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“Datacenter sem contrapartida é pau-brasil com ar-condicionado” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University

Com o título “Datacenter sem contrapartida é pau-brasil com ar-condicionado”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

(Ao empresário Fernando Mauro, meu irmão, meu amigo)

Confira:

“O problema do Brasil nunca foi falta de riqueza. Foi deixar os outros decidirem quanto ela vale.”

Imagine a cena:
Final de Copa, do jeito que brasileiro gosta …
Não no Maracanã, mas numa sala de reuniões em Brasília.

De um lado da mesa, as big techs que mandam e desmandam no planeta azul com seus: Advogados, Engenheiros, Economistas, Especialistas em energia, tributação, regulação e escambau

Do outro, o Brasil.
Mas não aquele Brasilzin que os gringos estavam acostumados a encontrar: oferecendo matéria-prima e esperando o investidor decidir o resto.

Desta vez, uma canarinha escalada com universidades, Institutos Federais e ICTs, a convite do MCTI (PBIA) e do Ministério da Fazenda (REDATA).

O juiz olha para o seu Patek Philippe quântico e …
Apita início de jogo!

1. Primeiro tempo
A águia vermeiazul, cheia de estrelinhas no peito, entra de salto alto, dá a saída e ensaia o primeiro ataque:
— Queremos instalar um grande datacenter de Inteligência Artificial no Brasil… “ Tem MUITA grana pra vocês!”
Os torcedores vibram com os bytedólares… tipo ”colonizados entusiasmados”.

A águia avança pela direita (estilo preferido das big techs) e vocifera com a autoridade de um “leão de chácara” da boate Chez Pierre, perto dos 17 cabos de fibra óptica na Praia do Futuro:
— Precisamos de energia limpa, água pura, território bom, conectividade nos trinques, segurança jurídica sem ninguém encher o saco e incentivos fiscais pra arrombar a boca do balão.

O Brasilzin, mais tímido que sanfoneiro em missa de 7º dia, toca a bola de lado e pensa: temos sol, vento, território, mercado, universidades.
Isso, universidades… e das boas. E tem mais. O “zagueiro centrão” desengavetou o REDATA… hein?

EITA que lá se vem lá se veeeem … uma bola cruzada na área do Gilmar (dos Santos, cara… rsrsr):
INVESTIMENTO BILIONÁRIO ANUNCIADO!

É GOOOOOOL DA ÁGUIA!
Brasil 0 × 1 Big Techs.

Governador comemora. Prefeito levanta a taça antes da hora. Político papagaio de pirata posta fotografia no Instagram.

Acordo assinado.
E ninguém ainda perguntou o que estava escrito nas letras miúdas.

2. No intervalo, uma pergunta inconveniente
No vestiário, alguém resolve “estragar a festa” ianque:
— E o que fica para o Brasil?

Silêncio. Até que alguém encontra o documento que poderia mudar o jogo: Datacenters de IA no Ceará – Estratégia para Negociação, Governança e Desenvolvimento Sustentável

Era uma proposta entregue ao Governo do Ceará pelo Instituto IRACEMA Digital e outras instituições. Uma frase resume a proposta do IRACEMA Digital:
“Incentivos atraem; políticas bem-negociadas transformam.”

Aí, alguém percebe o jogador que estava faltando: um meio-campo capaz de transformar atração em negociação.
Seu nome?
PNND — Plano Nacional de Negociação de Datacenters .

A ideia não é dar uma canelada no adversário (ele né nem argentino… rsrs). Muito menos expulsar o investidor. É entrar para negociar com ele.

Porque datacenter não deve ser apenas algo que entra no Brasil.
O Brasil precisa também entrar no datacenter.

3. Segundo tempo
A Canarinha volta diferente. Mais confiante que noivo na véspera:
— Tudo bem. Queremos o investimento. Oferecemos condições competitivas. Mas queremos discutir o legado.

A big tech estranha:
– Legado? What the hell is even that? (diabeisso?)

O Brasil põe então suas cartas na mesa: capacidade computacional para universidades e Institutos Federais. P&D conjunto. Residências tecnológicas. Formação em IA e cibersegurança. Startups brasileiras. Fornecedores nacionais. Metas ambientais.

Aí, sai um golaço Copa 70: Pelé magistral para o Carlos Alberto… lembra? rsrs.
Brasil 1 × 1 Big Techs.

Fim do tempo regulamentar.

4. Prorrogação
A big tech resiste. O Brasil insiste.
Nova rodada de negociação. A big tech aceita P&D.

O Brasil pede mais. Exige metas verificáveis e auditáveis. E …
TRANSPARÊÊÊÊNCIA nas contrapartidas!

Os negociadores estrangeiros percebem que alguma coisa mudou.

Ninguém tinha avisado que, naquele país da América Latina, acostumado a receber investimento de braços abertos e perguntas fechadas, encontrariam interlocutores sabendo negociar.

OPA: 47 do segundo tempo e aí … Sai o acordo.

GOOOOOOOOOOOL DO BRASIL!
Alok, solta aí a música do Airton Sena…

5. Brasil 2 × 1 Big techs.
OPA. De novo …
Mas que diabeisso (what the hell is even that?… rsrs):
Vanderleia canta no VAR: “Senhor Juiz, Pare Agora”.

A torcida explode…
Nem tudo como dantes no gramado de Abrantes.

O juiz consulta a plataforma EITA (Engenheiros do novo ITA do Ceará).
Coloca a mão “nos Zouvido”… Silêncio na Faria Lima.
E anuncia com aquela voz ensaiada de árbitro da FIFA, financiada pelas BETs:

Vamos corrigir o placar:

6. BRASIL 2 × 2 Big techs
Como assim? Simples.
O investidor também ganhou:

Conseguiu energia competitiva, segurança jurídica, infraestrutura, conectividade, mercado e um país disposto a recebê-lo… sem as confusões do Estado da Virgínia, nem moratória do Bernie Sanders.

E o Brasil?
Ficou com o investimento. Mas não apenas com ele.
Ficou também com capacidade computacional, pesquisa, formação, empresas brasileiras, tecnologia, sustentabilidade e mais autonomia.

Os dois lados comemoram.
Porque boa negociação não é aquela em que um lado derrota o outro (algo me diz que eu estou errado… rsrs).

É aquela em que cada lado sai da mesa levando o que precisava e deixando ao outro algo que vale a pena (hummm… um me engana que eu gosto nesse capitalismo mordaz… rsrs)

Talvez esse seja, afinal, o placar que interessa: investimento estrangeiro com desenvolvimento brasileiro.

O juiz apita. Fim de jogo…
(Ou será apenas o começo de tudo?)

7. João Saldanha comenta o jogo
Se este jogo tivesse acontecido, talvez o João resumisse assim:
— O Brasil só não perdeu de lavagem porque, no intervalo, teve a humildade de colocar em campo jogadores que estavam no banco.

E desenharia o time na prancheta:
REDATA no ataque:
Atrai o investimento.
PNND no meio-campo:
Negocia o que esse investimento deixa no país.
Soberania Digital na defesa , em fase de construção pelo SERPRO:
Enquanto busca soluções nacionais, define o que precisa permanecer sob controle brasileiro (Gradiente de Soberania. Portaria SGD 5.950/2023).

O mantra é, portanto, Atrair. Negociar. Proteger.
Mas faltava alguém para correr o campo inteiro.

Foi quando a Universidade começou a aquecer… “pra salvar a pátria”:
O Manifesto de Vitória pela Soberania Digital, nascido em agosto na UFES (naquela mesa-redonda que teimou em não terminar) transformou soberania digital em compromisso acadêmico.

E a Caravana LF passou a levar uma pergunta que não aceita resposta protocolar:
— Que pedaço do futuro é teu, Universidade?

A Universidade vestiu a camisa. E entrou no jogo.
Porque tem jogo que se perde por falta de time.
E tem jogo que se perde por falta de coragem para sair do banco.

Este, o Brasil ainda pode vencer.

Sem entregar o pau-brasil.
Nem pagar a conta do ar-condicionado.

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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