasileiro contra futuros choques geopolíticos”, expõe o articulista.
Confira:
O biometano não é apenas uma molécula de transição, mas um instrumento de soberania nacional num mundo em que energia, dados e poder geopolítico são faces de uma mesma realidade.
O Brasil atravessa um momento decisivo na reconfiguração da sua matriz energética. A estruturação do mercado de biometano não representa apenas uma resposta técnica às demandas da transição energética, mas configura uma decisão estratégica de primeira ordem, com implicações diretas sobre a soberania econômica, a competitividade industrial e a inserção internacional do país. Em um mundo crescentemente marcado por tensões geoeconômicas, disputas por rotas logísticas, guerras tarifárias e instabilidade nos mercados de commodities fósseis, o biometano emerge como vetor de segurança energética genuinamente nacional. E dois mercados emergentes ampliam dramaticamente essa equação: os data centers e as térmicas verdes.
Para compreender a dimensão desse desafio, é preciso reconhecer que o mercado consumidor de biometano no Brasil já existe e pressiona por soluções concretas. Setores industriais de uso intensivo de calor, como siderurgia, cerâmica, alimentos e bebidas, operam sob pressão crescente de descarbonização. Essa pressão não deriva apenas de consciência ambiental, mas de uma nova arquitetura comercial global que transforma emissões em barreiras reais de acesso a mercados. O Carbon Border Adjustment Mechanism, o CBAM, implementado progressivamente pela União Europeia, impõe tarifações adicionais sobre produtos industriais com elevada pegada de carbono. Para a indústria brasileira, a descarbonização dos processos térmicos deixou de ser uma escolha virtuosa para se tornar um pré-requisito competitivo concreto e mensurável. O biometano, nesse contexto, é o passaporte verde para mercados que cada vez mais precificam as emissões como custo real de produção.
Essa pressão sobre a indústria tradicional encontra um espelho igualmente desafiador no universo digital. A explosão da inteligência artificial e da computação em nuvem criou uma demanda energética global sem precedentes. Data centers são consumidores vorazes e ininterruptos de energia, operando continuamente com tolerância operacional zero para instabilidades no fornecimento. No Brasil, esse mercado cresce de forma acelerada, impulsionado pela digitalização da economia, pela expansão dos serviços financeiros digitais, pela crescente exigência de soberania de dados e pela pressão de corporações globais para instalar infraestrutura computacional próxima aos mercados consumidores sul-americanos.
Essa demanda energética ininterrupta e territorialmente distribuída colide com dois desafios simultâneos: a necessidade de descarbonização das operações para cumprir compromissos ESG com investidores internacionais e a necessidade de garantia de fornecimento estável, independente das oscilações do sistema elétrico nacional. Fontes renováveis
intermitentes, como solar e eólica, não resolvem isoladamente essa equação, pois não oferecem a firmeza de despacho que a operação contínua de um data center exige.
É precisamente nesse ponto que o biometano e as térmicas verdes se apresentam não como alternativa marginal, mas como solução estrutural. Uma termelétrica abastecida por biometano, ou por uma combinação crescente de biometano e
hidrogênio verde, oferece o que nenhuma fonte renovável intermitente consegue garantir isoladamente: despacho controlável, previsível e de baixíssima emissão de carbono. Para um data center que necessita de energia firme, limpa e auditável, uma térmica verde alimentada por biometano regional representa a convergência entre segurança operacional e credencial climática verificável. Além disso, o modelo das térmicas verdes vai além da simples substituição do gás fóssil pelo biometano, representando uma nova arquitetura de geração distribuída, territorializada e integrada às cadeias produtivas regionais. No Nordeste, uma térmica verde pode ser alimentada por biometano oriundo de resíduos da
agroindústria canavieira, da fruticultura irrigada, dos frigoríficos e das estações de tratamento de esgoto das grandes cidades, transformando passivos ambientais dispersos em uma cadeia de valor energética integrada e economicamente
sustentável.
Essa integração abre ainda uma oportunidade raramente discutida nesse ecossistema: o aproveitamento do calor residual. Data centers geram enormes quantidades de calor que, na maior parte dos casos, são simplesmente dissipadas como resíduo térmico. As térmicas também produzem calor que pode ser capturado e reutilizado em processos industriais adjacentes, tais como aquecimento de processos agroindustriais, secagem de grãos e produção de vapor industrial. A combinação dessas três dimensões em parques energéticos distribuídos materializa a economia circular aplicada à infraestrutura: cada fluxo de energia que seria perdido torna-se insumo para o próximo processo, reduzindo
custos operacionais e ampliando a competitividade das indústrias instaladas nessas zonas integradas. É nesse ponto que a lógica técnica e a lógica geopolítica convergem com força total.
Isso porque os conflitos geoeconômicos globais não são um pano de fundo distante, mas uma variável ativa que determina a viabilidade e a urgência de cada escolha que o Brasil faz sobre sua infraestrutura energética e digital. A corrida mundial por infraestrutura de inteligência artificial tornou os data centers ativos estratégicos de primeira grandeza, tão relevantes quanto refinarias ou portos na geopolítica contemporânea. Países que controlam a infraestrutura computacional controlam, em larga medida, o fluxo de dados, a soberania digital e a capacidade de inovação tecnológica das suas economias. A dependência energética de fontes fósseis importadas para abastecer data centers representa, portanto, um risco geopolítico duplo: expõe a infraestrutura digital nacional às oscilações dos mercados internacionais de energia e cria uma vulnerabilidade sistêmica em cenários de crise de suprimento. O biometano produzido localmente, a partir de resíduos nacionais, rompe esse vínculo de dependência e ancora a soberania digital sobre uma base energética genuinamente brasileira, produzida sob regras nacionais e com preço estruturalmente desvinculado das oscilações geopolíticas do mercado internacional de gás natural.Notícias do Brasil
Essa vulnerabilidade se aprofunda quando observamos a cadeia tecnológica do próprio biometano. A guerra comercial sino-americana pelos semicondutores, os controles de exportação de chips de alta performance impostos pelos Estados
Unidos e a fragilidade das rotas de suprimento de componentes eletrônicos revelam que a soberania de um país depende, em última instância, da sua capacidade de garantir acesso estável às tecnologias que sustentam sua
infraestrutura crítica. No caso do biometano, compressores, membranas de purificação, sistemas de upgrading de biogás, instrumentação de controle e equipamentos de liquefação para Bio-GNL são majoritariamente produzidos em mercados sob crescente rivalidade geopolítica, como Europa, Estados Unidos, China e Japão. Uma ruptura de cadeia de suprimento, seja por embargo tecnológico, elevação de tarifas ou crise logística internacional, pode paralisar projetos de infraestrutura ou encarecer substancialmente os investimentos. O Brasil precisa, portanto, avançar com urgência num programa de nacionalização progressiva de componentes críticos dessa cadeia, integrando a agenda energética à agenda de soberania tecnológica e neoindustrialização verde.
Mas se há um elo onde a exposição geopolítica do Brasil se revela com clareza ainda maior, esse elo é o dos fertilizantes. O país importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, majoritariamente da Rússia, Belarus, Canadá e China, todos atores diretamente envolvidos nas tensões geopolíticas contemporâneas. A crise desencadeada pela invasão da Ucrânia em 2022 provocou um choque de preços sem precedentes no agronegócio brasileiro, expondo com crueza a fragilidade estrutural dessa dependência. É aqui que o digestato, coproduto do processo de produção de biometano, fecha um ciclo virtuoso de enorme valor estratégico. Biofertilizante de alta performance, o digestato é capaz de substituir parcialmente os insumos químicos importados, conectando a agenda energética, a agenda agrícola e a agenda de segurança nacional num mesmo movimento.
Desenvolver essa cadeia de valorização de coprodutos não é apenas uma questão de eficiência econômica das usinas, mas uma estratégia concreta de blindagem do agronegócio brasileiro contra futuros choques geopolíticos. Cada tonelada de biofertilizante produzida internamente representa uma tonelada a menos de exposição aos mercados de potássio russo, ureia chinesa e fosfatos marroquinos. Esse ecossistema se completa com o Bio-GNL, obtido pela liquefação do biometano, que endereça o transporte de cargas, a espinha dorsal logística que conecta data centers às suas cadeias de suprimento, térmicas verdes aos centros consumidores e o agronegócio aos portos de exportação. Um corredor logístico sustentável abastecido por Bio-GNL produzido regionalmente cria uma cadeia de valor integrada onde a descarbonização do transporte, da geração e da indústria se reforçam mutuamente, com cada elo ancorado em recursos nacionais e com preço estruturalmente desvinculado das oscilações geopolíticas do petróleo internacional. O Porto do Pecém, no Ceará, é o ponto de ancoragem natural dessa arquitetura no Nordeste: um complexo logístico e industrial com condições concretas para se tornar pioneiro na descarbonização da cabotagem e do comércio exterior, integrando de forma sustentável os fluxos de biometano, Bio-GNL, energia renovável e produtos industriais de baixo carbono destinados aos mercados globais.
Para que toda essa arquitetura se materialize em investimentos reais, contudo, é imperativo superar gargalos estruturais por meio de mecanismos de contratação robustos. Projetos de biometano são capital-intensivos, e a bancabilidade dessas plantas depende diretamente da previsibilidade de receita. Contratos de longo prazo, com regras claras e garantias firmes de suprimento e consumo, são condição necessária para atrair o capital paciente de instituições como o Banco do Nordeste e o BNDES como âncoras estratégicas dos projetos. A volatilidade cambial, alimentada por incertezas geopolíticas globais, pressiona o custo de importação de insumos tecnológicos e afeta diretamente a viabilidade financeira dos empreendimentos, reforçando a necessidade de estruturar contratos em moeda nacional e com proteção adequada contra riscos de mercado. Nesse contexto, a regulação rigorosa balizada pela ANP, que assegura à molécula de
biometano equivalência técnica com o gás natural fóssil, é a espinha dorsal da confiança do mercado, viabilizando sua injeção na malha de gasodutos existente e seu uso nas térmicas verdes e nos processos industriais sem adaptações
tecnológicas onerosas.Guias de Viagem Ceará
Ainda assim, de nada adiantará uma arquitetura tecnológica sofisticada sem a condição que tornará tudo isso possível: a governança integrada e de longo prazo. Os conflitos geoeconômicos globais penalizam especialmente os países que não
conseguem coordenar suas agendas internas. O Brasil não pode tratar biometano, data centers, térmicas verdes, fertilizantes e logística como agendas separadas, administradas por ministérios e agências sem articulação efetiva entre si. A sinergia entre a regulação da ANP, o fomento do Banco do Nordeste e do BNDES, a política industrial, a agenda digital e a capacidade analítica da academia precisa se materializar em uma arquitetura institucional capaz de planejar, financiar e executar com a velocidade que o momento histórico exige. Somente com essa articulação o Nordeste se consolidará não como exportador de recursos naturais brutos, mas como exportador de inteligência, tecnologia e valor agregado na
forma de energia limpa, dados soberanos e produtos industriais descarbonizados.
O Nordeste tem diante de si uma janela geopolítica e econômica que raramente se abre com tanta clareza. A abundância de biomassa agroindustrial, o potencial solar e eólico, a infraestrutura portuária do Pecém, a demanda crescente por data
centers com energia firme e limpa e a pressão global pela descarbonização industrial convergem num mesmo ponto no tempo, numa mesma solução estrutural: o biometano como vetor integrador de uma economia regional mais soberana, mais competitiva e mais resiliente diante das turbulências geoeconômicas globais. Países que hoje são parceiros tecnológicos podem amanhã ser concorrentes na disputa por mercados de energia limpa e infraestrutura digital. Barreiras que hoje são voluntárias podem amanhã ser mandatórias. O momento de construir as bases desse ecossistema integrado, reunindo biometano, térmicas verdes, data centers soberanos, Bio-GNL e biofertilizantes, é precisamente agora, enquanto o mundo ainda está definindo as regras do jogo da transição energética global. O Brasil tem todas as condições para jogá-lo com protagonismo. O que não pode é chegar atrasado.
*Célio Fernando
Economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia.