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“Do pau-brasil à Soberania Digital” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University

Com o título “Do pau-brasil à Soberania Digital”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

(Ao combatente Joao de Paulo… João do Pacto, da vida)

“Se oferecemos pasto ao gado digital, alguma coisa além do esterco precisa ficar por aqui.”

Confira:

Duas notícias boas na mesma semana.

Dia 11 de agosto, o Ministério da Saúde anunciou a “Nuvem Soberana do SUS”: mais de 5 bilhões de registros de saúde da população brasileira começam a migrar para infraestrutura pública nacional, em servidores do SERPRO, sob jurisdição brasileira.

Dia 12, outra notícia: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) vai ampliar a aposta em infraestrutura computacional. O Brasil deverá investir mais de R$ 2 bilhões em dois supercomputadores de IA, entre os dez mais potentes do mundo: um made in Trump; o outro, um “negócio da China”.

Hummm… Não é pouca coisa para a 9° economia mundial… a 84° no IDH.

Na economia da Inteligência Artificial, capacidade computacional e armazenamento de dados deixaram de ser apenas infraestrutura. Viraram instrumento de soberania.

Merecem aplausos. E uma reflexão.

1. Comecemos pela nuvem do SUS

Dado de saúde talvez seja o petróleo mais sensível que existe: prontuário, diagnóstico, exame, genoma, histórico clínico. A vida de cada brasileiro, escrita em bits.

Parte dessas informações dependia de infraestruturas comerciais estrangeiras. E aqui entra o CLOUD Act, lei americana que, em certas circunstâncias, permite às autoridades dos Estados Unidos exigirem de provedores sob sua jurisdição os dados que estes detenham, mesmo armazenados fora do território americano.

Microsoft, Google, Amazon e comparsas: todas alcançadas. Guardar o dado do SUS nessas nuvens era guardar o cofre na casa do vizinho.

Trazer informações estratégicas para infraestrutura e governança brasileiras reduz essa exposição.
Não é detalhe técnico. É jurisdição. É a diferença entre ser inquilino digital e ter as chaves da própria casa.

Na velha metáfora, dado era o novo petróleo. Na era da IA, é também território. E soberania começa por saber quem tem as chaves e a quem pertence o terreno.

2. E os supercomputadores, hein?

Quem não tem processamento próprio depende de quem tem. Para pesquisar, treinar modelos, desenvolver tecnologias e, cada vez mais, formular políticas públicas.

A decisão de adquirir duas máquinas de fornecedores de países diferentes acrescenta uma dimensão geopolítica à capacidade de cálculo.
Qualquer bodega do Sertão sabe: depender de um único fornecedor é ficar na mão dele. Em geopolítica chamam isso de vulnerabilidade estratégica.

Mas sejamos claros: supercomputadores não nos tornam soberanos. Continuaremos dependentes de chips, GPUs e tecnologias estrangeiras.

Ainda assim, não colocar todos os “FLOPs na mesma cesta” reduz uma dependência estratégica e amplia a capacidade de universidades, centros de pesquisa, empresas e governo produzirem inteligência brasileira em território brasileiro.

Comprar máquina é fácil… havendo grana, claro. O difícil vem depois: quem vai usá-la, para quê, com quais dados, formando quem, produzindo qual conhecimento e, sobretudo, a serviço de qual política de soberania digital.

Porque supercomputador parado é monumento tecnológico. Supercomputador formando gente, produzindo ciência e gerando tecnologia é soberania em construção.

3. Dois fatos, uma direção

São avanços. E precisam ser reconhecidos.

Tenho insistido, ao discutir datacenters e IA, no risco do pau-brasil digital: exportamos energia, território e recursos; importamos inteligência pronta.
Essas duas iniciativas apontam no sentido contrário.

Mas não confundamos avanço de soberania com soberania conquistada.
* Podemos guardar nossos dados aqui e continuar dependentes dos algoritmos de lá.
* Podemos instalar supercomputadores e continuar comprando chips, alugando modelos e pagando plataformas.
* Podemos encher o Brasil de datacenters e continuar sendo o lugar onde ficam energia, água, cabos e prédios enquanto inteligência e a maior parcela do valor permanecem do outro lado da nuvem.

Nuvem soberana e supercomputador são motores. Não são destino.
E ninguém chega a lugar nenhum apenas porque comprou um motor.

Sêneca já sabia disso, dois mil anos antes de qualquer datacenter: para quem não sabe aonde quer chegar, nenhum vento é favorável.

Na era da IA, temos algum vento. Estamos comprando motores.

Falta definir o porto..

4. Casa própria com cimento importado

E aí aparece o “Zedoidin na contramão da ciclovia”.
Avançamos. Mas as contradições vêm pedalando na direção contrária.

As GPUs vêm de fora. Os supercomputadores vêm de fora. Compramos capacidade de processar, mas ainda não dominamos a fabricação de boa parte da infraestrutura que processa.

E há outro andar dessa dependência: as plataformas.
O dado do SUS pode dormir no Brasil enquanto o médico conversa pelo WhatsApp. O gestor comemora a nuvem soberana, mas reúne a equipe pelo Teams, guarda documentos no Drive, pesquisa no Google e consulta uma IA estrangeira.

O dado dorme aqui. Boa parte da conversa sobre o dado ainda dorme lá fora.
A casa pode ser nossa. Parte do terreno ainda é dos outros.

Soberania de armazenamento e capacidade computacional são avanços. Ainda não são soberania digital.

Estamos pedalando na direção certa. O problema é que boa parte do ecossistema digital continua vindo na contramão.

5. A PNND e o gado digital

É exatamente aqui que entra a Política Nacional de Negociação de Datacenters (PNND), que apresentei na 77ª Reunião Anual da SBPC, neste julho, em Niterói.

Não se trata de impedir datacenters estrangeiros, muito menos de imaginar uma impossível autarquia tecnológica.

Trata-se de uma palavra simples, que precisa ser dita em letras grandes e com gestos maiores ainda: NEGOCIAR.

Se o Brasil oferece incentivos públicos, energia, água, território e cabos aos grandes datacenters, precisa discutir o que ficará no país além dos prédios e servidores.

Que tal capacidade computacional para universidades e IFs? Formação de engenheiros? Transferência tecnológica? Apoio a startups e fornecedores nacionais? Residências tecnológicas? Infraestrutura compartilhada?

Em duas palavras: Dividendo Digital.

“Se oferecemos pasto ao gado digital, alguma coisa além do esterco precisa ficar por aqui.”

É a diferença entre hospedar tecnologia e internalizar conhecimento, competência e valor. Porque inquilino digital não vira sócio tecnológico por decreto.

Muito menos por aplauso.

6. Soberania não é produzir tudo

Nenhum país produz tudo. Mas nenhum país que pretenda ser soberano pode depender de outros para tudo.

Soberania digital é, antes de tudo, capacidade de escolher:

* onde ficam nossos dados e quem os processa;
* quais tecnologias usamos e que conhecimento dominamos;
* quais dependências aceitamos e quais são estratégicas demais para entregar integralmente a terceiros.

Soberania não é isolamento. É autonomia para decidir até onde podemos depender.

Por isso, aplausos, sim.

Este é o país do Pix, da urna eletrônica, do SUS, do Imposto de Renda digital, da agricultura tropical, do petróleo em águas profundas.

Quando o Brasil decide transformar conhecimento em política pública, já mostrou que sabe fazer.

7. Não nos falta competência…

O que nos falta é conectar iniciativas importantes, mas ainda dispersas, em uma Política Nacional de Soberania Digital. Fazer da Nuvem Soberana, dos supercomputadores, da PNND, da ciência e da formação de gente peças de um mesmo projeto de país.

Porque a IA Generativa não é apenas mais uma tecnologia.

Ela começa a transformar educação, trabalho, ciência, empresas, Estado e, mais profundamente, o próprio modo de pensar.

Não estamos diante apenas de uma nova tecnologia. Estamos entrando em uma nova era.

E não nos falta competência. Falta estratégia.

8. O novo mundo já estreou

Boa parte da sociedade ainda não percebeu.

Muitos políticos tratam o assunto como mais uma pauta. Lideranças confundem IA Generativa com ferramenta de produtividade. E parte da universidade oscila entre o deslumbramento e o desconhecimento.

Enquanto isso, o mundo novo não espera.
O Brasil começou a colocar o carro na pista.

A Nuvem Soberana protege o dado. Os supercomputadores ampliam a capacidade de transformá-lo em inteligência.

A PNND pode transformar datacenters em instrumentos de desenvolvimento, e não em enclaves tecnológicos plantados em território brasileiro.

São peças importantes. Falta juntá-las num projeto de país.

9. Aplausos, sim, mas…

Supercomputador sem estratégia tecnológica, datacenter sem contrapartidas negociadas, dado soberano sem autonomia sobre plataformas, IA sem política nacional: motores potentes em um carro ainda sem direção definida.

A nuvem guarda o dado. O supercomputador oferece capacidade de processamento. Falta a estratégia capaz de transformar dado em inteligência, inteligência em economia e economia em desenvolvimento.

E estratégia, aqui, não é documento em PDF com capa bonita. É decisão com endereço: quais problemas brasileiros esses supercomputadores vão atacar primeiro: saúde, agricultura, clima, língua portuguesa? Que percentual da capacidade vai para universidades e IFs? Que modelos brasileiros de IA serão treinados, com quais dados, sob qual governança?

Perguntas sem resposta viram máquina ociosa. E máquina ociosa, já vimos, é monumento.

Há ainda outro risco, mais brasileiro que os demais: o da inauguração. Somos bons em cortar fita e fracos em manter o motor ligado. Nuvem soberana e supercomputador atravessam governos… ou deveriam. Se cada eleição puder desligar a tomada, não há soberania: há mandato.

Política de governo dura quatro anos. Soberania se constrói em política de Estado.

Carro na pista é começo.

Corrida é outra coisa.

10. Pau-brasil Digital

Há mais de cinco séculos, o Brasil entrou na economia mundial exportando pau-brasil. A árvore saía daqui. O valor ficava lá.

Mudaram os séculos. Mudaram as mercadorias. O risco permanece.

Hoje podemos exportar energia, dados, território e capacidade de processamento enquanto importamos algoritmos, plataformas e inteligência.

É o pau-brasil digital.

A Nuvem Soberana do SUS e os novos supercomputadores sinalizam uma mudança importante: começamos a compreender que não basta fornecer matéria-prima para a economia digital.

Precisamos participar da produção do conhecimento e, sobretudo, do valor que nasce dele.

Do país que fornece energia para o datacenter ao país que produz inteligência dentro dele.
Do país que consome modelos de IA ao país que também os desenvolve.
Do país que entrega dados às plataformas ao país que governa seus dados.
Do país que hospeda tecnologia ao país que negocia, aprende, produz e decide.
Não precisamos fabricar tudo. Precisamos deixar de depender de tudo.

Talvez seja essa a travessia que começa agora.
Do pau-brasil à Soberania Digital.

Porque soberania, na era da IA, não será medida pelo território que controlamos, mas pela inteligência que formos capazes de produzir, compreender e governar

Esta semana, o Brasil foi sabido duas vezes.
Que vire hábito.

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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