Com o título “Caminhar como ato de coragem”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará. “Que leitor não tem uma história de crime nas ruas da cidade envolvendo um familiar, amigo ou conhecido? O que antes se atribuía à periferia, como um estigma geográfico e social, hoje faz parte do cotidiano dos fortalezenses, independente da classe social”, expõe a articulista.
Confira:
No feriado da Páscoa, resolvi me aventurar pelas ruas do bairro. Havia pelo menos um ano eu não percorria, a pé, aquelas calçadas que guardam mais de quatro décadas de minha história. Ao longo do trajeto, fui atravessada pela constatação de que não conheço quase nenhum morador. Os cumprimentos são protocolares de um “bom dia” frio, distante.
Quando cheguei, ainda adolescente, rapidamente me tornei amiga das garotas da minha idade. Os vínculos se estenderam às nossas famílias e alcançaram nossas casas, rotinas. Éramos uma espécie de irmandade, com encontros diários no fim da tarde, confidências e risadas compartilhadas, e a certeza de que aqueles laços seriam eternos. Essa verdade não resistiu ao tempo. Hoje, restam encontros raros em eventos sociais ou quando nos esbarramos no shopping ou na praia.
Daquele tempo, apenas eu, minha irmã e uma vizinha permanecemos no mesmo quarteirão, resistindo como testemunhas de um bairro que, para mim, já não é o mesmo, que foi se esvaziando de suas histórias originais. Mas o que eu quero falar é da aventura de andar pelas alamedas, que se tornou quase um exercício de coragem. Uma espécie de pacto com o imprevisível.
O primeiro obstáculo é vencer o medo que carregamos em uma cidade sitiada por relatos diários de assaltos a pedestres, abordagens marcadas pelo sexismo, casas arrombadas nas madrugadas, vidas invadidas. São notícias que nos levam à exaustão, restringindo nossos movimentos.
Que leitor não tem uma história de crime nas ruas da cidade envolvendo um familiar, amigo ou conhecido? O que antes se atribuía à periferia, como um estigma geográfico e social, hoje faz parte do cotidiano dos fortalezenses, independente da classe social. Precavida, sai sem adornos, sem celular e com algum trocado no bolso, cumprindo um ritual ingênuo e trágico, para, em uma possível abordagem, ter algo para o bandido. Como se a agressão obedecesse a alguma lógica de negociação.
Mas há uma violência ainda mais inquietante: o desrespeito ao pedestre. Naturalizada pela sociedade, conta com o acordo tácito do poder público, que não só a tolera, mas, em alguma medida, a legitima. Essa negligência é vivenciada nas calçadas desniveladas, nas ocupadas por pequenos mercadinhos que fazem delas pontos de venda, nas esburacadas, nas sujas, e, pasmem, nas com batentes.
Esse quadro tornou desafiador o passeio na sexta-feira da Paixão de Cristo. Em alguns trechos, era impossível fazer o percurso no passeio, transformando um simples gesto em um exercício de vigilância constante. Eu era obrigada a descer para o asfalto e disputar espaço com motos, bicicletas e carros.
Se para mim, ainda no vigor físico, o trajeto se revelava exaustivo, o que dizer do idoso?
A precariedade dos passeios públicos expõe, com crueza, a incapacidade de Fortaleza de se projetar para além dos cartões postais turísticos e acolher seus próprios habitantes em todas as fases da vida.
A cada desafio vencido naquela caminhada, me inquietou a dimensão simbólica da perda de valores tão sensíveis. Esquecemos que é um local de convivência, regido por códigos de civilidade, onde vizinhos se reconheciam, crianças brincavam, idosos tomavam sol como quem reivindica um direito elementar à existência.
Contudo, a incivilidade está sedimentada.
Diante desse estágio de degeneração social, proponho, como um ato de resistência, que as ocupemos. Reivindiquemos como espaço de direito e de presença. Devemos cobrar do governo estadual a segurança que nos é devida, e da prefeitura uma atuação mais efetiva na sua recuperação. Mas que também os moradores se reconheçam como parte
desse pacto, assumindo a responsabilidade por conservar e respeitar o que é comum.
Somente assim, as calçadas deixarão de ser territórios de abandono para se tornarem, novamente, lugar de encontro, acolhimento e convivência.
*Suzete Nocrato
Jornalista e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.