Com o título “Demagogia Tecnológica”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e mestre em Negócios Internacionais. “No cenário contemporâneo, embora subsistam traços populistas e demagógicos, o elemento distintivo do novo modelo reside na capacidade de instrumentalização das tecnologias digitais e das plataformas de comunicação em massa”, expõe o articulista.
Confira:
O modelo de liderança política que se consolida no século XXI — marcado pela centralidade da tecnologia, pela virtualização das relações e pela comunicação digital em tempo real — apresenta características próprias e bem delineadas. Trata-se de um padrão de liderança que compreende, com notável habilidade, o manejo estratégico das novas ferramentas tecnológicas de comunicação, em nível e intensidade até então inéditos na história política.
No século XX, especialmente entre as décadas de 1920, 1930 e 1940, as lideranças carismáticas, populistas e demagógicas constituíram traço
marcante de diversos regimes. Figuraram, nesse contexto, tanto líderes autoritários de orientação fascista quanto dirigentes vinculados ao
comunismo soviético e aos seus Estados satélites. O culto à personalidade, a concentração, muitas vezes absoluta, do poder, a centralização estatal e, não raro, a personificação do Estado em uma única figura de autoridade eram elementos estruturantes daquele período histórico.
No cenário contemporâneo, embora subsistam traços populistas e demagógicos, o elemento distintivo do novo modelo reside na capacidade de instrumentalização das tecnologias digitais e das plataformas de comunicação em massa. A construção narrativa passa a operar com velocidade, alcance e intensidade incomparáveis, permitindo a difusão direta de mensagens ao público, frequentemente dissociadas de mediações institucionais tradicionais. Nesse ambiente, afirmações imprecisas, distorções ou mesmo inverdades de natureza política, econômica ou geopolítica podem ser apresentadas de forma direta, reiterada e desprovida de constrangimento quanto ao compromisso estrito com a verdade factual.
Como exemplo paradigmático desse fenômeno, pode-se mencionar a figura do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos da América. Em pronunciamentos oficiais, inclusive no tradicional discurso do State of the Union, observou-se uma reconfiguração do formato e da finalidade histórica dessa manifestação institucional — originalmente concebida como prestação de contas do Poder Executivo ao Poder Legislativo. Em determinadas ocasiões, o discurso assumiu contornos de comunicação direta com a base eleitoral, evidenciando a priorização do diálogo imediato com o público externo ao Parlamento.
Esse contexto impõe a necessidade de vigilância crítica permanente quanto às novas dinâmicas de poder e comunicação, sobretudo quando associadas a projetos que possam implicar fragilização das instituições democráticas, relativização de freios e contrapesos e tensionamento das normas que estruturam o Estado de Democrático de Direito.
*Vanilo de Carvalho
Advogado e Mestre em Negócios Internacionais.