“No casamento, a mulher nunca notava a própria pobreza – mas sabia apontar o culpado”, aponta o arquiteto Totonho Laprovitera. Confira:
“Nada agrava mais a pobreza, que a mania de querer parecer rico.” (Marquês de Maricá)
Alísio tinha um jeito todo seu de encarar a vida – meio irônico, meio filósofo de botequim. Na metade do mês, já dizia estar tão liso que, se pisasse num sabonete, quem escorregava era o sabonete. Comentava que só tinha dinheiro sobrando quando esquecia de pagar alguma conta. Ele dava grande valor ao seu tom de segredista, afirmando: “Dinheiro vai e vem… mas o meu deve ter Alzheimer: vai embora e nunca se lembra de voltar.”
No casamento, a mulher nunca notava a própria pobreza – mas sabia apontar o culpado. Quando alguém perguntava sobre sua vida conjugal, ele se acomodava na cadeira de macarrão e respondia com graça: “Antes de conhecer a patroa, pedi a Deus a mulher ideal. E Deus me mandou uma tão perfeita que, desde então, em tudo eu passei a estar errado.” Se perguntassem se sua mulher poderia viver sem ele, respondia prontamente: “Claro que não. E quem lavaria a louça?”
Alísio também sabia que certas frases femininas vinham cheias de sentença. Quando a mulher dizia: “Vou lhe fazer uma pergunta, mas não minta pra mim”, vixe… já era tarde demais. Nessa hora, ela já tinha dez provas impressas, três testemunhas vivas, sete áudios guardados e, para completar, a confirmação em sonho.
Nos conselhos sobre amor era cruel e repetia: “Se apoiou na pobreza e o marido ficou rico, que ela fique livre para poder ajudar outro pobre coitado a prosperar na vida”. E completava, em tom professoral: “A mulher sorri mesmo quando tudo dá errado – porque já sabe em quem botar a culpa.”
Certo domingo, no almoço da casa da sogra, apertaram o cerco e perguntaram se era verdade que a esposa mandava tanto em casa que ele só podia abrir a boca para comer. Alísio, tranquilo, encheu o prato, mastigou devagar, limpou os beiços com a toalha da mesa e disse: “É verdade. Em casa, só decido sobre duas coisas: o que posso beber e onde posso dormir.” Mas um curioso insistiu: “E o que o senhor pode beber, e onde pode dormir?” Alísio não titubeou: “Posso beber água… e dormir no sofá.”
Todos caíram na gargalhada, e ele, com ar professoral, completou: “A riqueza pode não trazer felicidade. A liseira também não. Mas, pelo menos, já me acostumei a rir de mim mesmo.”
Nunca mais Alísio foi visto. Falam que largou a bebida e sumiu dos bares e botequins. Mas, sempre que se pergunta sobre ele, um bodegueiro suspira e diz: “Faz tempo que não aparece por aqui. Sinto falta dele… e ainda guardo um baralho de vale pendurado, esperando para a gente se acertar. Pode apostar: ele voltará!”
Totonho Laprovitera é arquiteto e escritor