“Com tamanha tecnologia à disposição, enterramos o fax, o telex e agora, o amigo orelhão”, aponta o jornalista Paulo Rogério
Confira:
Nunca fui muito amigo de falar ao telefone. Embora seja mais prático no dia a dia, até mesmo para dizer algumas verdades para outras pessoas, ainda aprecio o olho no olho, o contato pessoal. Dá para sentir o que a pessoa está pensando antes mesmo dela abrir a boca. Coisa que o telefone não permite.
Mas como nem tudo é do jeito que a gente quer, comunicar-se é preciso. E hoje todos têm celular, até o pessoal que pede uma ajudinha no sinal. Acabou a desculpa de não ter trocado.
– Faz o pix, doutor. Diz o flanelinha, enquanto o sinal não abre, já mostrando o QrCode impresso no crachá pendurado no pescoço.
Com tamanha tecnologia à disposição, enterramos o fax, o telex e agora, o amigo orelhão, fiel companheiro de muitas aventuras de várias gerações. É verdade que os mais novos desconhecem o que era o cartão telefônico e muito menos as fichas. Talvez só pelo YouTube da vida.
Os cinquentões devem recordar ainda da época de antes dos orelhões. Um tempo que possuir telefone fixo era luxo para poucos. Falar com outras cidades era uma lição de paciência. Tinha que ir a um posto ou uma Kombi, e agendar a ligação para uma, duas horas depois. E pagava-se caro.
Vieram depois os telefones públicos, na base da ficha, instalados em bares, farmácias, bancas de jornal o que facilitou a comunicação. Mas quando inventaram o orelhão, tudo melhorou. E o melhor: ainda era possível ligar a cobrar. Lembram da famosa música do tarã, tarãrã, taraãrã?
Todos dessa época têm uma história para contar vivida nestes amigos orelhudos. Um jornalista amigo meu, na realidade compadre, costumava sempre ligar do orelhão para dar o noticiário esportivo em uma rádio local. Certa vez, lá pelas 23 horas, estávamos reunidos em um bar perto do Frotão, e ele deu o aviso.
– Silêncio pessoal, vou ligar para o estúdio. Está na hora.
Paramos a conversa. Ele levantou, tirou o fone do gancho do orelhão ao lado e, para surpresa de todos, foi para debaixo da mesa. De lá passou as últimas, ao vivo, como se estivesse na cidade de Altos, no Piauí, onde o time noticiado estava concentrado. A tática da mesa era para dar mais realidade.
O fim dos orelhões, na verdade, obriga todos a terem um celular. Termina agora a obrigatoriedade dos governos oferecerem uma comunicação pública. A ironia é que temos agl
Jtanta tecnologia, mas se você sair se casa sem celular e precisar falar com alguém em uma emergência, não tem como ligar. Não há mais um telefone público disponível.
Vai precisar pedir o celular de alguém emprestado. Se tiver crédito e sinal.
Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com