“Inteligência a serviço da fé, Dom Gregório reúne uma formação intelectual do melhor nível”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
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No domingo, 16/08, data aniversária do nascimento de São João Bosco e de instalação da Rádio Dom Bosco em Fortaleza, tive a grata satisfação de mais uma vez ouvir a mensagem da cruz pregada por Dom Gregório Paixão, Arcebispo Metropolitano, na Igreja de Nossa Senhora da Piedade.
Há homens que fazem da palavra uma profissão; outros fazem dela uma arte. Há, porém, aqueles que transformam a palavra em missão. Quando a palavra nasce de uma inteligência iluminada pela fé, de um coração inflamado pelo amor a Deus e de uma sincera preocupação com a salvação das almas, ela deixa de ser simples discurso e se converte em instrumento de evangelização.
É nesse horizonte que se pode compreender a figura de Dom Gregório Ben Lâmed Paixão, OSB, Arcebispo Metropolitano de Fortaleza. Sem qualquer pretensão de estabelecer uma comparação de santidade — prerrogativa que pertence à Igreja e à história —, é perfeitamente legítimo reconhecer em seu talento oratório uma afinidade de estilo e de finalidade com aquele que a tradição cristã consagrou como São João Crisóstomo, o “Boca de Ouro”.
São João Crisóstomo recebeu esse sobrenome, Chrysóstomos, precisamente pela extraordinária eloquência de sua pregação. Sua palavra não era mero ornamento retórico: ensinava, exortava, corrigia, consolava e chamava à conversão. O grande pregador de Antioquia e Constantinopla compreendia que a eloquência cristã somente alcança sua verdadeira grandeza quando conduz o ouvinte à verdade e à transformação da vida.
É justamente nessa dimensão pastoral da palavra que se encontra uma das características mais marcantes de Dom Gregório Paixão.
Inteligência a serviço da fé, Dom Gregório reúne uma formação intelectual do melhor nível. Monge beneditino, estudou Filosofia e Teologia na Escola da Congregação Beneditina do Brasil, vinculada à tradição acadêmica de Santo Anselmo, em Roma. Posteriormente, doutorou-se em Antropologia Cultural pela Open Universiteit van Amsterdam. Foi professor, diretor de instituições de ensino, pesquisador e autor de diversos livros.
Essa sólida formação não aparece em suas homilias como erudição exibicionista. Ao contrário: uma de suas qualidades é justamente a capacidade de transformar conhecimento em linguagem compreensível para o povo.
Ele pode falar de teologia, antropologia, Bíblia, história, cultura, comportamento humano ou vida espiritual sem perder de vista aquele que está diante dele. Sua inteligência não parece procurar o aplauso do auditório, mas a compreensão do ouvinte.
É aí que sua formação intelectual se encontra com sua vocação pastoral.
A Igreja necessita de pastores que conheçam profundamente aquilo que anunciam, mas que também saibam anunciar de maneira que o Evangelho alcance a inteligência e o coração. Dom Gregório parece compreender perfeitamente essa exigência.
Não por acaso, entre as áreas em que lecionou encontra-se a própria Homilética, a arte da pregação, a palavra que encanta, convence e transforma.
O verdadeiro pregador não é aquele que simplesmente fala bem. É aquele que faz com que a palavra pronunciada adquira uma espécie de vida própria no interior de quem a escuta.
São João Crisóstomo compreendeu isso de maneira extraordinária. Sua pregação unia beleza literária, conhecimento das Escrituras, vigor doutrinal e aplicação concreta à existência. Seu objetivo não era impressionar os ouvintes, mas conduzi-los à mudança de vida. A tradição o apresenta como modelo de orador sacro justamente porque sua eloquência estava subordinada à santidade e à missão evangelizadora.
Também em Dom Gregório a palavra possui essa capacidade de aproximação.
Ele fala ao intelecto sem abandonar o coração; fala à razão sem desprezar a sensibilidade; fala de Deus sem esquecer o homem concreto.
Sua homilia frequentemente parte de uma passagem evangélica, ilumina seu significado e, pouco a pouco, aproxima o texto bíblico da experiência cotidiana. O Evangelho deixa de ser uma página distante e passa a dialogar com a família, o trabalho, as relações humanas, as dificuldades, as virtudes e as fraquezas de cada pessoa.
É uma forma de pregação que não aprisiona a Palavra de Deus no passado. Ao contrário, procura fazê-la acontecer novamente na vida presente.
Existe, porém, um traço particularmente simpático e singular no modo de pregar de Dom Gregório: o humor.
Ao final de muitas de suas homilias, o arcebispo recorre a uma anedota, uma história, uma fábula, um apólogo ou uma situação espirituosa. O recurso poderia parecer, à primeira vista, apenas uma forma descontraída de terminar a celebração.
Não é.
Na verdade, quando bem utilizado, o humor pode constituir extraordinário instrumento pedagógico. Uma história engraçada é lembrada com facilidade. Uma imagem espirituosa permanece na memória. Uma pequena parábola pode acompanhar o fiel durante horas, dias ou até anos.
Dom Gregório parece saber disso intuitivamente ou, melhor dizendo, sabe disso como homem de grande experiência pastoral e domínio da comunicação.
Ele conduz o ouvinte ao sorriso e, quando este já está descontraído, apresenta a conclusão moral e espiritual da história. O riso abre a porta; a reflexão entra por ela.
A anedota não termina na anedota.
A fábula não termina na fábula.
A piada não termina na piada.
Existe sempre uma segunda camada: a lição.
E é nessa passagem do sorriso para a reflexão que se encontra uma das marcas mais inteligentes de sua pedagogia pastoral.
A pedagogia da simplicidade
O método é antigo. Jesus Cristo, o Mestre por excelência, ensinava frequentemente por parábolas. Falava de sementes, pescadores, agricultores, moedas, filhos, trabalhadores, banquetes e situações da vida comum.
A grandeza do método está em tornar acessível uma verdade profunda mediante uma imagem simples.
São João Crisóstomo também possuía extraordinário senso pastoral. Seu grande talento não estava apenas na beleza da linguagem, mas na capacidade de fazer a Palavra dialogar com a vida. Sua pregação articulava fé e existência, doutrina e comportamento, culto e caridade.
Dom Gregório, guardadas naturalmente as enormes diferenças de época, personalidade e missão, revela algo dessa mesma intuição.
Ele sabe que uma verdade difícil pode ser recordada por meio de uma história simples.
Sabe que uma exortação severa pode ser recebida com maior abertura quando precedida por um sorriso.
Sabe, sobretudo, que a evangelização não consiste apenas em transmitir informações religiosas, mas em ajudar pessoas concretas a viverem melhor a sua fé.
Há ainda uma dimensão importante para compreender Dom Gregório: sua experiência monástica.
Ingressou no Mosteiro de São Bento da Bahia ainda jovem e ali exerceu numerosos ofícios, entre eles os de bibliotecário, mestre de coro, organista, mestre de noviços, ecônomo, arquivista e prior. Foi também diretor do Colégio São Bento e da Faculdade São Bento da Bahia.
Essa trajetória ajuda a compreender a amplitude de sua personalidade.
Há nele algo do monge que ama o silêncio, a disciplina, o estudo e a liturgia; algo do professor que procura compreender e explicar; algo do escritor que aprecia a palavra; e algo do pastor que deseja estar próximo das pessoas.
Não é apenas um homem que estudou teologia: é alguém cuja vida foi formada dentro de uma tradição espiritual.
Não é apenas um professor, é um sacerdote; não é apenas um intelectual, é um pastor; e não é apenas um excelente comunicador, é um bispo consciente de que recebeu a missão de anunciar o Evangelho.
Na homilia de imposição do Pálio Arquiepiscopal, em Fortaleza, ele próprio definiu seu encargo episcopal em termos profundamente pastorais: carregar sobre os ombros as ovelhas, compreender seus sentimentos e incentivá-las a retornar ao caminho da vida.
Essa imagem do pastor que carrega as ovelhas é particularmente expressiva.
É nesse contexto que a comparação com São João Crisóstomo ganha sentido.
Crisóstomo significa “Boca de Ouro”. Mas o ouro da boca do santo não estava simplesmente na sonoridade das palavras. Estava na verdade que elas proclamavam, na beleza que possuíam e, sobretudo, na capacidade de tocar consciências.
Uma boca é verdadeiramente de ouro quando suas palavras fazem o homem levantar os olhos para Deus.
Quando o pecador reencontra o caminho.
Quando o desanimado recupera a esperança.
Quando o indiferente começa a pensar.
Quando o cristão deixa de apenas ouvir e decide viver.
É justamente por isso que a expressão “Crisóstomo da Igreja no Ceará” pode ser compreendida como uma homenagem ao talento oratório e à fecundidade pastoral de Dom Gregório Paixão.
O Ceará, terra de grandes oradores, poetas, repentistas, escritores e pregadores populares, encontrou em seu arcebispo uma personalidade cuja palavra reúne erudição e simplicidade, profundidade e leveza, doutrina e bom humor.
E talvez seja essa uma de suas maiores virtudes: não permitir que a profundidade se transforme em complicação.
Há uma sabedoria pastoral no modo como Dom Gregório encerra suas homilias.
Depois de falar de Deus, da Igreja, do Evangelho e da vida cristã, ele frequentemente conduz a assembleia a um sorriso. O ambiente se descontrai. O ouvinte baixa a guarda.
Então vem a conclusão.
Uma frase.
Uma advertência.
Uma lição.
Uma pequena verdade sobre o modo como devemos viver. E aquele que estava sorrindo termina pensando. É uma pedagogia profundamente humana. Porque a fé não elimina a alegria. O cristianismo não é uma religião da tristeza. A esperança cristã nasce precisamente da certeza de que, apesar das dores e contradições do mundo, Cristo venceu a morte.
O bom humor de Dom Gregório, portanto, não diminui a solenidade de sua missão. Pode, ao contrário, revelar uma das dimensões mais luminosas da própria espiritualidade cristã: a alegria de quem encontrou em Cristo o sentido último da existência.
São João Crisóstomo sabia que a pregação não deveria terminar quando o pregador deixava o púlpito. Ela deveria continuar na vida dos ouvintes. O mesmo poderia ser dito de Dom Gregório. Uma boa homilia não é aquela que termina com um aplauso. É aquela que continua ecoando na consciência.
Uma boa pregação não é aquela que faz o público admirar o pregador. É aquela que faz o cristão examinar a própria vida. Uma palavra verdadeiramente cristã não procura apenas convencer. Procura converter.
E converter significa mudar a direção da existência.
Por isso, a grandeza do orador sacro não se mede somente pela quantidade de conhecimento que possui, pela elegância de sua linguagem ou pela capacidade de provocar risos e emoções. Mede-se pelos frutos espirituais que sua palavra produz.
Nesse sentido, Dom Gregório Paixão possui uma das qualidades mais preciosas para um pastor: sabe fazer com que a Palavra de Deus pareça simultaneamente antiga e nova; profunda e simples; exigente e próxima.
Fortaleza possui uma longa história religiosa. É uma Igreja marcada pela devoção popular, pelas grandes celebrações, pela tradição missionária e pela presença de milhares de homens e mulheres que procuram viver sua fé no cotidiano. Nesse cenário, Dom Gregório Paixão recebeu uma missão de grande responsabilidade. Desde sua posse canônica, em 15 de dezembro de 2023, tornou-se o pastor da Arquidiocese de Fortaleza e metropolita da Província Eclesiástica do Ceará.
Sua presença intelectual, sua experiência monástica, sua formação teológica, sua cultura, sua capacidade de comunicação e, sobretudo, seu espírito pastoral constituem um patrimônio a serviço dessa Igreja.
Se São João Crisóstomo ficou para a história como o “Boca de Ouro” da Igreja antiga, Dom Gregório Paixão pode ser saudado, no Ceará de nosso tempo, como um de seus mais notáveis intérpretes da palavra cristã. Não porque fale simplesmente bonito.
Mas porque sabe que a palavra do pastor deve possuir inteligência para ensinar, beleza para encantar, força para convencer, ternura para consolar e verdade para converter.
E quando, depois de uma homilia densa e profunda, Dom Gregório conta uma anedota, uma fábula ou uma história engraçada e encerra com uma lição para a vida, talvez esteja realizando, com a simplicidade própria dos grandes mestres, uma das mais antigas tarefas da pregação cristã: fazer sorrir os lábios para que o coração se abra; fazer pensar a inteligência para que a vontade se mova; e fazer a alma encontrar, no caminho da fé, uma razão sempre nova para voltar-se para Deus.
Essa é a verdadeira eloquência cristã. Essa é a arte do pregador. E essa é a razão pela qual, com respeito e admiração, se pode chamar Dom Gregório Paixão de “o Crisóstomo da Igreja no Ceará”.
Barros Alves é jornalista e poeta