Com o título “Como ressignificar Tiradentes nos dias de hoje?”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta segunda-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Ressignificar Tiradentes é tirar a data do conforto do feriado e colocá-la no campo da provocação. É perguntar se somos, de fato, nação autônoma ou apenas integrada de forma passiva a sistema global desigual”, expõe o colunista.
Confira:
O 21 de abril, a ser comemorado amanhã como mais um feriado, costuma passar pelo calendário brasileiro como outra pausa bem-vinda na rotina. Descanso, viagem curta, pouca reflexão. No entanto, a data que marca a execução de Joaquim José da Silva Xavier carrega simbolismo que, se levado a sério, deveria incomodar mais do que acomodar.
Transformado em mártir após a Proclamação da República, Tiradentes virou a face de ideal inspirado pelo Iluminismo, envolvendo liberdade, autonomia e ruptura com estruturas de dominação. À época da Inconfidência Mineira, isso significava enfrentar o controle de Portugal e sonhar com república independente. Hoje, o cenário é outro — mas a essência do desafio permanece.
Vivemos em mundo formalmente livre, mas profundamente interdependente. Potências globais disputam influência não apenas com armas, mas com tecnologia, informação e poder econômico. Países como o Brasil não são colônias, mas frequentemente operam sob pressões externas que limitam sua autonomia real. A dependência não desapareceu; apenas mudou de forma.
Nesse contexto, manter o espírito iluminista exige mais do que reverenciar heróis. Exige compreender que independência, no século XXI, passa por soberania tecnológica, capacidade produtiva e autonomia política. Não se trata de isolamento, mas de equilíbrio — de não se submeter automaticamente a interesses de potências como Estados Unidos, China ou Rússia.
Há ainda dimensão interna que não pode ser ignorada. O Brasil que celebra Tiradentes é o mesmo que convive com desigualdades profundas, acesso desigual a direitos básicos e cidadania muitas vezes limitada. Que independência é essa que não alcança todos? O próprio movimento que elevou Tiradentes à condição de símbolo não propunha mudanças estruturais como o fim da escravidão. A história, portanto, exige revisão — e não apenas celebração.
Ressignificar Tiradentes é tirar a data do conforto do feriado e colocá-la no campo da provocação. É perguntar se somos, de fato, nação autônoma ou apenas integrada de forma passiva a sistema global desigual. É questionar se exercemos a liberdade que dizemos celebrar ou se apenas a repetimos como discurso vazio. Mais do que lembrar alguém homem executado no século XVIII, o 21 de abril deveria servir como espelho.
Um convite incômodo, porém necessário, para avaliar o quanto avançamos — e o quanto ainda aceitamos, sem resistência, novas formas de dependência. Se Tiradentes virou herói por ousar imaginar um país livre, talvez o mínimo que se espere hoje seja não reduzir sua memória a dia de descanso. Afinal, independência que não se pratica vira apenas símbolo — e símbolo vazio, como a história mostra, pouco transforma.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.