“Brasil em Modo Veto” – Por Élcio Batista

Elcio Batista é sociólogo e ex-vice-prefeito de Fortaleza e ex-presidente do PSDB do Ceará.

Com o título “Brasil em Modo Veto”, eis artigo de Élcio Batista, sociólogo e ex-vice-prefeito de Fortaleza. “O veto, que deveria ser um instrumento excepcional, um freio para momentos específicos, um filtro prudencial, um mecanismo de contenção, foi se normalizando. Na última década, deixou de ser evento e virou rotina; deixou de ser recurso raro e virou método; deixou de ser instrumento e virou cultura”, expõe o articulista.

Confira:

De volta a São Paulo, pós-carnaval, com aquela ressaca moral de quem reaprende a rotina pelo noticiário, tropeço numa notícia aparentemente banal: o BBB26 inaugura a “Máquina do Poder”. A casa ganha uma moeda própria, as “estalecas”, e, com elas, não se compra apenas comida, conforto ou bugigangas. Compra-se um privilégio político: o poder de vetar alguém na próxima Prova Bate e Volta do Paredão.

A ideia é boa demais para passar como entretenimento. Porque o BBB, sem querer, tropeça num dos temas mais subestimados da política real: o veto é um dos poderes mais decisivos do jogo e, paradoxalmente, um dos menos compreendidos pelo público.

A maioria das pessoas imagina política como uma disputa propositiva: quem tem boas ideias, quem apresenta projetos, quem faz acontecer. Só que grande parte do poder institucional, e quase todo o poder tático, está no poder negativo: impedir, atrasar, condicionar, reduzir, desidratar, bloquear, arquivar, judicializar, obstruir, travar a pauta, retirar quórum, segurar assinatura, segurar liberação, segurar parecer. Em suma: vetar.

O aparecimento da “Máquina do Poder” no BBB26 me levou a enxergar com mais acurácia a realidade política brasileira. Não porque um reality explique o país, mas porque, às vezes, a cultura popular funciona como sismógrafo: capta vibrações subterrâneas e as transforma em mecânica visível, em regra explícita, em linguagem cotidiana. Quando um programa de massa coloca o veto à venda como um bem desejável, ele não está apenas inventando uma dinâmica. Está, sem querer, registrando um espírito do tempo.

E é aqui que o sinal se torna incômodo. O veto, que deveria ser um instrumento excepcional, um freio para momentos específicos, um filtro prudencial, um mecanismo de contenção, foi se normalizando. Na última década, deixou de ser evento e virou rotina; deixou de ser recurso raro e virou método; deixou de ser instrumento e virou cultura.

Essa normalização aparece num indicador que qualquer leitor entende: a fila. O veto deixou de ser apenas um dispositivo constitucional e virou acúmulo permanente, congestionamento institucional. No início de 2022, o Congresso começava o ano com 36 vetos pendentes; em 2023, eram 24; em 2024, 27; em 2025, 55 ou 56, dependendo do recorte do início efetivo do ano legislativo; e, em 2026, a abertura do ano começou com 73 vetos pendentes.

Há um detalhe que torna isso ainda mais grave: em 19 de fevereiro de 2026, esses 73 vetos somavam 927 dispositivos vetados. Não estamos falando apenas de quantidade de vetos, mas de uma política fatiada em centenas de cortes, supressões e travas, uma gramática de subtração.

O que é, afinal, poder de veto?

Veto é a capacidade de impedir que uma decisão coletiva aconteça ou de impor um custo tão alto que ela deixa de ser racional. Não é apenas dizer não. É ocupar uma posição institucional, ou deter um recurso estratégico, que transforma o não em realidade.

No BBB, o veto tem um desenho simples: alguém compra o direito de excluir um jogador de uma etapa que poderia salvá-lo. O veto, aqui, não elimina o rival diretamente. Elimina uma chance, um caminho, uma porta. Essa é a essência do veto político: controlar portas.

Na política, o veto raramente aparece como ato dramático e explícito. Ele surge como arquitetura: o sistema cria pontos de veto e distribui chaves de passagem entre atores diferentes. Quanto mais portas e mais chaves, mais difícil mudar o status quo.

A fila existe porque o veto, no Brasil, não é apenas um gesto do Executivo; ele se converte em mecanismo de bloqueio procedimental. Em 2025, por exemplo, 33 vetos trancavam a pauta das sessões do Congresso; em 2026, esse número aparece como 53 em levantamentos sobre a pauta de vetos. Quando a política passa a operar assim, o veto deixa de ser exceção e se converte em infraestrutura do processo decisório. Não é episódio. É modo de funcionamento.

Por que o veto vale tanto?

Porque, em política, mudar é mais caro do que manter.

O status quo é pegajoso. A realidade em vigor já tem orçamento, rotina, base social, burocracia, jurisprudência, contratos e inércia.
Propor exige coalizão. Para fazer algo novo, é preciso somar apoios.
Vetos exigem minoria organizada. Para impedir, muitas vezes basta um ator bem posicionado ou uma minoria com disciplina e timing.
Isso explica um traço constante das democracias: é frequentemente mais fácil bloquear do que construir. E isso não é falha moral. É desenho institucional, muitas vezes deliberado, para evitar decisões intempestivas.

Mas a última década sugere, na prática brasileira, uma mutação: o veto não opera apenas como prudência. Ele opera como moeda de guerra. Quando se acumulam vetos pendentes em série, vetos que trancam a pauta e centenas de dispositivos vetados, o sistema começa a recompensar não a construção de soluções, mas a capacidade de produzir custo para o outro lado. A política se desloca do futuro para o curto prazo, do projeto para a manobra.

O problema brasileiro recente é que esse traço deixou de ser apenas um componente do sistema e passou a ser sua pulsação principal. A política vira uma disputa por travas: quem controla o tempo, quem controla o rito, quem controla a pauta, quem controla o quórum, quem controla o parecer que não sai, a assinatura que não vem, o recurso que não libera, a liminar que suspende, a votação que adia. A energia que deveria ir para pactos mínimos e direção estratégica é drenada para a engenharia da interrupção.

Há um ponto ainda mais duro e esclarecedor: não importa se é Lula ou Bolsonaro. Este não é um texto sobre pessoas nem sobre preferências eleitorais. É um texto sobre engrenagem. O sistema entrou num modo autodestrutivo: produz vetos em série, vive de vetos, remunera o veto, premia o veto, normaliza o veto. Quando isso acontece, a democracia não morre com um golpe. Ela se esvazia por dentro, como uma cidade em que todos aprendem que é mais lucrativo fechar ruas do que construir pontes.

O BBB apenas colocou no palco, e com moeda própria, uma lógica que a política brasileira vem praticando há anos: o poder que mais vale é o de impedir o outro de escapar. A “Máquina do Poder” é um nome perfeito porque revela a verdade escondida. Não se trata de deliberar melhor. Trata-se de operar o poder como dispositivo, como técnica.

E toda técnica que se organiza essencialmente para bloquear, no limite, vira técnica de destruição. O preço não aparece no confessionário do BBB. Ele aparece depois: na incapacidade de fazer o básico, na erosão da capacidade estatal, na perda de horizonte e, sobretudo, nas consequências acumuladas para as próximas gerações, que herdarão o passivo de um país que transformou o não em método e o veto em cultura.

*Elcio Batista

Sociólogo e ex-vice-prefeito de Fortaleza.

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