Com o título “Crônica de uma narrativa anunciada”, eis o que escreve Plauto de Lima, coronel da reserva da PM do Ceará e mestre em Planejamento de Políticas Públicas.
Confira:
Lendas são narrativas transmitidas oralmente que misturam realidade com fantasia. E o Ceará, convenhamos, é pródigo nesse gênero.
Entre as mais conhecidas estão as histórias da “Perna Cabeluda” e da “Loira do Banheiro”.
Dizem que, numa noite quente, um rapaz voltava sozinho para casa por uma rua quase deserta. A lua estava alta, mas a luz do poste falhava, piscando de vez em quando.
Foi quando ele percebeu que havia algo atrás de si. Pelo ritmo acelerado das passadas, imaginou ser alguém caminhando apressado. Curioso, olhou para trás, e lá vinha ela: a famosa perna cabeluda, em diligente perseguição.
Apressou o passo. Inútil. A perna, mesmo operando em regime de peça única, era mais eficiente e passou por ele, deixando-o ileso e provavelmente confuso.
É uma história difícil de engolir. Até porque era só uma perna, sem corpo. O mínimo que se espera, em termos de mobilidade funcional, seriam duas para dar alguma coordenação aos passos. Mas não. Era apenas uma e ainda assim corria com notável desempenho logístico.
Já a “Loira do Banheiro” me causava pavor na infância. A receita era simples: três descargas, três batidas no espelho e a invocação do nome proibido. Pronto. Fenômenos estranhos ocorreriam e, num passe de mágica, ela surgiria à sua frente.
De minha parte, nunca executei o protocolo completo. Dar as três descargas, até vá. Chamá-la pelo nome? Jamais. Meu espírito científico sempre teve limites bem definidos.
Na verdade, o medo era tanto que eu evitava até entrar no banheiro da escola pública onde estudei. Segurava minhas necessidades fisiológicas com disciplina quase militar, mas naquele banheiro eu não entrava.
De tanto ouvir essas histórias, não havia argumento racional que me convencesse do contrário. Para mim, era tudo absolutamente plausível.
Como disse no início, o Ceará é rico em lendas. E, ao que tudo indica, continua investindo pesado na produção.
Ultimamente tenho ouvido algumas que rivalizam com as clássicas da infância. Há quem diga (com a maior seriedade) que as torcidas organizadas foram devidamente extintas e que o crime está em franca retração graças a ações governamentais imparáveis nas áreas social, educacional e de segurança.
Confesso que escuto com respeito. Afinal, já acreditei na Perna Cabeluda.
Às vezes me pego saudoso da minha infância, quando a ingenuidade vinha de fábrica e a gente acreditava em tudo que era contado.
Hoje, o que mais sinto falta é daquele Ceará em que o medo e a violência eram apenas… lenda.
*Plauto de Lima
Coronel Veterano da PMCE e mestre em Planejamento de Políticas Públicas.