“Calor insuportável” – Por Saraiva Junior

Saraiva Junior é escritor

“Parte da população nordestina, e quiçá do Brasil, não acredita que estamos sofrendo uma mudança climática. Sabe aquele calor quase insuportável das cidades do Sertão Central? Pois é, não serve de alerta para a conscientização de que o aquecimento global de fato existe”, aponta o escritor Saraiva Junior

Confira:

Em Quixadá, Quixeramobim e Senador Pompeu, ao me encontrar com pessoas conhecidas, recebo sempre queixas de um calor insuportável. Acredito que em outras cidades do interior do Ceará seja também alta a temperatura. Uma das prováveis causas agravadoras das altas temperaturas é o desmatamento.

Na zona rural, o desmatamento é entendido pelos proprietários das fazendas, bem como pelos pequenos produtores, como importante para o nascimento e crescimento, durante o período chuvoso, de pasto para o gado. O desmatamento é uma questão cultural. Os próprios trabalhadores do campo fazem coro aos patrões e dizem que, após a queima da broca, a terra fica melhor para o plantio do milho e do feijão.

Em geral, as pessoas e, principalmente, os políticos não costumam dar a devida importância ao aumento da temperatura e não atinam para a consequente elevação do nível do mar. Para essas pessoas, crise climática é “história para boi dormir”. A maioria prefere os mecanismos de negação, pois não quer enfrentar o problema. Outros não sabem sequer que vivem na floresta de caatinga e nada sabem sobre sua devastação. Para muitos, basta chover que o mato cresce, e está tudo resolvido.

Parte da população nordestina, e quiçá do Brasil, não acredita que estamos sofrendo uma mudança climática. Sabe aquele calor quase insuportável das cidades do Sertão Central? Pois é, não serve de alerta para a conscientização de que o aquecimento global de fato existe. Segundo diversos estudos sobre o meio ambiente, atualmente lançamos carbono na atmosfera a um ritmo muito acelerado, causando aumento no efeito estufa e prejuízo para o destino do planeta e sua capacidade de sustentação da vida humana, dentre outros animais.

Agora, fale em reflorestamento das margens dos rios, riachos, açudes e cercas para os pequenos, médios e grandes proprietários rurais; ou para que os prefeitos plantem mudas de árvores nativas pelas avenidas, ruas e praças das cidades, que ninguém o leva a sério. Talvez tenha o mesmo efeito que mostrar crucifixo para vampiro. Apesar de que sabemos que as árvores tornam as cidades mais belas e melhoram o clima, e que o custo de plantá-las seja baixo para os cofres dos municípios.

Mas eis que, em clima de festa e alegria, o governador Elmano ofertou vários quilômetros de asfalto para as prefeituras de Piquet Carneiro, Senador Pompeu e Pedra Branca. Com certeza, essas cidades irão sofrer cada vez mais com aquele calor insuportável. Espera-se que, com educação sobre o meio ambiente para as crianças, chegue o dia em que asfaltar seja tão constrangedor e tão abominável quanto fumar um cigarro. Ou iremos pregar no deserto.

Saraiva Júnior é escritor e poeta

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