Com o título “Camarilha”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
“Na verdade, jamais abandonemos o paletó da diplomacia.” (Agatha Miou)
Confira:
A palavra vem da Espanha. É diminutivo de câmara, de quarto – já sugerindo o tom reservado: porta fechada, luz discreta, decisões tomadas como se nada estivesse acontecendo. Camarilha é o nome polido para encontros onde quase tudo se decide longe dos olhos alheios.
A raiz latina, camera, indica recinto fechado, muitas vezes abobadado, ideal para que a palavra repercuta mais que a responsabilidade. Dali nasce a imagem da antessala, do aposento reservado onde poucos entram – e onde destinos se alinham, mostrando que a proximidade muitas vezes vale mais que o convencimento.
O termo ganhou relevo na Espanha e logo se ajustou a Portugal e ao Brasil, países sensíveis ao valor do bastidor bem cuidado. Camarilhas atuam com refinada discrição: colaboram sem atas, influenciam sem registros, decidem sem se expor. Debate aberto cansa; cochicho certo produz efeito.
Camarilha é, desse jeito, o que orbita o poder. Não governa oficialmente, mas orienta; não decide, mas encaminha; não responde, mas acompanha. Uma forma eficaz de exercer influência sem se desgastar – ou dar explicações.
Por isso, quem atravessa esse ambiente sem se deixar seduzir por convites, gentilezas ou benesses merece nota. Num país acostumado às camarilhas políticas, altivez, hombridade e desapego ainda provocam estranhamento. Às vezes, chegam a parecer excentricidades – ironia fina para quem aprecia o senso comum.
No uso cotidiano, camarilha atende a nomes mais diretos: panelinha, panela, igrejinha, pandilha, roda, cabala, facção, bando, corja, malta… Mudam-se os rótulos; mantém-se o método. E o método, fiel às suas origens, prefere os ambientes fechados, enclausurados – onde a discrição respira melhor e a ironia raramente precisa ser explicada.
Pois bem, no bar da esquina, a camarilha se reúne religiosamente. Discutem o tempo, a novela, o jornal da televisão. Ali se decidem destinos. Certa vez, um curioso perguntou o que faziam ali. O calejado sorriu e respondeu que nada valia ser contado, mas que tudo que custava já estava resolvido. Assim, entre umas e outras e cochichos, todos seguem, guiados por mãos invisíveis e discretas.
E assim, como nas fábulas, a camarilha continuou invisível, mas onipresente: quem olha de fora vê apenas bares e sorrisos contidos, mas os destinos bailam ao ritmo de decisões silenciosas. Às vezes, a verdadeira magia está no que se faz sorrindo por trás da porta fechada.
As camarilhas fervilham – discretas, invisíveis, mas sempre presentes.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.