Com o título “El Niño e a Economia Brasileira: Impactos Diretos e Soluções – Parte III”, eis artigo de Célio Fernando Bezerra Melo, presidente da Academia Cearense de Economia. O evento já está confirmado. O que ainda se pode decidir é quem o atravessará com renda, com água e com vida.
Confira:
Se o passado recente é o melhor mapa disponível do futuro próximo, o biênio 2023-2024 já indicou onde o país tende a sangrar quando os efeitos do ciclo atual se materializarem, entre 2027 e 2028. A ressalva é necessária: cada El Niño tem assinatura espacial própria, que varia conforme a região do Pacífico em que o aquecimento se concentra. O mapa de 2023-2024 orienta, mas não determina.
No Rio Grande do Sul, a vulnerabilidade é estrutural antes de ser climática. Décadas de ocupação de áreas de várzea, drenagem urbana insuficiente e um sistema de diques que não acompanhou a expansão de Porto Alegre produziram um risco que se realiza com ou sem El Niño clássico. A recorrência do padrão é praticamente certa em qualquer ciclo de chuva extrema, porque a fragilidade física já está instalada.
No Centro-Oeste e no Matopiba, a fronteira agrícola mostrou sensibilidade crescente ao veranico prolongado durante a fase reprodutiva da soja. É o epicentro econômico do risco, pela razão já exposta nos artigos anteriores: dali a quebra se propaga em cadeia para exportação, câmbio e formação de preços domésticos.
No Nordeste, a exposição segue dupla, no semiárido e na faixa costeira. O Ceará resume essa dualidade e, por já ter avançado em governança hídrica e monitoramento, pode servir de referência para todo o polígono das secas.
Diante desse mapa, o Adapta Brasil, plataforma que cruza dados climáticos municipais com indicadores de vulnerabilidade socioeconômica, ganha função estratégica. Ele não aponta apenas onde vai chover menos, mas onde a combinação de seca, baixa renda, dependência de agricultura familiar e fragilidade de infraestrutura básica cria o maior risco humano. É esse cruzamento, e não o dado climático isolado, que deveria orientar a alocação de recurso escasso, distinção que separa política pública eficiente de gasto disperso.
Três grupos concentram o maior risco. Agricultores familiares de sequeiro dependem de chuva regular e têm baixa capacidade de amortecer perdas, com acesso difícil a crédito e a seguro.
Pescadores artesanais costeiros enfrentam atividade pouco formalizada e rede de proteção previdenciária frágil. A população urbana periférica vive em áreas sujeitas a enchentes, deslizamentos ou colapso de abastecimento, com menor capacidade de resposta emergencial e maior dependência de serviços públicos que já operam no limite.
Convém dizer com clareza o que existe e o que falta. O país já dispõe de Garantia-Safra para a agricultura familiar de sequeiro, de Seguro Defeso para pescadores artesanais e do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. O problema não é ausência de instrumento, é cobertura insuficiente, gatilho lento e acesso burocrático. A agenda, portanto, é menos de criação e mais de ampliação, simplificação e automação.
A prioridade imediata começa pelo que custa pouco e rende muito. Um cadastro único de vulnerabilidade climática, integrando Adapta Brasil, CadÚnico e dados municipais, permitiria identificar famílias em risco antes do evento, e não depois, com investimento baixo e execução possível até 2027 sob coordenação federal e adesão dos municípios. Na mesma faixa de custo está o fortalecimento permanente da Defesa Civil municipal, com capacitação continuada e financiamento regular, que evita a resposta improvisada quando o desastre já começou.
O passo seguinte é de custo intermediário e prazo curto. A ampliação do Garantia-Safra e do seguro rural subsidiado precisa alcançar a agricultura familiar ainda na safra de 2027, corrigindo a concentração atual desses produtos no agronegócio de médio e grande porte. A transferência de renda emergencial deve ser pré-programada, com gatilhos automáticos vinculados a indicadores objetivos de chuva e de perda de safra, eliminando o atraso político-burocrático típico da resposta a desastres. E o Tesouro precisa constituir, já no orçamento de 2027, uma reserva específica para sinistros climáticos anormais, com regras de acionamento automático como as que já prática em outras contingências, porque é justamente no intervalo entre o evento e a resposta que vidas se perdem e patrimônio se destrói de forma evitável.
Restam as frentes de maior custo e horizonte plurianual, que exigem decisão agora para entregar depois. A macrodrenagem urbana deve ser priorizada em capitais e municípios historicamente afetados por enchentes, sob responsabilidade de estados e prefeituras com aporte federal.
E o reassentamento planejado de famílias em áreas de deslizamento ou inundação recorrente, com compensação justa e reintegração em áreas seguras, precisa deixar de ser resposta pós-tragédia para tornar-se política de médio prazo.
As frentes hídricas e energéticas, tratadas no primeiro artigo, seguem sendo o alicerce dessa arquitetura e não precisam ser repetidas aqui. O que precisa ser dito é que os bancos de desenvolvimento já dispõem de linhas climáticas, mas sua efetividade depende de simplificação de acesso para pequenos produtores e municípios, público que hoje enfrenta mais barreira documental do que risco real de inadimplência. Ampliar garantias públicas e reduzir exigência de contrapartida para esse segmento é medida de custo baixo e retorno social alto.
Vale registrar o outro lado da conta. A experiência recente mostra que a resposta emergencial a um desastre custa, em regra, várias vezes o valor da obra ou do programa que o teria evitado, sem contar o que não se recupera: vidas perdidas, safra que não volta, criança fora da escola, família deslocada. Adaptar não é despesa ambiental, é a forma mais barata de gastar.
Nenhuma dessas frentes é surpresa técnica. O que falta não é conhecimento, é execução coordenada dentro do prazo que a própria natureza já impôs. A diferença entre um ciclo que apenas testa o país e um que o fere profundamente está na velocidade com que essas medidas saem do papel.
Esta trilogia buscou, antes de tudo, tornar visíveis as lógicas socioeconômicas do clima: como o fenômeno se transforma em choque de oferta, como o choque se transforma em inflação ou recessão, e como a resposta institucional determina se a fratura cicatriza rápido ou se aprofunda. Da Grande Seca de 1877 ao evento que já se anuncia para 2027, o fio condutor foi sempre o mesmo: o clima expõe fragilidades preexistentes, e a distância entre nações e regiões está na capacidade de se preparar antes, não depois.
Mas há um limite que a boa gestão fiscal e a política pública bem desenhada, sozinhas, não superam. Os eventos extremos estão se tornando mais frequentes e mais intensos porque operam sobre uma linha de base cada vez mais quente. Isso significa que o conhecimento acumulado sobre os El Niños do passado, por mais valioso que seja, pode não bastar para os do futuro. É preciso acelerar o investimento em ciência e tecnologia aplicadas ao enfrentamento das mudanças climáticas, com centros de pesquisa robustos, modelagem climática regional de alta resolução, dessalinização mais barata, sementes mais resistentes à seca e sistemas de previsão capazes de captar sinais cada vez mais rápidos de um fenômeno que já não se comporta como no século passado.
O Ceará, que soube transformar décadas de convivência com a seca em conhecimento técnico e institucional, tem a oportunidade de liderar essa fronteira, unindo Funceme, universidades e centros de pesquisa em uma agenda de inovação sustentada por instrumentos que já existem, como o FNDCT, a Funcap e as linhas do BNDES para pesquisa aplicada. Ciência climática precisa ser tratada como infraestrutura essencial, tão prioritária quanto uma adutora ou um sistema de alerta precoce. Se o clima está mudando de patamar, o conhecimento precisa mudar de velocidade. É essa aceleração, e não a repetição de respostas que já conhecemos, que dirá se o próximo grande El Niño encontrará um país mais preparado ou apenas mais experiente em sofrer.
*Célio Fernando Bezerra Melo
Presidente da Academia Cearense de Economia.
Fontes: IBGE, FGV, Banco Central do Brasil, Ipeadata, NOAA, Organização Meteorológica Mundial, Funceme, Cemaden e plataforma Adapta Brasil.