Com o título “De olhos fechados”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Confira:
Tudo começou quando, na fila do ponto de ônibus, ouvi de um senhor idoso: “As lembranças nos levam ao passado; os sonhos, ao futuro.” Desde então, essa frase não me saiu da cabeça.
Se você crê na transmissão de pensamento, vai entender onde quero chegar.
Imagino que, em algum lugar – não sei onde, nem por quem – esteja sendo criado um aparelho de conversão de ondas eletromagnéticas em sinais enviados direto ao cérebro. Imagens projetadas na mente das pessoas, permitindo que alguém, por exemplo, assista a um filme de olhos fechados.
A ideia parte da constatação de que os olhos veem, mas é o cérebro que enxerga. E essa invenção permitirá visualizar tudo com a mesma nitidez, profundidade e intensidade dos sonhos.
Mas, se você estranhar a coragem do que digo, explico. Há muito tempo, para meu espanto, ouvi de um sujeito a seguinte frase: “Quem não pensa igual a mim é um idiota.” E me perguntei como alguém pode ser tão arrogante – e, ao mesmo tempo, tão limitado.
E não é que, ultimamente, tenho tido a desdita de ouvir frases e presenciar atitudes muito próximas às daquele personagem? O que mais me espanta é que muitos dos que adotam essa postura, contradizem o que pregam e praticam.
Que desengano é ver o direito de divergir ser confundido – e, pior, usado – como permissão para agredir.
Passa a marcha. Ouço música. Quando alcanço plena lucidez, percebo o instante que existe além de mim. Flutuo na abrangência dos meus limites, guardados no abrigo das almas que a memória preserva – aquelas que fazem parte da minha história. Assim, o tempo se espalha em muitos sentidos.
Na viagem das horas, clareio universos, aquieto meus medos e me recolho ao eco de ondas incertas. Uma musa fala de um lado, um coral canta do outro, e minha mente abriga o que as palavras não alcançam. Números traçam sequências de sentimentos nesse circo antigo a desafiar as impossibilidades que o saber estabelecido insiste em impor.
Ah, musical madrugada, toque o piano da minha vida: quero – preciso – sonhar. Oh, misterioso sopro, conduza-me nas marés da imaginação que embalam meus desejos. Que a realidade não me desperte do sono que me faz voar no pensamento numinoso das sombras que me habitam.
Pensando bem, é tão ingênuo ser feliz…
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.