“Ceará, o Atlântico da Inteligência” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é PhD em Informática por Sorbonne. Foto: Arquivo Pessoal

Com o titulo “Ceará, o Atlântico da Inteligência”, eis artigo de Mauro Oliveira, doutor em Informática pela Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. 

Confora:

Diz o outdoor de uma revenda em Fortaleza que ali “um pneu é um pneu”. Ou seja …
∀x(x=pneu→literal(x)) … rsrsr!

Usando a mesma lógica, “uma nuvem deveria ser apenas uma nuvem’. Branca, leve e sem boleto.

O vício da metáfora é enganoso: nuvens meteorológicas são passivas, não consomem nada, não aquecem nada e não competem com ninguém. Ao contrário, são o mungunzá esperançoso do sertanejo do meu Padim a aguar o plantio.

Já a “nuvem” da Inteligência Artificial, porém, não habita o céu; habita o território. Quando pousa, não levita: demanda megawatts, água, licenciamento ambiental, subestação, fibra óptica, redundância, PPAs (Power Purchase Agreements) e diplomacia energética.

No mundo físico, nuvem de IA não flutua … compete. É uma disputa, portanto, territorial e material, não celestial.

O porto do Pecém ainda é contêiner, Transnordestina chegando e ZPE por dentro; por fora, ingressa em sua puberdade digital: baixa latência, energia renovável e tráfego internacional de dados. Esse combo raro o tornou peça estratégica na geopolítica da IA e alvo natural de big techs e investidores globais.

Por que isso pode ser uma grande oportunidade?

Nos últimos cinco anos, o Ceará passou a ocupar uma posição de destaque no mapa global da Inteligência Artificial, ao combinar um conjunto singular de ativos estratégicos: energia limpa, porto estratégico internacional, entrada nacional dos cabos atlânticos, a ambição de se tornar corredor atlântico de hidrogênio verde etc.

Por que isso exige atenção estratégica?

Historicamente, o Estado brasileiro apresenta baixa exigência de contrapartidas estruturantes nas negociações de grandes investimentos tecnológicos. Essa assimetria torna o território altamente atrativo ao capital global, mas insuficiente para promover desenvolvimento nacional sustentável caso não seja acompanhada de estratégias claras de negociação, governança e captura de valor. Sem esses instrumentos, há o risco de converter vantagens comparativas em oportunidades perdidas.

*1. Qual o problema na geopolítica?*

Na geopolítica da Inteligência Artificial, o principal gargalo já não é o algoritmo, mas o megawatt. A energia necessária para treinar e operar modelos de IA generativa cresce de forma exponencial, enquanto a infraestrutura de geração, transmissão e distribuição elétrica não avança no mesmo ritmo, criando um ponto cego estratégico.

Enquanto o mundo discute invasões do mais porreta no Norte no quintal do vizinho na América Latina, as big techs operam em outro tabuleiro: firmam contratos de fornecimento de energia de longo prazo (PPAs de 15 a 20 anos), assegurando acesso estável e previsível a um insumo que se tornará cada vez mais escasso nesta década. Elas sabem disso, e no Sul Global ainda não “caiu a ficha”.

Se o Sul Global insistir em jogar na retranca, o conflito energético da IA deixará de ser geopolítico e se tornará doméstico, impondo dilemas cotidianos e duros como escolher: zap ou chuveiro quente.

Casos internacionais mostram que datacenters sem governança geram atritos: no Texas houve protestos por tarifas e subsídios; Irlanda e Holanda adotaram moratórias por saturação elétrica e ambiental; Singapura pausou autorizações por falta de água e energia; a Índia atraiu demanda energética, mas pouca indústria; e países africanos receberam CAPEX estrangeiro sem retenção de valor local. A América Latina, porém, ainda joga na divisão errada: trata datacenter como renúncia fiscal, não como política industrial.

Como destaca Tiago Guimarães, Coordenador da AJE Fortaleza, em seu artigo “H2V e Datacenters” (DN, 10/jan/26):
“… aceitar a instalação de data centers no Ceará sem contrapartidas claras significa repetir um modelo histórico conhecido: ceder território, energia e recursos naturais enquanto o valor agregado é produzido fora.”

*2. Aplicando a 1ª Lei de Seu Toim*

Totonho Laprovitera, nosso arquiteto-poeta de marca maior, conta que Seu Toim, lá no frio de Pacoti, vira uma fera quando jogam entulho no terreno de sua bodega “Pague Mais” (rsrs). OPA! Mas tem uma exceção: se o dono do entulho pagar bem… então, aí pode!

O Ceará poderia aprender com Seu Toim: considerando que datacenter é um tarado energético (nem Red Bull resolve), um egoísta científico (não emprega pesquisador), um sovina tecnológico (não transfere conhecimento) e um agente secreto de dados (não deixa auditar o que captura), vale a 1ª Lei de Seu Toim: sem contrapartida, transparência e auditoria séria, datacenter pode ser um “entulho no terreno” … a menos que “paguem bem”!

Na ausência de cláusulas robustas de soberania, o investimento ingressa como CAPEX estrangeiro utilizando o território como base energética intensiva e infraestrutura subsidiária do Sul Global. O risco é o Datacenter de Troia (ou de Shenzhen, ou do Texas etc): chega com o presente do investimento e parte levando energia, dados sensíveis e deixando os passivos ambientais para o anfitrião.

Assim, a “energia que nos sobra hoje”, e que talvez fique escassa lá adiante, não pode ser o único argumento para atrair datacenters. Com isenções do REDATA (Regime Especial de Tributação para Data Centers), é preciso exigir contrapartidas e garantias ambientais.

É preciso entender, “de Vera”, que energia será a commodity geopolítica mais cobiçada desta década. Se antes se invadia por petróleo, agora poderá ser por megawatts. Quem controlar energia firme controlará a indústria, a IA e … quase tudo.

*3. Data center consome energia?*

Datacenter não consome energia. Ele disputa energia, no tempo e no território. Compete com indústria, agricultura, cidades, pequenas e médias empresas e com a própria agenda ambiental. E disputa, ainda, com o ritmo da transição energética, cuja equação entre geração, armazenamento, transmissão e preço segue em aberto.

Eólica e solar são limpas e baratas, mas intermitentes: brilham e sopram quando querem, não quando os servidores precisam. Assim, em quase todos os mercados com datacenters de grande porte, a “reserva firme” ainda vem de fontes fósseis, discretas e resilientes, acionadas silenciosamente quando o “algoritmo” não pode parar.

O paradoxo é evidente: a nuvem se vende verde no marketing, mas exige térmica na contingência. Daí a defesa da participação de entidades representativas e da academia especializada, ao lado do governo, no planejamento e na negociação de contrapartidas para não virarmos “colonizados úteis. É o que propõe o documento “Datacenters de IA no Ceará”, entregue ao Governo do Ceará.

*4. A métrica que importa: PUE*

Se no artigo anterior (“A Água Invisível dos Datacenters: quando a nuvem pousa no semiárido”) discutimos o problema hídrico dos datacenters de IA, agora o tema é energético … last but not least.

Aqui, o WUE (Water Usage Effectiveness) cede o pódio ao PUE (Power Usage Effectiveness). O discurso da “energia limpa” finalmente esbarra no mundo real dos megawatts:

Quem provê, quem paga, quem prioriza, quem audita e quem lucra?

O PUE mede a eficiência energética dos datacenters ao relacionar o consumo total de energia com a energia efetivamente utilizada pelos equipamentos de TI. Quanto maior o PUE, menor a eficiência da infraestrutura.

Mas aqui vem a sutileza:
PUE baixo não é sinônimo de ‘verde’; é sinônimo de eficiência.
Um PUE 1,12 alimentado por carvão é eficiente e sujo.
Um PUE 1,25 alimentado por eólica é menos eficiente e muito mais limpo.

Sustentabilidade de datacenters não pode ser avaliada por um único indicador. Ela exige a leitura conjunta de PUE, matriz energética e métricas ambientais complementares. Sem auditoria, métrica vira marketing. WUE e PUE só geram governança quando são monitorados com transparência e penalidade. E narrativa não alimenta IA, alimenta LinkedIn.

*5. Soberania não se negocia sozinho*

A provisão energética para datacenters de Inteligência Artificial deve ser estruturada por meio de contratos soberanos, capazes de internalizar externalidades territoriais, mitigar assimetrias e converter megawatts em valor econômico, tecnológico e social.

Sem contrato, há promessa; com contrato, há obrigação com métricas e penalidade. Na IA, contrato não é só jurídico, é geopolítico: define tarifas, prioridade energética, governança, riscos, captura de valor e accountability.

Se a IA é infraestrutura civilizatória, a sociedade precisa estar à mesa. Isso exige governança multissetorial envolvendo academia, ICTs, setor elétrico e produtivo, entidades empresariais, sociedade civil e diplomacia científica.

Um contrato inteligente para datacenters deveria contemplar, além dos pontos acima:
auditoria independente, contingência térmica + elétrica, transparência pública periódica, contrapartidas territoriais estruturantes (formação, P&D, indústria, dados públicos, certificação, transferência tecnológica).

Sem academia, perde-se a ciência, o rigor metodológico, a comparação internacional.
Sem entidades, enfraquece-se a voz do setor produtivo e e a conexão com a economia real.
Sem sociedade civil, e a conexão com a economia real
Sem território, compromete-se a soberania.

E sem soberania, o Estado vira fornecedor de energia barata para capital estrangeiro, enquanto valor econômico, ciência e indústria saem pelo cabo. A diplomacia energética da IA exige governança, negociação e desenvolvimento sustentável, mesa ampla, método claro, contrato soberano, coordenação federativa, a chamada quadrúplice hélice e métricas auditáveis.

Quem controla a energia controla a IA.
Quem controla a IA controla o século.

*7. Conclusão: Ceará, o Atlântico da Inteligência*

O futuro não é um lugar para onde viajamos, é um território que disputamos.

No século XXI, essa disputa não será travada por bandeiras, mas por megawatts, cabos submarinos, negociações, arranjos de governança, contratos e cérebros.

É nesse tabuleiro que o Ceará entrou sem pedir licença e sem perceber, talvez, que estava desenhando uma tese estratégica rara para o futuro: IA, energia, Atlântico.

Poucos territórios do planeta concentram, na mesma geografia, vento, sol, porto, cabos, juventude, ciência … Atlântico. O Ceará, moldado por vento e teimosia, reúne todos esses atributos. O que ainda faltava era reconhecer que isso não era apenas paisagem … era geopolítica.

A questão não é mais receber ou não datacenters, mas para quem, com que finalidade e sob quais contrapartidas. Datacenter deixou de ser infraestrutura de TI para virar infraestrutura estratégica, afetando soberania digital, política industrial, diplomacia energética e desenvolvimento territorial. Bombeia megawatts, captura dados, demanda pesquisa e reconfigura mercados. Por isso, é justo negociar bem as contrapartidas (1ª Lei de Seu Toim).

O desafio não é só atrair, é negociar. E negociar não é só dar isenção, é definir o padrão de troca.

A proposta “Datacenters de IA no Ceará”, apresentada pelo IRACEMA Digital ao Governo do Estado, acerta ao reposicionar o eixo do debate: mais do que um parecer técnico, constitui um chamado à governança democrática da infraestrutura digital.

Os responsáveis pelas políticas públicas do Ceará precisam “convocar” os filhos da terra de Bárbara de Alencar, de Casimiro Montenegro, de Rodolfo Teófilo e tantos outros que entenderam a “equação da oportunidade” e mudaram “o Saara”, como Garcia Marques diante da pirâmide.

Se o Ceará compreender essa “nova equação” antes dos outros (IA + energia limpa + Atlântico + ciência + juventude), poderá liderar o Nordeste na economia inteligente, consolidar-se como referência nacional em governança de datacenters e inaugurar um corredor atlântico próprio de desenvolvimento …

*o Atlântico da Inteligência.*

*Mauro Oliveira

Doutor em Informática (Sorbonne University), Mestre em Eng Elétrica (PUC-Rio), Eletrotécnico (IFCE). Foi Secretário de Telecomunicações do Ministério da Comunicações (2003)

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