Com o título “China e a Nova Rota da Seda: a Ascensão de uma Nova Ordem Geopolítica”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado, professor e mestre em Negócios Internacionais. “Muito se discute acerca do eventual declínio da influência dos Estados Unidos. Na realidade, parece mais adequado falar em redução da hegemonia absoluta do que em decadência”, expõe o articulista.
Confira:
As primeiras décadas do século XXI testemunham uma das mais profundas transformações da geopolítica desde o fim da Guerra Fria. Se, após a dissolução da União Soviética, consolidou-se uma ordem internacional marcada pela hegemonia dos Estados Unidos, o cenário contemporâneo revela uma significativa redistribuição do poder global. Nesse contexto, a República Popular da China emerge como
protagonista de uma nova configuração internacional, ampliando sua influência econômica, tecnológica, diplomática e militar.
O principal instrumento dessa estratégia é a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative – BRI), um ambicioso projeto lançado em 2013 pelo presidente Xi Jinping, destinado a fortalecer a conectividade entre continentes, expandir mercados e consolidar uma rede de cooperação capaz de reposicionar a China no centro das relações internacionais.
Mais do que um conjunto de investimentos em infraestrutura, a Nova Rota da Seda representa um novo paradigma de projeção de poder, baseado na integração econômica, na interdependência comercial e na construção de parcerias estratégicas.
A Nova Rota da Seda: um projeto global
Inspirada nas antigas rotas comerciais que ligavam a China ao Oriente Médio e à Europa durante séculos, a Nova Rota da Seda busca reconstruir esses corredores comerciais em escala inédita.
• portos marítimos;
• ferrovias;
• rodovias;
• aeroportos;
• usinas de energia;
• redes digitais;
• cabos submarinos;
• centros logísticos.
Ao financiar obras de infraestrutura em dezenas de países da Ásia, África, Europa e América Latina, a China amplia sua presença econômica e fortalece sua influência política sem recorrer à ocupação militar ou à imposição direta de governos aliados.
Essa estratégia diferencia-se das formas tradicionais de expansão das grandes potências, privilegiando mecanismos de cooperação econômica como instrumento de liderança internacional.
A transformação da China em potência global
Nas últimas quatro décadas, a economia chinesa experimentou uma expansão sem precedentes. A China deixou de ser reconhecida apenas como “a fábrica do mundo” para tornar-se uma potência tecnológica, científica e financeira.
• liderança mundial na produção industrial;
• domínio crescente da indústria de veículos elétricos;
• liderança em energia solar e baterias;
• investimentos maciços em inteligência artificial;
• avanços em computação quântica;
• desenvolvimento de semicondutores nacionais;
• ampliação da indústria aeroespacial.
Esses investimentos revelam uma estratégia de longo prazo destinada a reduzir a dependência tecnológica do Ocidente e garantir autonomia em setores considerados estratégicos para a segurança nacional.
A disputa tecnológica entre China e Estados Unidos
A competição entre China e Estados Unidos deixou de concentrar-se exclusivamente na dimensão militar. Hoje, o centro da disputa encontra-se na inovação tecnológica. A liderança em inteligência artificial, computação quântica, telecomunicações, biotecnologia, satélites e semicondutores tornou-se elemento fundamental da competição entre as duas maiores economias do planeta.
Os Estados Unidos procuram restringir o acesso chinês às tecnologias mais avançadas, especialmente no setor de chips de última geração. Por sua vez, Pequim intensifica seus investimentos em pesquisa, inovação e desenvolvimento industrial, buscando alcançar autossuficiência tecnológica. Essa competição moldará, em grande medida, o equilíbrio internacional das próximas décadas.
Taiwan: o principal foco de tensão internacional
Entre todos os desafios geopolíticos atuais, poucos apresentam potencial de instabilidade comparável ao estreito de Taiwan. Para o governo chinês, Taiwan constitui parte inseparável do território nacional e sua reunificação permanece objetivo permanente do Estado. Já os Estados Unidos mantêm relações estratégicas com Taiwan e defendem sua capacidade de autodefesa, entendendo que qualquer alteração unilateral do status quo comprometeria o equilíbrio regional.
Os BRICS e a construção de uma ordem multipolar
Outro elemento importante da ascensão chinesa encontra-se no fortalecimento dos BRICS. A ampliação do bloco demonstra o interesse crescente de diversos países por mecanismos alternativos de cooperação econômica, financiamento e desenvolvimento.
• fortalecimento do comércio entre países emergentes; • ampliação do uso de moedas nacionais;
• fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento;
• redução da dependência das instituições financeiras tradicionais.
Embora o dólar permaneça a principal moeda internacional, observa-se crescente diversificação dos instrumentos financeiros utilizados no comércio mundial.
O suposto declínio da hegemonia americana
Muito se discute acerca do eventual declínio da influência dos Estados Unidos. Na realidade, parece mais adequado falar em redução da hegemonia absoluta do que em decadência. Os Estados Unidos continuam detendo vantagens significativas: maior capacidade militar; extensa rede de alianças; universidades de excelência; liderança científica; domínio das maiores empresas globais de tecnologia; centralidade do dólar. Todavia, enfrentam desafios relevantes, como a crescente polarização política, o elevado endividamento público e a necessidade de responder simultaneamente a crises em diferentes regiões do mundo.
*Vanilo de Carvalho
Advogado, professor e mestre em Negócios Internacionais.