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“E quem não pode pagar por terapia, como fica?”

Marcos Robério Santo é jornalista. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “E quem não pode pagar por terapia, como fica?”, eis artigo de Marcos Robério Santo, jornalista. “Em um sistema que produz pessoas mentalmente transtornadas e que cobra caro para tratá-las, ter acesso a profissionais de saúde mental é privilégio”, expõe o articulista.

Confira:

Dias atrás pude ouvir um relato um tanto comovente. Uma senhora, de classe média, falou sobre o drama que viveu quando, por problemas financeiros ocasionados pela perda do emprego, teve de encerrar as sessões de psicoterapia que fazia havia mais de um ano com um profissional. Segundo ela, o terapeuta vinha sendo seu “porto seguro” em um momento de grande fragilidade emocional. Aquele encontro semanal, conta, era sempre aguardado com grande expectativa.

Afinal, ele era a única pessoa a quem ela contava sobre seus sentimentos, pensamentos e problemas, algo fundamental para que ela pudesse organizar as ideias e entender melhor o que estava se passando em sua vida. Porém, foi só ela não poder mais pagar pelo serviço que aquela relação de íntima confiança se desfez imediatamente. Isso, diz ela, foi um duro baque.

“Eu sei que esse é o trabalho dele e que ele não podia me atender de graça. Mas eu não estava preparada pra isso, ainda mais no momento em que eu mais precisava”, compartilhou. O resultado foi que a evolução que ela vinha apresentando foi substituída pelo sentimento de desamparo e pelo aprofundamento de problemas que até então estavam sob controle.

Logicamente, há questões éticas no caso que poderiam ser debatidas, como, por exemplo, a postura adequada aos profissionais de saúde mental em uma situação como essa. E também questões propriamente psicológicas, relacionadas aos cuidados necessários frente aos sentimentos que podem emergir no momento da ruptura na relação profissional-paciente – que, em geral, é naturalmente passageira, por mais que se criem vínculos.

Mas o ponto que me chama a atenção é mais pragmático mesmo, de ordem socioeconômica: como ficam aqueles que, por questões pontuais ou por limitações estruturais, não podem pagar por terapia ou por outros cuidados de natureza semelhante? Em um sistema que, por um lado, produz em larga escala pessoas mentalmente transtornadas e que, por outro, cobra caro para tratá-las, ter acesso a profissionais de saúde mental é privilégio.

O mesmo vale para o atendimento de saúde de forma geral. Porém, ao menos nas grandes cidades, assistiu-se nas últimas décadas a um considerável incremento de equipamentos na rede pública, como hospitais, clínicas, postos e, mais recentemente, unidades de pronto atendimento (UPAs). E, por mais que a infraestrutura esteja muito aquém do que deveria ser e que haja dificuldades em vários níveis, esse arcabouço consegue cumprir seu papel. Quando precisa desse atendimento mais convencional, o paciente sabe aonde ir e sabe que, apesar da demora e das limitações, é mais provável que consiga ser atendido.

No caso da saúde mental, a situação é mais difícil e dramática. Há pouquíssimos equipamentos públicos específicos para esse tipo de necessidade. Já pude acompanhar de perto pessoas que precisaram de atendimento em hospitais e em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e vi o quanto essa procura pode ser desgastante e desencorajadora, ainda mais para quem está em condição de vulnerabilidade emocional. Assim, uma enorme gama de pessoas com ansiedade, depressão, bipolaridade, borderline, burnout (entre vários outros transtornos e síndromes), assim como aquelas que buscam “simplesmente” apoio emocional, se veem praticamente desassistidas, com poucas opções às quais recorrer.

Tal cenário impõe uma série de desafios. Para os diferentes níveis de governo, coloca-se como imperiosa a necessidade de mais investimentos a fim de aumentar e qualificar a rede de apoio psicossocial, bem como de construir políticas públicas amplas e permanentes relacionadas ao assunto. Já para as empresas, é preciso haver uma mudança na cultura corporativa referente aos funcionários, colocando a saúde mental no centro das discussões. Até porque isso interessa diretamente ao setor produtivo, visto que os transtornos mentais no trabalho provocam uma perda de quase R$ 400 bilhões por ano no faturamento das empresas brasileiras, conforme estudo divulgado em 2023 pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).

E para as pessoas em geral, ficam algumas reflexões. Como diz o trecho de uma música do cearense Mateus Fazeno Rock, “o nego não tem grana pra pagar um analista, e nunca ouviu falar em terapia holística, nem reiki, só break”. Por isso, além de dizermos orgulhosamente que “a terapia está em dia”, como se isso fosse garantia de plena saúde mental (definitivamente, não é) e usá-la quase como símbolo de status no mundo dos relacionamentos, talvez fosse interessante termos em mente que a grande maioria das pessoas, por algum motivo, não pode usufruir disso. E, pensando assim, talvez possamos nos preocupar em construir condições de vida materiais, físicas e mentais melhores para a maioria das pessoas, em vez de aprofundar desigualdades e reforçar uma cultura já por demais individualizante e excludente.

PS: é válido lembrar que há equipamentos psicológicos gratuitos, como clínicas vinculadas a universidades e faculdades, bem como serviços como o Centro de Valorização da Vida (CVV – cvv.org.br/), que também é gratuito e atua no apoio emocional e prevenção ao suicídio.

*Marcos Robério Santo

Jornalista.

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