Com o título “Chip, cérebro e escola”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Confira:
“Estou montado no futuro indicativo…” (AlceuValença)
Sempre me atraem temas que fogem do óbvio e nos desafiam a pensar de outro modo. Entre dúvida e reflexão, aprendo muito.
A conversa aconteceu no encontro semanal da padaria, organizado por Juarez Leitão, com participantes cultos, inteligentes e bem-humorados.
Quando ouvi falar da existência de um tal “chip líquido” – capaz de circular pelo corpo humano, controlar pessoas ou estar escondido em vacinas – levei um susto. E confesso: por um instante, também fiquei maravilhado. A ideia parecia saída de um filme de ficção científica, daqueles que misturam medo e encantamento na mesma cena.
A curiosidade, porém, levou-me a perguntar a quem entende do assunto. Um especialista em microeletrônica foi categórico: não existe tecnologia alguma que se enquadre nessa descrição. Segundo ele, o conceito não dialoga nem com a ciência atual dos semicondutores, nem com a biologia humana. O chip líquido, ao menos por enquanto, reside mais na imaginação do que na realidade.
Talvez o fascínio venha de nossa forma rígida de pensar a tecnologia. Quando falamos em inovação, surgem imediatamente imagens de objetos sólidos, brilhantes, com arestas, luzes e circuitos – tudo muito geométrico, muito industrial. Mas basta olhar de perto para o cérebro humano – essa massa irregular, silenciosa e orgânica – para perceber que a inteligência não se organiza em linhas retas.
Seguimos, em grande parte, presos a uma visão de progresso herdada da Revolução Industrial, na qual a ciência caminha de mãos dadas com a máquina. No entanto, é possível que a própria inteligência nos conduza a outros caminhos: imaginar a matéria em transformação, capaz de se tornar líquida, gasosa ou, quem sabe, imaterial – pura luz.
O problema é que não ousamos pensar além do conhecido. Somos conservadores, transformamos o impossível em opinião descartável e erguemos barreiras invisíveis que nos impedem de sair da caixa. Em nome da ordem, acabamos preferindo disciplina à orientação, controle à curiosidade.
Isso se evidencia especialmente na educação. Não acredito em adestradores de pensamento, mas em educadores. A melhor escola não ensina a repetir; ensina a pensar. E, no fim, pensar bem talvez seja o primeiro passo para viver melhor – e, quem sabe, ser feliz.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Uma resposta
Destaco do brilhante artigo:
O problema é que não ousamos pensar além do conhecido. Somos conservadores, transformamos o impossível em opinião descartável e erguemos barreiras invisíveis que nos impedem de sair da caixa.
Comentário:
Sou da área de computação e durante muito tempo as pessoas que utilizavam os sistemas só recebiam dados previamente conhecidos em relatórios padrões. Ninguém conseguia fazer outras análises. Mas alguém ousou disponibilizar os dados e muitos passaram a tabular em planilhas. A imaginação fértil de muitos conseguiu estabelecer associações, padrões e gerar relatórios impensáveis por quem havia projetado o aplicativo na forma inicial.
Business Intelligence e análise de dados por diversos usuários quebraram barreiras invisíveis (para uns) e foi possível sair da caixa.