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“Da “degola” da República Velha ao Pesquisismo de Hoje: como fraudar eleições” – Por Francisco Bezerra

Francisco Bezerra é jornalista, radialista e escritor

Com o título “Da “degola” da República Velha ao Pesquisismo de Hoje: como fraudar eleições”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. 

“A única pesquisa 100% confiável é a briga no grupo da família.” (frase do vulgo fazendo pilhéria das
pesquisas nas redes sociais).

Confira:

O histriônico e folclórico ex-presidente Jânio Quadros ficou famoso na política pelos cargos que exerceu, mas também muito pelas frases polêmicas que destilava contra adversários e profissionais de imprensa. Na eleição de 1985 a prefeito de São Paulo, a despeito do Ibope, Jânio se elegeu numa disputa acirrada contra o então senador Fernando Henrique, do PMDB. Durante todo o período da refrega das urnas, as pesquisas do Ibope davam sempre vantagem exponencial ao peemedebista. Neste contexto, o atrabiliário Jânio ao ser perguntado por um jornalista como via as pesquisas do Ibobe saiu-se com essa:

– Mentirosas, fraudulentas, corruptas…

O mesmo repórter não perdeu a oportunidade de jogar lenha na fogueira eleitoral daquele ano. Em entrevista com o presidente nacional do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, o profissional de imprensa, para repercutir a entrevista do ex-presidente sobre as pesquisas que lhe eram sempre desfavoráveis, perguntou como o dono do instituto de pesquisa avaliava as críticas acerbas do candidato:

– Eu não vou perder tempo em responder este Jânio, isto é um doente.

O repórter para-brisa, para não perder o filão da controvérsia criada entre o petebista e o dono do Ibope, em nova entrevista com o ganhador daquela eleição municipal, relatou a Jânio o que dissera dele o Montenegro. Quadros foi sarcasmo puro na tréplica:

– Que dizer que ele não vai me responder porque eu sou um doente? Vá ver que ele é melhor médico que pesquisador eleitoral.

A mesma eleição foi marcada ainda por outra querela entre Jânio e FHC. Achando que sua eleição seriam favas contadas, o candidato do PMDB sentou na cadeira de prefeito antes da apuração das urnas. O flagrante foi parar nas páginas da revista Veja. No dia de sua posse como prefeito, em primeiro de janeiro de 1986, Jânio Quadros entrou em seu gabinete portando um spray de inseticida e borrifou a cadeira onde iria sentar para governar São Paulo. Indagado por qual motivo fizera aquele gesto tão inaudito, o prefeito foi mordaz:

– Nádegas inadequadas fizeram uso desta cadeira.

O fato narrado entrou para a história do folclore nacional e levantou uma lebre: até que ponto as pesquisas eleitorais podem contribuir para fraudar uma eleição? Este é um dos temas mais complexos das eleições no Brasil. Eleições que sempre foram eivadas de ações fraudulentas. Fraudes que vêm de longe. Desde o Império, a fraude foi uma constante nas eleições brasileiras. Além de ferramenta de coação dos eleitores,
as fraudes eram utilizadas como parte da estratégia de embate entre os grupos políticos, e envolviam o eleitor, o voto e o candidato. Na República Velha, período que se estendeu entre 1891 a 1930, o domínio das oligarquias nos Estados brasileiros era cabal. Essas oligarquias controlavam o cenário político e econômico de suas regiões utilizando diferentes mecanismos para manutenção do poder, principalmente a
fraude eleitoral que contribuiu para o domínio político dos ricos fazendeiros.

O segundo presidente civil da Primeira República, Campos Sales (1898 – 1902) foi o político brasileiro que deu origem a um dos mecanismos mais conhecidos em relação à corrupção nas eleições. Coube ao paulista instaurar a política dos governadores, cujo objetivo era fortalecer o poder central através da troca de favores entre as duas instâncias governamentais. Uma mão lavando a outra, e as duas promoviam as fraudes eleitorais para a manutenção do status quo.

Existem diversas pesquisas sobre as fraudes nas eleições ocorridas durante a Primeira República. Cada uma delas utilizou fontes diferentes, como notícias de periódicos, charges, depoimentos do período e registros oficiais. As fraudes se iniciavam na primeira etapa da eleição, a de alistamento dos eleitores e registro das candidaturas.

Todo o alistamento eleitoral ficava a cargo das sessões eleitorais locais, que geralmente eram controladas por um chefe político ou pequeno grupo de oligarcas. As fraudes nessa etapa ocorriam com o registro de eleitores que votariam no candidato no coronel e com a exclusão de possíveis eleitores da oposição, caso ela existisse. Nesse sentido, o sistema de poder vigente tomava três tipos de precaução, para evitar
surpresas nos resultados das eleições.

Em primeiro lugar, os chefes e caciques políticos, principalmente do interior, orientavam os eleitores a votar em determinados candidatos, e só neles; para isso, entregavam ao votante uma “marmita” (pilha) de cédulas dos candidatos em que deveriam votar; uma segunda providência era em relação as atas das juntas apuradoras – frequentemente, as próprias mesas receptoras – que eram feitas para mostrar determinados resultados, nem sempre coincidentes com a contagem dos votos depositados naquela seção; em terceiro plano, onde o controle não era possível – nas capitais e grandes cidades de então, em que eram eleitos candidatos “indesejáveis”, de oposição – a Câmara e o Senado faziam a “verificação dos poderes” dos que se apresentavam a tomar posse. Aí, muitos dos “indesejáveis” sofriam a “degola”: seus mandatos eram invalidados pela Casa.

O famoso processo de alijamento dos candidatos de oposição ao sistema conhecido como “degola” consistia em utilizar a Comissão Verificadora de Poderes, que tinha o objetivo de contribuir para a eleição dos candidatos indicados pelos mandates de então. Desse modo, essa comissão impedia que muitos candidatos vitoriosos nas urnas assumissem o cargo, pelo fato de eles não terem sido indicados pelos ricos fazendeiros e, por isso, eram “degolados”, ou seja, impedidos de tomar posse.

É do tempo também da República Velha o famoso voto de cabresto, tática eleitoral fundamental do sistema político da época que garantia às oligarquias agrárias a sua manutenção no poder local, estadual e federal. O “coronel” estava na base do sistema político, exercendo controle sobre a população que vivia na sua região, e essa população era seu “curral eleitoral”. Os eleitores, tratados como gado em um curral, eram controlados pelas oligarquias rurais que tinham poder político, econômico e militar.

Com a Revolução de 30 e o fim da República Velha, o voto passou a ser secreto, o que tornou a fraude mais difícil de ser praticada. Mais difícil, mas nem por isso extirpada do processo eleitoral brasileiro. Em que pese várias iniciativas depois que Getúlio Vargas chegou ao poder, este cenário começou a ser mudado de maneira estruturada a partir de 1932, com a criação da Justiça Eleitoral. Desde então, o processo eleitoral evoluiu no sentido da informatização para diminuir ao máximo a intervenção humana, principal causa dos erros intencionais ou não.

Ao longo do período republicano as fraudes no processo de votação manual, antes da informatização do processo eleitoral brasileiro, corriam soltas. Antes do início da votação, cédulas preenchidas eram depositadas na urna de lona, ou seja, a urna, que deveria estar vazia, já chegava à seção eleitoral com votos dentro dela. Eram as urnas grávidas ou emprenhadas, na voz do povo. Outra fraude recorrente era a
substituição das urnas oficiais por outras repletas de cédulas preenchidas. O eleitor recebia a cédula do mesário, entrava na cabina de votação e, em vez de preenchê-la e depositá-la, guardava a cédula em branco e colocava um papel qualquer na urna de lona. O organizador da fraude, que estava fora da seção, recebia a cédula oficial, assinalava os candidatos desejados e a entregava para outro eleitor. Esse eleitor
depositava a cédula já preenchida, pegava outra em branco e a entregava para o organizador, que repetia o processo fraudulento à exaustão. Ao final da votação, as urnas com os votos coletados durante o dia eram substituídas por outras com votos indevidamente preenchidos.

Com a adoção da urnas eletrônicas a partir de 1996, as fraudes eleitorais no processo de apuração chegaram a zero. Mas como o brasileiro sempre dá um jeitinho para a prática da burla, os processos fraudulentos foram se sofisticando e os métodos são utilizados em tempos modernos antes do eleitor chegar na urna. Entre os ardis praticados, destacam-se a utilização da mídia para a distorção de informações, disparo de fakenews nas redes sociais, compra desbragada de votos e a utilização de pesquisas eleitorais como ferramenta de campanha. A pesquisa pode até não decidir uma eleição, no entanto sua capacidade de indução do voto não é desprezível.

Vamos ficar aqui em nosso terreiro com três exemplos bizarros, embora haja muitos mais, de pesquisas eleitorais que cheiraram a crime eleitoral. Em 1985, quinze dias antes da eleição municipal de Fortaleza, os institutos de pesquisa cravaram Paes de Andrade (PMDB) 52%, Lúcio Alcântara (PFL) 22% e Maria Luiza Fontenele (PT) 10%. Quando as urnas foram apuradas a candidata no PT, na época, ganhou a
eleição.

Na eleição de 1988, também pela prefeitura da capital, Ciro Gomes (PMDB) em pesquisa divulgada no dia da eleição aparecia com vantagem de 18% sobre o candidato do PDT, Edson Silva Panelada. Urnas contabilizadas, os números não mentiram: Ciro 30,55%, Edson Silva 29,65%. Por fim, ficamos no terceiro exemplo de pesquisas eleitorais esdrúxulas, caso da disputa, mais uma vez na eleição de Fortaleza em 2020, no segundo quando ficam só dois candidatos, os institutos colocaram o ex-prefeito Sarto com vantagem de 20 pontos percentuais em relação ao seu adversário, Capitão Wagner. O resultado oficial registrou uma diferença superior a um pouco mais de 3% em favor do vitorioso. Como diria o matuto: ééééggggguuuuaaaa!

O que assistimos nesta eleição de 2026 é uma enxurrada de pesquisas em todos os níveis. Tem pesquisa de manhã, de tarde, de noite e até de madrugada. O mais curioso é que os institutos que estão hoje aí na praça, em sua maioria, são ligados a bancos, ao sistema financeiro. Os que os usurários deste país pretendem com a realização de tantas pesquisas que saem os olhos da cara para serem realizadas. São tantas que criou-se o termo pesquisismo para tentar explicar estas verdadeiras caixas-pretas sobre a opinião pública que cheiram ao que disse Jânio sobre o Ibope, em causo contado acima. Ontem, antes do fechamento deste artigo, saiu aí uma pesquisa espírita onde o escritor Augusto Cury despontou com 11% da preferência eleitoral. Esta está difícil de engolir. Eu garanto que o gato lá de casa é mais conhecido que o tal de Cury. Antes que eu conclua um aviso as navegantes deste prestigioso blog: ainda voltaremos a falar sobre as pesquisas eleitorais, em breve. Por enquanto, sai da frente que atrás vem gente!

*Francisco Bezerra

Jornalista, radialista e escritor.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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