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“Data centers – Ceará avança com modelo sustentável enquanto EUA enfrentam desafios de expansão da IA” – Por Flamínio Araripe

Flamínio Araripe é jornalista e pesquisador.

“O Ceará tem a seu favor a capacidade de utilização do seu excedente de 2.800 MW de energia limpa com contratos de 20 anos com a Casa dos Ventos”, aponta o jornalista Flamínio Araripe

Confira:

Há um contraste entre a nova infraestrutura digital do Ceará e a dos Estados Unidos que coloca os maiores data center de cada país em polos opostos no aspecto ambiental, político, jurídico, de consumo de energia elétrica e de água. O megacomplexo da OMNIA/ByteDance (TikTok) no Pecém, orçado em R$ 200 bilhões, avança com energia 100% renovável e segurança jurídica. Já o Colossus, maior data center de treinamento de IA do mundo, da xAI, startup de inteligência artificial de Elon Musk, opera no Tennessee sob uma intervenção inédita do Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA.

O governo americano alegou “segurança nacional” e suporte a operações militares para manter em funcionamento turbinas a gás poluentes e não licenciadas, ignorando violações da Lei do Ar Limpo denunciadas por comunidades locais. A diferença técnica entre as duas regiões reflete abordagens opostas à crise de recursos no que diz respeito à gestão hídrica e à matriz energética.

Na gestão da água, o projeto no Pecém se destaca ao utilizar tecnologia de circuito fechado (chillers a ar), reduzindo o consumo total para apenas 20 metros cúbicos por dia — o equivalente a menos de 50 residências. Em Memphis, Musk construiu o maior Biorreator de Membrana Cerâmica (MBR) do mundo para tratar 49 milhões de litros de esgoto municipal por dia. Embora a xAI alegue ser “water positive” ao devolver água tratada para indústrias locais, a escala de consumo hídrico exigida para resfriar seu supercomputador é massiva comparada à economia direta do modelo cearense.

O Ceará tem a seu favor a capacidade de utilização do seu excedente de 2.800 MW de energia limpa com contratos de 20 anos com a Casa dos Ventos. Já o projeto de Musk em Memphis tornou-se a maior fonte industrial de poluentes (óxido de nitrogênio e formaldeído) da região, afetando bairros de maioria negra e gerando processos judiciais por racismo ambiental.

Musk enfrenta o que especialistas chamam de “Gigawatt Gap”. A rede elétrica de Memphis forneceu inicialmente apenas 8 MW de uma demanda necessária de 150 MW, forçando a xAI a instalar 57 turbinas a gás móveis em reboques para operar fora da rede. O plano de expansão de Musk é tão agressivo que ele pretende importar uma usina de energia de 1,2 GW do exterior ou até levar data centers para a órbita terrestre via SpaceX para escapar das limitações da rede elétrica e das leis ambientais.

Geopolítica e incentivos fiscais

O Ceará se posiciona como um “hedge de soberania de dados”, politicamente neutro para atender mercados fora da disputa direta Washington-Pequim. Instalado na ZPE Ceará, o projeto OMNIA garante 20 anos de estabilidade fiscal, com isenção de impostos (II, IPI, PIS-Cofins) essenciais para viabilizar os 85% de componentes importados que formam o custo de um data center. Nos EUA, o cenário é de instabilidade: enquanto alguns estados discutem sobretaxas para grandes consumidores de energia, o governo federal intervém em prol da xAI sob a justificativa de que o modelo Grok apoia “missões críticas” do Departamento de Guerra.

Baixa latência e interiorização

O diferencial estratégico do Ceará repousa na Praia do Futuro, em Fortaleza, hub de 18 cabos submarinos que garantem a baixíssima latência necessária para processamento de IA em tempo real. Como a capital atingiu o limite de novas conexões de alta potência, o foco migrou para a ZPE do Pecém, que oferece conexão direta à rede básica de transmissão de 230 kV e uma subestação própria.

A estratégia de interiorização ganha corpo com o Cinturão Digital do Ceará (CDC). Trata-se de um backbone de 5.955 km de fibra óptica que o Governo do Estado utilizará para atrair data centers para municípios do interior. Através de Parcerias Público-Privadas (PPPs), serão licitados seis pares de fibra óptica, permitindo integrar a infraestrutura digital diretamente aos polos de geração de energia eólica e solar no interior.

A estratégia cearense será fortalecida ainda mais pelo projeto de lei do Governo do Ceará em tramitação na Assembleia Legislativa (Alece), que estabelece o marco regulatório estadual para a indústria de data centers e define medidas para a interiorização dos investimentos. A proposta busca criar critérios claros de sustentabilidade e segurança jurídica, corrigindo lacunas que anteriormente geravam impasses para grandes investidores de tecnologia no estado.

Enquanto Musk busca o espaço sideral para viabilizar sua infraestrutura, o Ceará usa seu território e sol para fixar a base da nova economia digital global. Enquanto o projeto da xAI representa uma corrida tecnológica “a qualquer custo”, inclusive ambiental e social, o modelo cearense se consolida pela eficiência no uso de recursos escassos (água) e abundantes (energia renovável), utilizando a rede de fibra óptica do estado para interiorizar o desenvolvimento digital sustentável.

Flamínio Araripe é jornalista

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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