“Ciro Gomes coloca o fígado no lugar do cérebro” – Por Francisco Bezerra

Francisco Bezerra é jornalista e escritor

Com o título “Ciro Gomes coloca o fígado no lugar do cérebro”, eis artigo de Francisco Bezerra (Bezerrinha), jornalista e escritor. “Em suas entrevistas aqui na taba, o pré-candidato a governador do Ceará tem jogado ao vento diatribes, catilinárias aos borbotões contra seus adversários”, expõe o articulista.

“O ódio é o prazer mais duradouro.Os homens amam com pressa, mas odeiam com calma.“ Lord Byron, poeta britânico do século XIX, expoente maior do ultrarromantismo.

Confira:

Começo este artigo pedindo ao caro leitor desculpas pelo circunlóquio que terei que fazer. Mas para chegar onde quero é preciso ir cercando-lourenço. Eu começo esta narrativa citando um condestável da política brasileira do século XX: Ulysses Guimarães, que ao longo de sua trajetória vital parece ter sido tirado de alguma epopeia. Um intimorato coerente, digno e incorruptível. Caráter sem jaça, o Ulysses que não é o de Homero, saiu dos bancos da academia do Largo do São Francisco para se transformar em figura mítica na vida pública nacional. Além de todos os predicados já citados o Senhor Diretas, assim ele ficou cognominado na campanha das Direta Já, em 1984, era ainda um grande frasista. A expressão “não se faz política com o fígado” é atribuída a Ulysses, que deve ter dito a frase em suas perorações em muitos palanques Brasil afora. No jargão da política, a sentença significa agir movido por emoções vigorosas como ressentimento, raiva, ódio e mágoa. É uma expressão de sentido figurado que se opõe à “política feita com a cabeça” (ou com o cérebro), que exige razão, diálogo, estratégia e planejamento. É de Ulysses também a seguinte epígrafe: “Em política, até a raiva é combinada.” É por estas e por outras citações que Ulysses Guimarães virou uma espécie de oráculo da política nos tristes trópicos.

Feita a digressão, volto a abordar o comportamento histriônico do ex-quase-tudo Ciro Ferreira Gomes. Sobre ele, há que se dizer preliminarmente duas coisas que o notabilizaram ao longo de sua caminhada na vida pública: o poder da retórica e os rompantes, que sempre foram seus algozes. Pavio curto, arrogante, estourado, bravateiro, dele já se disse quase tudo.

Em suas entrevistas aqui na taba, o pré-candidato a governador do Ceará tem jogado ao vento diatribes, catilinárias aos borbotões contra seus adversários. O estabanado aspirante a chefe do executivo do nosso estado tem trocado a cor cinzenta de sua massa cefálica pelo marrom-avermelhado do fígado. Talvez ele não dê nenhuma importância ao que apregoou o velho timoneiro da resistência democrática durante os anos de chumbo. Nos seus discursos de pré-campanha, denota-se ressentimento, raiva, ódio e mágoa. Mágoa da família, do PT, de Lula, de Camilo Santana… Estaria Ciro Gomes movido também pelo mais abjeto dos sentimentos humanos: a inveja?

Quem como eu leu a Divina Comédia de Dante Alighiere, o fabuloso poeta italiano, sabe que ele narra, na segunda parte da obra, os tormentos das almas do purgatório, que expiam os pecados até serem purificadas para entrar no Paraíso. O purgatório é descrito como uma montanha, dividida em sete círculos, uma para cada pecado capital. No segundo círculo estão os invejosos, cujos olhos são costurados com arame. Eles foram castigados com a privação da visão porque, em vida, a tudo dirigiram um olhar deformado – a alegria e a felicidade alheias só lhes causavam desprazer.

De Caim, no Gênesis, a Iago da tragédia Otelo, de Shakespeare, vários são os personagens invejosos marcantes da literatura. Entre os diversos escritores que se dedicaram ao tema, o norte-americano Herman Melville (1819-1891) nos legou literatura das mais instigantes. Billy Budd, uma novela só publicada, após a morte do autor, é um verdadeiro tratado sobre a inveja. O cenário da novela é um navio, onde Claggart, oficial contramestre, é tomado de inveja por Billy Budd, um simples marinheiro. Billy é querido por toda a tripulação por contra de sua espontaneidade e bondade, além de uma beleza radiante que o faz parecer um anjo.

A simples visão desta criatura tão perfeita se torna insuportável para Claggart, que mais do que ninguém é consciente das qualidades físicas e morais de Billy Budd. É a inveja da malícia diante da inocência, da natureza perversa diante da vitalidade alegre e franca – um rancor que só se contenta com a destruição completa de sua vítima.

Aqui, nos tristes trópicos, a editora Objetiva, depois comprada pela Companhia das Letras, propôs e o consagrado jornalista Zuenir Ventura escreveu o livro Inveja – Mal secreto. Nele, Ventura descreve, de forma sintética, três sentimentos muito comuns entre nós mortais: a cobiça, o ciúme e a inveja. Para Zuenir, a cobiça é querer o que não se tem; o ciúme é o medo de se perder o que se tem; a inveja, segundo o autor, é terrível, pois não é querer o que o outro tem, é querer que o outro não tenha.

Já o irreverente e influente escritor, poeta e dramaturgo irlandês, Oscar Wilde, legou aos pósteros frase das mais enigmáticas. Disse ele: “qualquer um ser simpático ao insucesso de um amigo é natural, agora ser simpático ao sucesso do amigo é algo quase sobrenatural.”

Conforme a tradição católica, a inveja é um dos sete pecados capitais. A Bíblia trata do assunto em Provérbios. No capítulo 13, versículo 30, diz a palavra de Deus: “O coração em paz dá vida ao corpo, mas a inveja apodrece os ossos.” Geralmente o invejoso não poupa a si de um sentimento que corrói a alma e é considerado o mais abjeto de todos: o ódio. Pode-se dizer que a inveja é o combustível do ódio. Ou seriam os dois irmãos siameses? Vale lembrar o que Shakespeare disse sobre o ódio, “o ódio é você tomar o veneno e esperar que o outro morra.”

Depois de tantas sentenças sobre a inveja, meus caros leitores, a pergunta que não quer calar: estaria Ciro Gomes possuído do mal secreto que quem tem finge que não tem ou esconde no recôndito de sua alma ao crivar de injúrias, calúnias e difamações, sobretudo Lula e Camilo? Será que o agressor queria ser presidente, ou em não querendo ser queria apenas que Lula não fosse? São indagações que nos rondam a mente e talvez só Freud soubesse decifrar o enigma. Com efeito, Eudoro Santana, pai do senador Camilo, lá atrás, quando ainda não tinha virado alvo dos impropérios de Ciro, o aconselhou a fazer análise. Quando o conselho é dado com a melhor das intenções é sempre de bom alvitre levá-lo em consideração. Vai ver o primogênito do seu Euclides acha que conselho é como rapé…

*Francisco Bezerra

Jornalista e escritor, atuou em rádio, jornal e televisão. Publicou as revistas Poder Local, Nordeste VinteUm, Educação Profissional e Ciência e Tecnologia. Atualmente preside o Instituto Nordeste XXI, sediado no Ceará.

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