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“Data centers: a nova ilusão” – Por Marcos C. Holanda

Marcos Holanda, economista e ex-presidente do BNB. Foto: Sara Maia.

Com o título “Data centers: a nova ilusão”, eis artigo de Marcos C Holanda, PhD em economia e ex-presidente do Banco do Nordeste. “A pergunta que realmente importa não é quantos data centers o estado conseguirá atrair. É quantas empresas locais conseguirão nascer, crescer e competir usando inteligência artificial. Isso, sim, tem potencial transformador. Isso independe de onde estejam os servidores”, expõe o articulista.

Confira:

O Ceará parece ter encontrado sua mais recente promessa de redenção econômica: os data centers. Anunciados como símbolos de modernidade, sustentabilidade e inserção na economia digital. Convém, no entanto, separar a realidade da ilusão.

Diferente do Hidrogênio verde eles são investimentos viáveis e devem acontecer já no curto prazo. No hidrogênio temos razoável capacidade de oferta, mas praticamente zero demanda por ser um produto ainda muito caro. Nos data center temos excelente capacidade de oferta e demanda firme. No entanto, é importante não cair na narrativa de que serão a salvação para nosso desenvolvimento.

Data centers são, essencialmente, caixas de aço cheias de equipamentos importados. Servidores, chips, sistemas de resfriamento – quase tudo vem de fora. O resultado é um paradoxo desconfortável: muito investimento anunciado, mas pouco valor efetivamente capturado localmente. O PIB cresce via investimento, mas cai via importação. Fala-se em cifras grandiosas, na casa de R$ 200 bilhões, mas estimativas mais sóbrias sugerem algo próximo de R$ 50 bilhões no médio prazo. Para efeito de comparação é importante lembrar que nosso PIB é da ordem de 250 Bilhões.

A narrativa ambiental tampouco resiste a um exame mais atento. Vende-se a ideia de data centers movidos 100% a energia renovável, mas data centers não podem “piscar”. Precisam de energia constante, estável, ininterrupta. E isso, no mundo real, significa uma coisa: geração térmica de backup. Gás, no melhor dos casos. Carvão, no pior. A promessa de pureza energética é, portanto, mais peça de narrativa.

E quanto aos empregos? Estudos indicam que empregos permanentes giram em torno de 1 a 1,5 por MW. Um data center de 30 a 50 MW – o porte típico dos primeiros projetos – empregaria entre 30 e 80 pessoas na operação. Sim, dezenas. Para bilhões em investimento. É difícil imaginar um uso menos eficiente de capital se o objetivo for geração de emprego. A fase de construção gera algum dinamismo, mas passageiro. Depois, ficam os servidores – e poucos trabalhadores para mantê-los funcionando.

No campo fiscal, a história também não entusiasma. Como boa parte da produção desses centros será exportada na forma de serviços digitais, a tendência é de baixa tributação efetiva. Ou seja: pouco emprego, pouco encadeamento produtivo e pouca arrecadação.

Talvez o argumento mais sedutor – e mais perigoso – seja o da “soberania digital”. A ideia de que precisamos trazer os dados “para casa” para garantir autonomia tecnológica soa atraente, mas flerta com erros históricos conhecidos. Já percorremos esse caminho antes, quando a busca por “soberania computacional” nos levou a soluções como os computadores Cobra: caros, defasados e incapazes de competir globalmente. O risco agora é repetir a lógica, desta vez em versão atualizada.

Mas o ponto mais importante costuma passar despercebido: a riqueza da economia digital não está nos data centers. Está no que se faz com eles – ou, mais precisamente, no que se faz mesmo sem eles. A inteligência artificial já é acessível globalmente, independentemente da localização física da infraestrutura. O valor não está no servidor, mas no uso que se faz dele.

Ao concentrar energia política e simbólica na atração de data centers, o Ceará pode estar mirando no alvo errado. Em vez de disputar quem hospeda máquinas, deveria disputar quem cria soluções. Em vez de vender megawatts, deveria formar gente capaz de transformar algoritmos em produtividade, renda e inovação.

A pergunta que realmente importa não é quantos data centers o estado conseguirá atrair. É quantas empresas locais conseguirão nascer, crescer e competir usando inteligência artificial. Isso, sim, tem potencial transformador. Isso independe de onde estejam os servidores.

Data centers podem até vir – e provavelmente virão. Mas tratá-los como motor de desenvolvimento é, no mínimo, um exagero. No limite, uma nova versão de uma velha história: a busca por atalhos que prometem muito e entregam pouco.

*Marcos C. Holanda

Econmista, professor aposentado da Universidade Federal do Ceará e ex-presidente do Banco do Nordeste.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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