Com o título “Da Ágora ao Algoritmo: Educação como Projeto Civilizatório”, eis artigo assinado por Célio Fernando, economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia, e Marcos Vieira, sociólogo, fotógrafo e professor PcD do IFCE. “O algoritmo, hoje, não é apenas uma ferramenta técnica: tornou-se mediação decisiva na circulação da informação, na produção de sentidos, na organização das escolhas e na modelagem da experiência contemporânea”, expõem os articulistas.
Confira:
A história da educação pode ser contada de muitas formas, mas talvez a mais fecunda seja aquela que a compreende como uma travessia civilizatória entre modos distintos de produzir, partilhar e disputar o conhecimento. Da ágora ateniense aos sistemas algorítmicos que hoje organizam fluxos informacionais em escala planetária, o que está em jogo não é apenas a transformação dos meios, mas a redefinição das finalidades do saber. A questão decisiva, ontem como hoje, continua a ser a mesma: a quem serve o conhecimento?
Na experiência da ágora, o saber estava associado à palavra pública, ao debate, ao exercício do pensamento em comum e à formação do juízo. Não se tratava de um espaço isento de exclusões, mas de um símbolo poderoso de que o conhecimento, para cumprir sua função mais alta, precisa estar vinculado à vida coletiva e à deliberação sobre o destino comum. Muito antes dela, porém, as pedagogias ancestrais já ensinavam, por meio da oralidade, do rito, da observação da natureza e da experiência partilhada, que educar é inscrever o sujeito no mundo, em relação com a comunidade, com a memória e com o território.
Ao longo da história, a educação oscilou entre projetos conservadores e emancipatórios. Mosteiros, universidades renascentistas, escolas modernas e sistemas nacionais de ensino ampliaram repertórios e institucionalizaram práticas, mas também reproduziram silenciamentos, hierarquias e exclusões. Em contextos marcados pela colonialidade, como o brasileiro, essa contradição se aprofundou: povos indígenas, comunidades negras, populações do campo, das águas e das florestas foram sistematicamente afastados do reconhecimento de seus saberes, apesar de serem portadores de experiências fundamentais para a compreensão da vida, da sustentabilidade e da convivência coletiva.
No presente, atravessamos uma inflexão histórica marcada por transições ecológicas, energéticas, tecnológicas, demográficas e culturais que recolocam em novos termos o problema da formação humana. O algoritmo, hoje, não é apenas uma ferramenta técnica: tornou-se mediação decisiva na circulação da informação, na produção de sentidos, na organização das escolhas e na modelagem da experiência contemporânea. Plataformas digitais,inteligência artificial e sistemas de recomendação reorganizam o acesso ao saber, ao mesmo tempo em que podem ampliar desigualdades, aprofundar amercantilização da educação e reduzir o pensamento à lógica da eficiência e da predição.
É precisamente por isso que a educação não pode abdicar de sua vocação ética, crítica e pública. Se a técnica amplia capacidades, ela não determina, por si só, o horizonte humano de seu uso. A inteligência artificial não é destino; é instrumento. O problema central permanece político, pedagógico e civilizatório: decidir se as tecnologias servirão à emancipação humana, à justiça social, à democratização do conhecimento e ao fortalecimento da diversidade epistêmica, ou se serão capturadas pela concentração de poder, pela homogeneização cultural e pela submissão do saber às lógicas do mercado.
Nesse cenário, a arte, a sensibilidade, a imaginação e a experiência estética tornam-se ainda mais decisivas. O que singulariza a condição humana não é apenas a capacidade de calcular, classificar ou processar informações, mas a potência de criar sentido, de elaborar memória, de exercer empatia, de sonhar futuros e de produzir mundos compartilháveis. Uma educação comprometida com o século XXI precisa, portanto, articular ciência, técnica, ética, cultura e imaginação, reconhecendo que a formação integral exige tanto competência analítica quanto densidade sensível.
A escolha do tipo de humanidade que desejamos ser começa pela educação. É nela que se decide se o conhecimento será bem comum ou mercadoria; se a escola será espaço de reprodução ou de transformação; se a inovação servirá à vida ou ao aprofundamento das desigualdades. Entre a ágora e o algoritmo, o desafio não é escolher entre passado e futuro, mas construir mediações capazes de preservar a centralidade do humano, da justiça e da pluralidade em um tempo de acelerada mutação técnica.
Ao longo da história, a humanidade tem seguido um mesmo impulso: entender o mundo, organizar a vida e encontrar sentido para a própria existência.
De Sócrates, com suas perguntas sobre a vida e a conduta humana, a Euclides, que ajudou a dar forma ao pensamento matemático, passando por Al-Khwārizmī, Ada Lovelace e Donald Knuth, vemos uma sequência de nomes e ideias que, mesmo separados pelo tempo, têm algo em comum. Todos representam momentos de uma mesma caminhada humana: a tentativa de compreender a realidade e de criar formas de explicar, registrar e transformar o mundo ao redor.
Nesse percurso, a educação ocupa um lugar central. É ela que liga tempos, saberes e experiências. Da praça pública da Antiguidade aos centros de tecnologia de hoje, ensinar sempre foi mais do que repassar informações. Educar é manter viva a curiosidade, o pensamento crítico e a busca por respostas para as grandes perguntas da vida. No fundo, é isso que nos define como seres humanos: a vontade de aprender, criar e dar sentido à nossa passagem pelo mundo. Educar, portanto, não é apenas transmitir dados, mas manter acesa a chama da pergunta fundamental: o que somos nós, senão
seres que buscam, no cálculo e na poesia, uma forma de habitar o infinito?
*Marcos Vieira
Sociólogo, fotógrafo e professor PcD do IFCE.
*Célio Fernando
Economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia
*REFERÊNCIAS
AL-KHWĀRIZMĪ, Muḥammad ibn Mūsā. Al-Kitāb al-mukhtaṣar fī ḥisāb al-jabrwa’l-muqābala [O Livro Compendioso sobre Cálculo por Completação e Balanceamento]. Tradução inglesa de Frederic Rosen (The Algebra of Mohammed ben Musa). London: Oriental Translation Fund, 1831.
EUCLIDES. Os elementos. Tradução e introdução de Thomas L. Heath. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1926. 3 v.
KNUTH, Donald E. Things a computer scientist rarely talks about. Stanford: CSLI Publications, 2001.
LOVELACE, Ada Augusta. Nota A. In: MENABREA, Luigi Federico. Sketch of the analytical engine invented by Charles Babbage. Scientific Memoirs,London, v. 3, p. 666-731, 1843.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora da UFPA, 2001.