Com o título “EITAMAH! A “Machosfera” Cearense”, eis artigo de Plauto de Lima, coronel RR da Polícia Militar do Ceará e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas. “No tabuleiro da vida, como no das palavras, o “macho” cearense não é peça de conflito, mas de afeto, um sinal de pertencimento que nenhuma ideologia deveria pretender regulamentar, assim como ocorre com a frase proferida pelo jogador Neymar: “Hoje tive um dia de Chico”, expõe o articulista.
Confira:
O termo “machosfera” não é um conceito clássico das ciências sociais, mas vem sendo utilizado na literatura contemporânea para designar um ecossistema discursivo, sobretudo digital, no qual se articulam narrativas que reforçam padrões tradicionais de masculinidade, por vezes associados à misoginia, à rejeição de avanços nas pautas de gênero e à reafirmação de hierarquias entre homens e mulheres. Trata-se, portanto, menos de uma categoria rígida e mais de uma categoria analítica em construção, utilizada para interpretar determinados fenômenos socioculturais contemporâneos.
Mas precisamos ter cuidado com o que se define como “literatura contemporânea” e, sobretudo, com quem se arroga o direito de fazer essa definição. Foi assim que ganharam grande influência as ideias de Jean-Paul Sartre e de sua companheira, Simone de Beauvoir. Afinal, já nos alertavam os antigos gregos sobre o peso da chamada “palavra de autoridade”, que muitas vezes se impõe mais pela posição de quem a profere do que pela consistência do que é dito.
A partir dessa reflexão sobre conceitos e narrativas, emerge o debate acerca das transformações sociais relacionadas às pautas de gênero. Entendo que a sabedoria não se encontra nos extremos. O feminismo, enquanto movimento histórico, trouxe contribuições inegáveis para a ampliação de direitos e oportunidades para as mulheres. Contudo, algumas vertentes contemporâneas, frequentemente associadas à chamada quarta onda, têm sido percebidas por parte da sociedade como excessivamente polarizadas, sobretudo quando o debate se desloca do campo da igualdade de direitos para o da disputa ideológica.
Como exemplo desse tensionamento, observam-se situações em que determinados casos envolvendo mulheres ganham ampla repercussão, enquanto outros recebem menor atenção no debate público. Há registros de controvérsias no campo político, profissional e pessoal que suscitam discussões sobre a seletividade na defesa de direitos. Da mesma forma, manifestações culturais, como certas letras de músicas que objetificam a mulher, nem sempre são alvo de críticas com a mesma intensidade por parte de alguns segmentos do movimento.
Assim, mais do que negar a relevância do feminismo, a reflexão proposta busca questionar possíveis desequilíbrios no debate contemporâneo. Quando o diálogo cede lugar à polarização, corre-se o risco de substituir a necessária luta contra a misoginia por sentimentos de antagonismo generalizado, aproximando-se do que se convencionou chamar de misandria, a aversão ou o preconceito direcionado aos homens.
É nesse contexto que retorno ao ponto de partida desta crônica. Recordo-me da primeira visita da namorada do meu filho ao Ceará. Ao ouvir, em diferentes situações cotidianas, expressões como “E aí, macho?”, ela demonstrou surpresa e curiosidade. Expliquei-lhe que, entre nós, o termo está longe de carregar conotações depreciativas; trata-se, antes, de um vocativo afetivo, uma marca de proximidade e pertencimento cultural, quase um ponto e vírgula na conversa. Em tom bem-humorado, observei que essa seria a nossa verdadeira “machosfera”.
Ultimamente, entretanto, o tradicional “macho” vem sendo, em muitos contextos, substituído por um simples “eimah”, como se toda uma tese coubesse em uma interjeição. Não me surpreenderia, porém, se, em algum momento, interpretações descontextualizadas viessem a problematizar também essa expressão tão característica da cultura popular cearense, como se representasse algum tipo de risco institucional.
Como bem nos ensinou o Bruxo do Cosme Velho, em seu clássico Esaú e Jacó:
“Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre, nem a torre de peão. Há ainda a diferença de cor, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal, umas e outras podem ganhar a partida, e assim vai o mundo.”
No tabuleiro da vida, como no das palavras, o “macho” cearense não é peça de conflito, mas de afeto, um sinal de pertencimento que nenhuma ideologia deveria pretender regulamentar, assim como ocorre com a frase proferida pelo jogador Neymar: “Hoje tive um dia de Chico.”
*Plauto de Lima
Coronel RR da Polícia Militar do Ceará e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas.