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“Celebração Pascal e a Realidade” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvalho é advogado e mestre em Negócios Internacionais.

Com o título “Celebração Pascal e a Realidade”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e mestreem Negócios Internacionais. “Celebrar a Páscoa de forma viva, no contexto atual, é tornar-se sinal dessa ressurreição no cotidiano. É permitir que a transformação pascal aconteça em si e, a partir daí, alcance o mundo”, expõe o articulista.

Confira:

A realidade contemporânea – marcada por conflitos armados, desigualdades profundas, violências estruturais e pela inquietante naturalização do ódio – interpela diretamente o modo como celebramos a Páscoa. Se ela é, de fato, a maior celebração cristã, não pode ser reduzida a um rito desvinculado da vida concreta. A sua força está em iluminar a história
humana, sobretudo nos seus momentos mais sombrios. É precisamente dentro do Tríduo Pascal que essa luz se revela com maior densidade e sentido.

Na Quinta-feira Santa, ao recordar a Ceia do Senhor e o gesto do lava-pés, somos introduzidos na lógica do serviço. Em um mundo onde predomina a ostentação dos muito ricos e a marginalização dos mais pobres, Cristo inverte as categorias: o maior é aquele que serve. Celebrar este dia de forma viva exige mais do que memória — requer compromisso com uma ética do cuidado. Cada gesto gratuito, cada atitude de solidariedade, cada presença junto aos que sofrem, torna atual esse movimento de descida e entrega. É ali, no serviço silencioso e muitas vezes invisível, que a Páscoa começa a ganhar forma.

A Sexta-feira Santa nos coloca diante da cruz – não como símbolo abstrato, mas como expressão concreta da dor humana. As guerras, os feminicídios, os ataques às minorias e toda forma de violência encontram eco nesse dia. A cruz de Cristo continua erguida na história. Celebrá-la não é glorificar o sofrimento, mas reconhecer que Deus não se ausenta dele. Ele o assume. E, ao fazê-lo, denuncia toda estrutura que produz morte. Neste sentido, viver a Sexta-feira Santa hoje é recusar a indiferença, é não aceitar como normal aquilo que fere a dignidade humana. É permanecer junto aos crucificados do nosso tempo, não como espectadores, mas como presença solidária.

O Sábado Santo é o dia do silêncio, da espera e da aparente ausência. É talvez o mais desafiador, pois reflete as experiências humanas de vazio, incerteza e escuridão. Em um mundo que busca respostas imediatas e soluções rápidas, o Sábado Santo ensina a permanecer, a resistir e a confiar mesmo quando tudo parece perdido. Ele representa aqueles momentos em que a vida parece suspensa, em que a esperança vacila. Contudo, é justamente nesse silêncio fecundo que a transformação se prepara. A Páscoa amadurece no invisível.

E, então, chega a Vigília Pascal, a noite que rompe as trevas. A ressurreição não é apenas o retorno à vida, mas a inauguração de uma nova realidade. Ela não nega a cruz, mas a supera. É a afirmação de que a morte, o ódio e a injustiça não têm a última palavra. Contudo, essa vitória não se manifesta de forma estrondosa, mas discreta – no coração daqueles que vivem para o outro.

A centralidade da Páscoa é, portanto, universal, mas se concretiza naqueles que, muitas vezes no anonimato, encarnam essa nova vida: nos que socorrem em situações extremas, nos que oferecem um sorriso sem interesse, nos que rompem com estruturas de opressão, inclusive interiores, nos que escolhem amar quando seria mais fácil odiar.

Celebrar a Páscoa de forma viva, no contexto atual, é tornar-se sinal dessa ressurreição no cotidiano. É permitir que a transformação pascal aconteça em si e, a partir daí, alcance o mundo.

E é justamente aqui que se encontra a mensagem final: apesar de tudo – das guerras, das desigualdades, da violência e da indiferença – a esperança permanece possível. Não como ingenuidade, mas como decisão. A Páscoa nos assegura que toda realidade de morte pode ser transformada, que nenhuma noite é definitiva e que, mesmo nas situações mais difíceis,
a vida encontra caminhos para florescer.

Assim, celebrar a Páscoa é afirmar, com a própria existência, que a luz ainda vence as trevas – e que cada gesto de amor, por menor que pareça, é já um sinal concreto de ressurreição no mundo.

*Vanilo de Carvalho

Advogado e Mestre em Negócios Internacionais.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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