“Vazamentos na Receita e na PF expõem a instrumentalização do Estado e repetem métodos da Lava Jato, agora para pressionar o STF e desestabilizar o governo Lula”, aponta o jornalista Florestan Fernandes Júnior
Confira:
As investigações para identificar servidores da Receita Federal que teriam quebrado o sigilo fiscal de familiares de ministros do Supremo Tribunal Federal revelam mais do que um ilícito administrativo ou penal isolado. Elas expõem o grau avançado de deterioração das instituições públicas brasileiras.
É verdade que práticas desse tipo sempre existiram, especialmente durante a ditadura militar, mas nada se compara à corrosão institucional em curso desde o golpe midiático-parlamentar que derrubou a presidente Dilma Rousseff. O que se observa hoje é um sistema vulnerável, permeável a interesses políticos e econômicos, no qual estruturas do Estado são instrumentalizadas para disputas de poder.
Dos quatro suspeitos investigados pela Polícia Federal, Antônio Martins Nunes é servidor da Receita e um bolsonarista assumido. Outro, Luiz Antônio Martins Nunes, servidor do Serpro, é apontado, segundo reportagem da CNN Brasil, como responsável pela venda de dados sigilosos de ministros do STF e de seus familiares, conforme apuração interna da própria Receita.
O caso da Receita soma-se à recente irritação de ministros do Supremo com vazamentos seletivos de trechos da investigação envolvendo o Banco Master, atribuídos a agentes da Polícia Federal. Informações que vêm alimentando o noticiário da mídia corporativa, sobretudo após a prisão de Jair Bolsonaro.
O método não é novo. Trata-se de um remake da Operação Lava Jato, quando vazamentos “bombásticos” eram repassados a jornalistas da chamada “grande imprensa” e divulgados com estardalhaço às vésperas de votações decisivas. A estratégia funcionou: criminalizou a política, inviabilizou o governo Dilma e abriu caminho para a condenação sem provas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Vale recordar a frase emblemática dita há dez anos pelo então senador Romero Jucá, ao defender a derrubada de Dilma. Para ele, era urgente “estancar a sangria” da Lava Jato por meio de um acordão envolvendo Congresso, mercado financeiro, mídia e, em suas palavras, “com o Supremo, com tudo”. A revelação do áudio escancarou os bastidores da articulação que levou Michel Temer ao poder.
Hoje, a narrativa parece mirar outro objetivo: criar cizânia entre o STF e o Executivo, instituições que se mantiveram relativamente alinhadas desde a tentativa frustrada de golpe bolsonarista após a derrota eleitoral de Bolsonaro para Lula.
O sonho persistente de parcelas da elite brasileira segue sendo a construção de uma suposta “terceira via” entre lulismo e bolsonarismo, algo pouco crível em um país profundamente dividido. Para isso, tenta-se abrir espaço para os “Ratinhos” da vida, políticos que representam interesses de grupos que drenam as riquezas nacionais e se mostram indiferentes à defesa da soberania do país.
Nesse cálculo, não se descarta sequer a inelegibilidade de Lula, com o Tribunal Superior Eleitoral, agora sob nova direção, tendo à frente os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça.
Diante desse cenário, o próprio STF se vê fragilizado quando um de seus membros, como Dias Toffoli, acumula explicações pendentes sobre suas relações financeiras envolvendo o resort Tayayá e o Banco Master. Mais uma vez, assiste-se à repetição de um roteiro que combina vazamentos seletivos, manipulação política e erosão democrática, sempre em nome de um suposto “ajuste” que cobra seu preço mais alto justamente dos de baixo.
Florestan Fernandes Júnior
Jornalista, escritor e Diretor de Redação do Brasil 247