Com o título “E la Caravana va” … rumo a São José dos Campos (SP)”, eis contribuiçao de Mauro Oliveira, professor do IFCE e PhD em informática por Sorbonne University, no momento em que se discute a IA e o Brasil.
Confira:
Universidade Presbiteriana *Mackenzie* (SP), Comitê Gestor da Internet no Brasil *(CGI.br* ), Universidade Federal da Paraíba ( *UFPB* ), Universidade de Fortaleza ( *UNIFOR* )… e agora a *Caravana LF de Soberania Digital* segue viagem para São José dos Campos, atendendo a um convite para a Aula Magna do *Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)* . O honroso convite foi formulado por Antonio Miguel Vieira Monteiro, Diretor do INPE, doutor em Engenharia Eletrônica e Controle pela Universidade de Sussex, servidor de carreira do próprio Instituto.
Mais do que uma agenda acadêmica, esse convite representa um marco inspirador, talvez o principal, para a própria concepção da *Caravana LF,* que somente neste mês de março conversará com quinze instituições brasileiras interessadas em refletir sobre os caminhos da soberania digital do país.
*São José dos Campos* é, há décadas, um dos territórios mais férteis da ciência e da tecnologia brasileira. Uma cidade que abriga instituições que ajudaram a moldar a capacidade científica do país: *ITA, EMBRAER, CTA, INPE* , entre outras. Ali se construiu, ao longo do tempo, um ambiente singular onde pesquisa, engenharia e visão estratégica caminham lado a lado, fermentos para o propósito da Caravana LF.
Daí o *INPE* ocupar um lugar particularmente emblemático para a *Caravana LF de Soberania Digital.* Reconhecido internacionalmente por suas contribuições em pesquisa espacial, sensoriamento remoto e ciência de dados geoespaciais, o Instituto representa uma das expressões mais maduras da capacidade brasileira de conceber e sustentar infraestrutura científica estratégica.
Seus programas estruturam-se em áreas que revelam a amplitude dessa missão. Na observação da Terra, o INPE consolidou-se como referência mundial no monitoramento de biomas, especialmente da Amazônia, acompanhando o uso do solo, o avanço do desmatamento e a dinâmica das queimadas por meio de sofisticados sistemas de satélites.
Nas ciências espaciais e atmosféricas, o Instituto investiga fenômenos que vão da astrofísica à geofísica, ampliando a compreensão científica do ambiente terrestre e de sua interação com o espaço próximo ao planeta.
No campo da engenharia e tecnologia espacial, projeta, desenvolve e opera satélites, além de sistemas de solo responsáveis pelo controle e rastreamento dessas plataformas orbitais. Já na área de previsão de tempo e clima, conduz estudos meteorológicos e climáticos de grande relevância, incluindo o monitoramento do clima espacial, atividade essencial para proteger infraestruturas tecnológicas sensíveis, sistemas de comunicação e redes energéticas cada vez mais dependentes de ambientes digitais complexos.
A isso se soma uma dimensão igualmente estratégica: a formação de recursos humanos altamente qualificados em ciência e tecnologia espacial, assegurando a continuidade dessas competências e contribuindo para a consolidação de uma base científica capaz de sustentar projetos nacionais de longo prazo.
Por tudo isso, o *INPE* consolidou-se como referência internacional em monitoramento ambiental e pesquisa científica, constituindo-se em um verdadeiro braço do Estado brasileiro na produção de conhecimento, na formulação de políticas públicas baseadas em evidências e no desenvolvimento de soluções sustentáveis.
Em outras palavras: o *INPE* demonstra, de forma concreta, que soberania científica e tecnológica não é um conceito abstrato, mas uma prática construída ao longo de décadas de investimento público, competência técnica e visão estratégica de país.
Em conjunto, essas atividades fazem do *INPE* não apenas um centro de pesquisa de excelência, mas uma instituição que materializa, no cotidiano da ciência e da engenharia, algo cada vez mais raro e necessário no mundo contemporâneo: a capacidade de um país produzir conhecimento estratégico, dominar tecnologias críticas e orientar seu próprio futuro científico e tecnológico.
Um movimento pelo Brasil
A Caravana LF de Soberania Digital é uma iniciativa dedicada a promover o debate crítico nas universidades brasileiras sobre os impactos estruturais da Inteligência Artificial Generativa (IAG) na economia, na educação, na cidadania e na soberania nacional.
Entre os temas centrais desse movimento encontra-se uma questão estratégica cada vez mais urgente: a instalação de datacenters de inteligência artificial no Brasil e seus desdobramentos tecnológicos, energéticos, ambientais e geopolíticos.
A Caravana LF nasce como um desdobramento pragmático e, em certa medida, também holístico, das reflexões apresentadas nos livros (ambos disponíveis em PDF em: https://maurooliveira.blog):
SABIÁ: Soberania e Autonomia Brasileira em Inteligência Artificial (2026)
Soberania Digital: Colonização & Letramento (2025)
Essas obras propõem, entre outros pontos: uma estratégia de negociação, governança e desenvolvimento sustentável para datacenters no Brasil e uma reflexão crítica sobre novas formas de dependência tecnológica emergentes das grandes plataformas digitais.
A inspiração do Mestre LF
Inspirada na memória e na visão estratégica de Luiz Fernando Gomes Soares (LF) — referência na construção da pesquisa, do desenvolvimento tecnológico e da educação digital no Brasil — a Caravana LF articula palestras, encontros e debates em universidades e instituições de ensino superior em diversas regiões do país.
A Caravana parte de uma premissa simples, mas decisiva: a inteligência artificial não é apenas uma inovação incremental.
Ela se configura cada vez mais como infraestrutura estratégica, capaz de reorganizar cadeias produtivas, relações de trabalho e mecanismos de coordenação social.Na ausência de um debate público estruturado sobre esse tema e planejamento, ampliam-se assimetrias de poder, dependências tecnológicas externas e vulnerabilidades institucionais.
Um convite à reflexão nacional: colonizados ou protagonistas?
Ao mobilizar estudantes, pesquisadores, gestores e formuladores de políticas, a Caravana LF procura estimular uma agenda nacional de reflexão sobre temas centrais para o futuro do país. Mais do que uma sequência de eventos, trata-se de um movimento de letramento estratégico — um convite ao diálogo, à pesquisa e à articulação interinstitucional.
Porque, no fundo, a questão já não é simplesmente participar do mundo digital.
A verdadeira questão é de que maneira participaremos dele…
Como consumidores permanentes de tecnologias concebidas em outros lugares ou como protagonistas de nossa própria história, uma sociedade capaz de pensar, construir e governar suas próprias infraestruturas tecnológicas?
Talvez seja justamente por isso que a Caravana segue seu caminho…
“E la Caravana va”…
sempre movida por uma pergunta que o Brasil ainda precisa responder!
Programação prossegue:
Dia 12: 24/mar/26 – CARAVANA LF na UNIRIO
Dia 13: 25/mar/26 – CARAVANA LF na UTFPR
Dia 14: 27/mar/26 – CARAVANA LF na UFSC
Dia 15: 30/mar/26 – CARAVANA LF na UFBA
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.