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“Conselho de Paz e Imperialismo” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvlaho é advogado e mestre em Negócios Internacionais.

Com o título “Conselho de Paz e Imperialismo”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e Mestre em Negócios Internacionais. “Sem a participação efetiva dos palestinos de Gaza, sem o reconhecimento das responsabilidades históricas e sem um compromisso real com a justiça internacional, qualquer conselho que se proponha a pacificar a região corre o risco de ser apenas mais um instrumento de gestão do conflito — e não de sua superação”, expõe o articulista.

Confira:

A proposta de criação de um chamado Conselho de Paz, liderado pelos Estados Unidos sob a figura política de Donald Trump, insere-se em um contexto geopolítico marcado por profundas assimetrias de poder e por uma reconfiguração do papel norte-americano no sistema internacional. Embora apresentada sob a retórica da pacificação e da estabilização regional, tal iniciativa pode ser compreendida como uma forma disfarçada de imperialismo contemporâneo, adaptado às novas linguagens diplomáticas do século XXI, mas ainda ancorado em práticas históricas de dominação política, econômica e simbólica.

O chamado “novo imperialismo” americano não se expressa mais prioritariamente pela ocupação territorial direta, mas pela imposição de arranjos institucionais, conselhos multilaterais assimétricos e soluções “internacionais” que, na prática, reproduzem interesses estratégicos de Washington e de seus aliados. Nesse sentido, o Conselho de Paz proposto revela-se menos um espaço de deliberação genuinamente plural e mais um mecanismo de legitimação de decisões previamente definidas pelos centros de poder hegemônico.

Um dos aspectos mais reveladores dessa lógica é a ausência explícita do povo de Gaza como sujeito político reconhecido dentro da proposta. Não há, no desenho do conselho, qualquer menção à participação efetiva dos palestinos de Gaza como parte interessada,
tampouco como agentes capazes de opinar, deliberar ou influenciar os rumos do processo de paz. Essa exclusão não é acidental: ela reflete uma tradição histórica de soluções impostas “de cima para baixo”, nas quais os diretamente afetados pelos conflitos são tratados como objetos da política internacional, e não como sujeitos de direitos.

Essa omissão torna-se ainda mais grave quando analisada à luz do histórico recente de violência extrema na região. O ataque do Hamas contra Israel, caracterizado por atos de barbárie e violência indiscriminada, foi seguido por uma resposta israelense igualmente devastadora, que resultou em uma destruição massiva em Gaza, com altíssimo custo humanitário, incluindo milhares de civis mortos, deslocamentos forçados e a destruição de infraestrutura básica. O que se observa é uma espiral de barbárie, na qual uma violência inicial é utilizada como justificativa para uma resposta desproporcional, aprofundando o sofrimento coletivo e inviabilizando qualquer horizonte imediato de reconciliação.

Dentro desse cenário, as declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de transformar a região em um grande resort internacional revelam, de forma quase caricatural, a lógica mercantil e colonial subjacente à proposta. A ideia de reconfigurar um território marcado por trauma, morte e deslocamento forçado em um espaço de exploração turística internacional não apenas ignora a dimensão histórica e humana do conflito, como também reforça a percepção de que o território palestino é visto como um ativo econômico a ser explorado, e não como um lar de um povo com identidade, memória e direitos.

Diante disso, impõe-se um questionamento fundamental: como pode funcionar um Conselho de Paz que exclui os principais afetados pelo conflito, legitima relações profundamente desiguais de poder e se ancora em uma visão imperial de ordenamento do mundo? É possível falar em equilíbrio, estabilidade ou paz duradoura quando as bases do diálogo já nascem comprometidas pela negação da voz, da dignidade e da
autodeterminação de um povo inteiro?

Sem a participação efetiva dos palestinos de Gaza, sem o reconhecimento das responsabilidades históricas e sem um compromisso real com a justiça internacional, qualquer conselho que se proponha a pacificar a região corre o risco de ser apenas mais um instrumento de gestão do conflito — e não de sua superação. A paz, nesse contexto, deixa de ser um projeto coletivo e transforma-se em uma estratégia geopolítica a serviço de um novo imperialismo global, revestido de discursos humanitários, mas estruturalmente incapaz de produzir equilíbrio e justiça.

*Vanilo de Carvalho

Advogado e Mestre em Negócios Internacionais.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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