Com o título “El Niño e a Economia Brasileira: Riscos, Canais de Transmissão e Estratégias de Resiliência”, eis artigo de Célio Fernando Bezerra Melo, presidente da Academia Cearense de Economia. “Quando o clima vira variável macroeconômica, adaptar-se deixa de ser gasto ambiental e passa a ser cálculo de custo evitado”, expõe o articulista.
Confira:
El Niño e La Niña são como dois lados da mesma moeda: o primeiro aquece as águas do Pacífico Equatorial, o segundo as esfria. Juntos, formam um ciclo natural que varia de ano para ano, mas que hoje se soma a algo maior, o aquecimento global. Em setembro de 2026, a Organização Meteorológica Mundial confirmou, com um dos níveis de certeza mais altos já registrados, que o episódio atual deve persistir até fevereiro de 2027 e tem mais de 90% de chance de se tornar um dos mais fortes da história, com 69% de probabilidade de superar os maiores registros desde 1950. O pico é esperado entre novembro e dezembro de 2026, alimentado por um aquecimento subsuperficial do Pacífico que em alguns pontos já superou 8^{\circ}C acima da média.
No Brasil, o INMET, CPTEC/INPE e a ANA já monitoram essa evolução, com destaque para o padrão observado em 2023/24: chuvas fortes no Sul, seca severa no Norte e em parte do Nordeste, sinal mais fraco no Centro-Oeste e Sudeste. No semiárido nordestino, as chuvas variam mais do que em qualquer outro lugar do país, e ali o Dipolo do Atlântico, fenômeno distinto do Pacífico, muitas vezes pesa tanto quanto o próprio El Niño.
No Ceará, a Funceme já projeta dois momentos críticos. No segundo semestre de 2026, o destaque é o calor extremo e a baixa umidade, com temperaturas até 2^{\circ}C acima do normal e risco elevado de queimadas na Caatinga, especialmente no Sertão, Inhamuns e Jaguaribana. Depois, a maior atenção recai sobre a quadra chuvosa de 2027: entre 60% e 90% de chance de o fenômeno comprometer as chuvas de fevereiro a maio, justamente quando a Zona de Convergência Intertropical deveria atuar com mais força.
Os canais de transmissão econômica seguem a mesma lógica de sempre, mas em escala potencialmente maior.
No Centro-Oeste e no Matopiba, calor e seca prejudicam a soja. No Nordeste, a estiagem atinge fruticultura irrigada, pecuária e agricultura familiar, e o mar mais quente pressiona a pesca artesanal.
Como o mercado é nacional, prejuízo local vira inflação para todo mundo, e quando o Sistema Interligado Nacional entra sob estresse, as térmicas entram em ação e a conta de luz sobe.
O ponto que merece destaque é que o Ceará não está começando do zero. Os 144 açudes monitorados estão hoje com cerca de 50% da capacidade, resultado direto de anos de investimento em gestão hídrica, e esse colchão de segurança é o que permite ao estado agir com antecedência, e não sob emergência. A Cagece já antecipou campanhas de consumo consciente, produtores estão sendo orientados com antecedência sobre o plantio, e a Prefeitura de Fortaleza criou o COE El Niño para estruturar respostas de saúde antes que o calor extremo se intensifique. Esse é exatamente o tipo de institucionalidade que transforma um alerta climático em vantagem de planejamento.
O risco financeiro por trás disso tudo também aponta para uma oportunidade. Crédito rural, seguros e regulação prudencial do Banco Central formam uma cadeia que, bem estruturada, protege produtores e financia a adaptação. O seguro paramétrico, que paga assim que um indicador climático é atingido, sem depender de perícia demorada, é um instrumento que o Ceará pode ampliar exatamente agora, aproveitando a atenção internacional voltada a este El Niño histórico para atrair capital e parcerias técnicas.
As quatro frentes que sustentam a resiliência cearense seguem firmes e ganham ainda mais relevância neste momento: segurança hídrica, com dessalinização, adutoras, reuso de água e recarga de aquíferos; parcerias de saneamento, como a da Cagece com a Ambiental Ceará, sob regulação da ARCE; transição energética, ampliando transmissão e armazenamento para reduzir desperdício de energia limpa; e tecnologia de monitoramento ambiental, especialmente na Caatinga. O financiamento conta com BNDES, FNE, do Banco do Nordeste, e FDNE, vinculado à Sudene, instrumentos que o Ceará já sabe operar com maturidade.
No fim das contas, investir em água, energia e alimento sai muito mais barato do que pagar a conta do socorro emergencial, repetidas vezes. Diante de um El Niño anunciado como potencialmente o mais forte da história, o Ceará tem a chance de mostrar que resiliência não é apenas resposta a crise, é também estratégia de desenvolvimento.
Quem já investiu em preparação colhe agora a vantagem de decidir com tempo, não sob pressão.
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