Com o título “Cadeira Vazia”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
“A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha.” (Mário Quintana)
Confira:
Uma cadeira vazia numa calçada levou-me de volta ao passado. Nela, reencontrei pessoas, histórias e afetos preservados pelo tempo.
Com ela, revi pessoas marcantes em minha vida. Os lugares permanecem, mas muitos já não estão ali. Ainda assim, continuam comigo.
Quando escrevo sobre saudade, procuro não falar da ausência, mas da permanência. Dos gestos aprendidos com os outros, das histórias compartilhadas e dos afetos preservados pelo tempo. Então, dei por mim pensando nas muitas cadeiras vazias da minha vida.
As cadeiras dos meus avós na sala do rádio – mais tarde, da televisão. Dali acompanhavam as notícias do mundo, os programas de auditório e as novelas. Hoje percebo: muito além de corpos, aqueles assentos guardavam presenças.
A cadeira de balanço da minha mãe embalava sonhos, preocupações e alegrias. A cadeira de dentista no consultório do meu pai, onde tantas pessoas encontraram cuidado e confiança. E a cadeira da cabeceira da mesa lá de casa, de onde conduzia as refeições da família e nos deixava ensinamentos preciosos.
A cadeira do amigo partido cedo demais continua ocupando um lugar permanente na memória de quem teve a sorte de conviver com ele.
A cadeira do mestre no ateliê, de onde vinham orientações, críticas generosas e lições para além dos limites da arte, alcançando a própria vida.
A cadeira do cliente em meu escritório de arquitetura, ocupada por quem chegava trazendo sonhos. Nela depositava a confiança de ver desejos transformados em espaços destinados a acolher a existência de famílias inteiras.
E a cadeira da calçada, talvez a mais cearense de todas. Ao cair da tarde, reunia vizinhos, parentes e amigos. Por ela passavam histórias, risos, novidades, lembranças e até os silêncios serenos de quem já não precisava dizer muito para ser compreendido.
Essas cadeiras permanecem na memória. Algumas desapareceram; outras seguem vazias. Basta uma pitada de lembrança para voltarem a ser ocupadas. As pessoas partem, os anos passam, mas os afetos ficam.
Por isso, quando vejo uma cadeira vazia, não penso em ausência. Penso nas vidas ali vividas. Enquanto houver memória, nenhuma cadeira habitada pelo afeto estará verdadeiramente vazia
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.