Com o título “Dois amigos”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Amigos de verdade não se separam; apenas seguem caminhos diferentes.
Confira:
Uilame vinha de um tempo em que menino “só tinha direito aos olhos da cara”. Choro não tinha vez; a mãe cortava logo: “Guarde esse choro pra quando eu morrer!” A educação era pela Lei do Chico de Brito: escreveu, não leu, o pau comeu. Se se danasse demais, o castigo já estava encomendado: era puxado pelo braço até o banheiro e, debaixo do chuveiro, levava uma pisa de corda molhada.
Edivar era o avesso disso tudo. Bulia em tudo – até no tira-gosto em dia de visita – e, contrariado, soltava um nhenhenhém meloso que amolecia a casa inteira. Bastava ensaiar um choro para ver os quereres atendidos. Sua lei era outra: depois da danação, vinha o prêmio. E, se aprontasse demais, o castigo era trocar a Disneylândia pelo Beto Carrero.
O tempo passou, e os caminhos de Uilame e Edivar, que pareciam correr em direções opostas, acabaram se cruzando.
Num desses encontros de família, de mesa farta, prosa solta e menino correndo pela casa, Uilame – já homem feito – chegou quieto, cumprimentou um por um e se ajeitou num canto, atento à conversa. Edivar, ao contrário, mal entrou e já saiu espalhando abraços, beliscando pratos alheios, como se tudo ali fosse seu.
“Ôxente, Uilame! Quanto tempo, rapaz! Num diga que ainda tá com essa cara de menino assombrado!” – brincou Edivar, com um tapa nas costas. Uilame, pouco dado a espalhafato, respondeu só com um sorriso de canto. “Continua o mesmo, Edivar… ainda acha que a vida abre as portas só porque tu ameaça chorar?” Edivar riu alto e devolveu: “E tu ainda acha que a vida só se ajeita no grito e na pancada? Por um instante, os dois se encararam, cada qual grudado à própria verdade.
Antes que a conversa tomasse outro rumo, chegou a matriarca, Dona Ritinha, com um prato de Luiz Felipe nas mãos. “Vixe, mas eu quero é saber: vocês vieram pra brigar ou pra comer?” Os dois riram e, entre um gole de café e uma fatia de bolo, foram debulhando as lembranças da infância. Uilame falou dos castigos; Edivar, por sua vez, confessou que, no fundo, às vezes sentia falta de um freio.
“Talvez umas surras me tivessem endireitado – disse Edivar. “E um pouco de mimo me teria ensinado a pedir as coisas sem medo – inteirou Uilame. Dona Ritinha se abriu: achava que os dois deram certo assim mesmo – um aprendendo a se soltar, o outro a se segurar; afinal, o mundo não vive só de cabresto curto, nem só de folga.
E, entre um riso e outro, Uilame e Edivar entenderam que cada um levava um pouco do outro. Que, apesar dos pesares, tinham se criado e virado homens – cada qual ao seu modo.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.