“O caso do Ceará, vice-líder nacional em eficiência, mesmo detendo a menor receita por habitante do país (R$ 4.275), é o exemplo mais puro de alocação de recursos baseada em dados e evidências”, aponta o economista Alexandre Cialdini
Confira:
O Ceará assumiu a liderança das regiões Norte e Nordeste no Ranking de Competitividade dos Estados 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP). O estado subiu três posições em relação ao ano anterior, saltando do 14º para o 11º lugar no cenário nacional. O avanço cearense está fundamentado no equilíbrio entre a responsabilidade fiscal e a entrega de serviços essenciais.
Na análise regional e nacional divulgada pelo CLP, o Ceará alcançou posições de destaque: a) 1º Lugar do Nordeste em Competitividade Geral, Capital Humano, Educação, Eficiência da Máquina Pública e Investimento Público ; b) 3º Lugar do Brasil em Investimento Público, refletindo a forte capacidade do governo estadual de injetar recursos em infraestrutura e desenvolvimento social mesmo diante de cenários macroeconômicos desafiadores; e c) Potencial de Mercado: O estado saltou 13 posições neste indicador, impulsionado pela melhora expressiva em subfatores como a Qualidade de Crédito para Pessoa Física.
A âncora teórica que fundamenta o Ranking de Competitividade baseia-se na ressignificação do conceito clássico de competitividade. No setor público, competitividade significa a capacidade dos governos de planejar e executar políticas públicas capazes de gerar bem-estar social e atratividade econômica. Desenvolvida originalmente em parceria com a Economist Intelligence Unit (EIU) e atualizada pela Tendências Consultoria, a metodologia estrutura-se em pilares teóricos integrados, que ajudam a compreender o salto do Ceará para a 11ª posição nacional.
A abordagem teórica sobre instituições e atração de investimentos articula as contribuições de Douglass North e Michael Porter para a compreensão do desenvolvimento econômico, da competitividade e da criação de valor. Embora tenham origens teóricas diferentes, suas visões complementam-se no estudo sobre como as empresas e as nações prosperam.
Para o CLP, a atratividade de um estado para investimentos produtivos (setor privado) depende diretamente da qualidade do ambiente de negócios fornecido pelo setor público. Inspirado nas teorias de Michael Porter, o ranking assume que a competitividade não é um dado geográfico, mas algo construído ativamente por governantes.
O Ranking de Eficiência dos Estados (REE-F), desenvolvido pelo jornal Folha de São Paulo e pelo instituto de pesquisa Datafolha, materializa de forma prática uma das maiores discussões da ciência das finanças públicas: a transição do gasto inercial para a cultura do orçamento-programa. Ao cruzar a Receita Corrente Líquida (RCL) per capita com entregas reais em áreas como educação, saúde, saneamento e segurança, o estudo serve como um poderoso diagnóstico de quais governos conseguiram transformar a peça orçamentária em uma ferramenta de transformação social e quais continuam presos à mera burocracia do gasto.
A grande revelação do ranking está no fato de que estados com maior receita por habitante, como Amapá e Acre, figuram entre as últimas posições em eficiência, expondo a falência do orçamento tradicional.
Como teorizava o cientista político Allen Schick, o orçamento que se limita a controlar o cumprimento de limites legais e repetir as despesas do ano anterior falha em gerar desenvolvimento. Quando o dinheiro público é alocado por inércia corporativa, o aumento da receita traduz-se apenas em estruturas mais caras, e não em melhores serviços públicos.
É no topo do ranking que o orçamento-programa demonstra a sua força científica. O caso do Ceará, vice-líder nacional em eficiência, mesmo detendo a menor receita por habitante do país (R$ 4.275), é o exemplo mais puro de alocação de recursos baseada em dados e evidências.
Ao adotar e aperfeiçoar o orçamento-programa de forma estruturada, investindo metas claras de desempenho na educação básica e na saúde primária, o estado conseguiu quebrar a lógica da escassez. O dinheiro deixou de ser um fim em si mesmo para se tornar o combustível de indicadores finalísticos, permitindo ao Ceará obter a terceira melhor nota em Educação do Brasil.
Contudo, os resultados do Datafolha também lançam luz sobre as críticas clássicas do cientista político Aaron Wildavsky ao modelo racionalista. Demonstra-se também que o orçamento-programa não é uma fórmula mágica infalível. Setores complexos — marcados por fortes pressões políticas, dinâmicas voláteis e resistência cultural à monitorização de dados — evidenciam o limite da técnica diante do conflito social real.
Em última análise, o Ranking de Competitividade do CLP e o Ranking de Eficiência dos Estados da Folha de São Paulo/DataFolha apontam que a governança moderna exige o equilíbrio entre a disciplina fiscal e o planejamento programático. Os estados que lideram o índice compreenderam que a eficiência não se compra com orçamentos inflacionados, mas constrói-se desenhando políticas públicas no qual o sucesso é medido pelo impacto na vida do cidadão, e não pelo volume de recursos que o governo é capaz de gastar.
Conclui-se que o êxito do Estado do Ceará desenha um novo capítulo para a administração pública brasileira, servindo como a maior evidência prática dos conceitos da nova gestão pública e do crescimento endógeno no país. Ao liderar a competitividade no Norte-Nordeste e conquistar a vice-liderança nacional em eficiência operando com a menor receita per capita do Brasil, o Ceará prova que o fortalecimento institucional, o rigor fiscal e a priorização da educação básica conseguem mitigar desigualdades regionais históricas. Os resultados indicam que o nosso Governo está no caminho certo.
Contudo, o modelo cearense chega a um ponto de inflexão para romper a barreira do top 10 em competitividade. Para avançar ainda mais, deverá manter sua continuidade por meio do programa de governança interfederativa, da ampliação dos recursos e da intensificação da atração de novas receitas e de investimentos externos estruturantes.
Alexandre Cialdini
Economista, doutor em Administração Pública e secretário do Planejamento e Gestão do Ceará