Com o título “Corpo, Autonomia e Direitos”, eis artigo de Zenilce Bruno, psicóloga e sexóloga. “Quando uma mulher encontra acolhimento, escuta qualificada e acesso efetivo aos seus direitos, ela recupera mais do que proteção jurídica: recupera a possibilidade de decidir sobre seu futuro”, expõe a articulista..
Confira:
O corpo feminino nunca foi apenas um corpo. Ao longo da história, ele tem sido palco de disputas sociais, culturais, religiosas e políticas. Por séculos, mulheres tiveram suas escolhas limitadas, seus desejos silenciados e sua autonomia submetida a estruturas de poder que definiam quem poderiam ser, como deveriam viver e o que poderiam fazer com seus próprios corpos.
Falar sobre corpo, autonomia e direitos é falar sobre liberdade. É reconhecer que toda mulher tem o direito fundamental de existir com dignidade, segurança e respeito. Significa compreender que o corpo é um território de pertencimento individual, onde decisões sobre a própria vida não podem ser determinadas pela violência, pela coerção ou pela desigualdade.
Nesse contexto, a violência de gênero representa uma das mais graves violações dos direitos humanos. Ela ultrapassa a agressão física e se manifesta também de forma psicológica, moral, patrimonial e sexual, afetando profundamente a saúde, a autoestima e a capacidade de autodeterminação das mulheres. Cada ato de violência é uma tentativa de retirar delas o controle sobre suas próprias vidas.
A construção da autonomia feminina depende não apenas de transformações culturais, mas também da existência de mecanismos institucionais capazes de garantir proteção e justiça. Delegacias especializadas, casas de acolhimento, centros de referência, defensorias públicas, serviços de saúde e o sistema judiciário desempenham um papel essencial na interrupção dos ciclos de violência e na reconstrução da segurança e da cidadania das vítimas.
Quando uma mulher encontra acolhimento, escuta qualificada e acesso efetivo aos seus direitos, ela recupera mais do que proteção jurídica: recupera a possibilidade de decidir sobre seu futuro. O acesso à justiça torna-se, então, uma ferramenta de emancipação, permitindo que o direito deixe de ser apenas uma norma escrita e se transforme em garantia concreta de dignidade.
As redes de apoio também exercem papel fundamental nesse processo. Familiares, amigos, profissionais e instituições formam uma trama de cuidado que fortalece a mulher diante da vulnerabilidade. Nenhuma pessoa deveria enfrentar sozinha situações de violência ou ameaça. O apoio coletivo reafirma que a responsabilidade pelo enfrentamento da violência de gênero é de toda a sociedade.
Promover a autonomia feminina significa garantir que cada mulher possa fazer escolhas livres, informadas e seguras sobre sua vida, sua saúde, sua sexualidade, sua maternidade e seus projetos pessoais. Significa reconhecer que direitos não são privilégios, mas condições indispensáveis para uma sociedade democrática e justa.
*Zenilce Bruno
Psicóloga e sexóloga.