Com o título “Candeeiro das Palavras”, eis mais uma história da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Confira:
“As palavras são os suspiros da alma.” (Pitágoras)
Na ânsia de escrever, virou a tigela da sopa de letrinhas sobre a toalha da mesa. Deixou escorrer vogais e consoantes, derramando-as como quem espalha lembranças da infância.
Com o apetite de quem carece de mundo, engoliu palavras inteiras, mastigou frases, sorveu parágrafos. Uma fome que não era de comida, mas de contar as coisas que fervilhavam dentro de si.
Empanzinado de textos, abriu o peito e tacou a contar o gosto das histórias advindas dos tempos, como se cada conto temperasse o espírito.
Fez da sopa um sumo de dizer, e do pão, companhia de sustança. Matou a sede com números – exatos, redondos, em goles de silêncio entre uma ideia e outra.
E, quando a fome se aquietou, aprendeu a falar calado. Feito um candeeiro de saberes, espantou a escuridão, acendendo a alma da vida e a deixou contar, em clarões, o muito que aprendera. Sabia escutar a alma quando tudo o mais calava.
A vida lhe era sertão – simples e feliz, como o palmilhar de quem conhece os atalhos do chão. Aprendia com o canto dos passarinhos, com o tibungar do pote, com o farfalhar das folhas da oiticica. No roçado, no fiapo da prosa à sombra da tarde ou no sereno das noites estreladas, colhia lições – miúdas e graúdas.
Contava o gosto das histórias lidas nas coisas que chegavam no caminhão de feira. Falava das letras como quem fala de tempero: umas ardidas, outras doces feito mel de jandaíra. Escutava de boca aberta, como se as palavras saíssem de uma sanfona teimosa.
Com os números, aprendeu a somar o tempo com as estrelas e a dividir as dores com a esperança e a fé nas rezas de todo dia.
Sentia-se deserto e, no velho rádio, catava cantigas, notícias das terras civilizadas, recados – e o que o aboio não dava conta de alcançar.
Tudo ao redor lhe abastecia: o conselho dos mais velhos, a valentia dos pares, a mansidão da terra depois da chuva. Não via o saber como acúmulo, mas como presença – de alma, de escuta, de olhar.
Aprendia com o tudo e com o nada: com o canto da sabiá ao amanhecer, com o estalar da lenha no fogão, com o cheiro do gado, tilintando os chocalhos no curral ou no pasto. Era um mestre do pouco, um doutor do chão.
Viveu assim: com a alma acesa pelo sertão, entre histórias e silêncios. Feliz. Pleno. À luz do candeeiro sempre aceso.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.