“Fortaleza chega aos seus 300 anos de fundação e já passou da hora de rever o nome de algumas ruas e prédios públicos que ganharam o nome de personagens que mereciam o esquecimento”, aponta o jornalista Paulo Rogério
Confira:
Moro em uma rua que homenageia dois poetas brasileiros. Um, Soares Bulcão, cearense de Uruburetama, membro da Academia Cearense de Letras, mais famoso por ser pai da atriz Florinda Bulcão do que por suas obras. O outro, Vinícius de Moraes, o poetinha, inspirador de todo aquele que já se apaixonou um dia na vida.
Quem já não tentou decorar o Soneto da Fidelidade: “ De tudo, ao meu amor serei atento. Antes, e com tal zelo, e sempre…” e por aí vai. A minha rua começa com o cearense e na esquina, bem aqui em frente, recebe o batismo do carioca. Uma confusão danada para os entregadores e motoristas de aplicativo.
Mas nem todos têm esse privilégio de ter como endereço dois colegas de profissão. Sim, ambos também eram jornalistas. Tem gente que mora em ruas cujos nomes se referem a pessoas que nunca nem ouviram falar. Alguns nem sabem como se escreve: Chastinet, Herbster, Ratisbona.
Fortaleza chega aos seus 300 anos de fundação e já passou da hora de rever o nome de algumas ruas e prédios públicos que ganharam o nome de personagens que mereciam o esquecimento. Eu teria vergonha de ter, por exemplo, estudado no Colégio Presidente Médici, no Álvaro Weyne, e morar na avenida Castelo Branco, a popular Leste-Oeste.
Mudaria na hora. Não pela escola ou pelo bairro, mas por ter no currículo dois dos principais integrantes do período negro de ditadura dos militares – 1964 a 1985. Fortaleza tem ainda a avenida presidente Costa e Silva, no José Walter. Logo ele, que decretou o AI-5, cassou direitos civis, passou por cima dos direitos humanos, mandou torturar e assassinar adversários. Melhor mesmo ficar com a versão popular de avenida Perimetral;
Um projeto realizado anos atrás, chamado “Conexões Cartográficas de Memória” mapeou 35 locais na capital cearense só com nomes de colaboradores da ditadura. Locais e nacionais. O trabalho foi feito em 2015 e algumas coisas já mudaram. É o caso do auditório da reitoria da UFC, hoje Professor Martins Filho. Mas ainda há em Fortaleza, escolas, fórum, a Praça Argentina Castelo Branco, algumas ruas e travessas da periferia que estampam em letras grandes na fachada o nome do general cearense ditador.
Na verdade, mudar nomes não é só uma questão de placas ou vaidades. Manter esse legado da ditadura é deixar ainda viva uma ideologia que defendeu a censura, repressão e a impunidade. Ações extremistas que, por pouco, não retornaram na recente tentativa de golpe. Por isso, nesses 300 anos é uma boa oportunidade de Fortaleza rever sua história.
Tem mais. A legislação proíbe que os senhores vereadores tenham a brilhante ideia de dar o nome de ruas e logradouros a agentes que tenham violado os direitos humanos, cometido tortura, estupro, assassinato. Ora, precisa mais.
E não é só. Todo mundo sabe que pessoas vivas não podem virar nome de rua. Nem de qualquer prédio público. Pois Fortaleza chega ao seu tricentenário com um pedaço de chão de quatro quarteirões, na Lagoa Redonda, denominada rua Moroni Bing Torgan. Ele mesmo, o gaúcho ex-vice-prefeito da Capital e que está vivinho da Silva. Respirando e aparecendo por aqui de 4 em 4 anos atrás de votos. E ainda consegue ser eleito.
Fortaleza tem tantos personagens melhores para deixar como lembrança eterna em suas ruas. Ao invés de generais, coronéis, monsenhores, que tal uma avenida, a avenida Bode Ioiô ou então a rua Burra Preta, ou a alameda Botando Boneco e até mesmo, para o futuro empreendimento da prefeitura na avenida Aguanambi: túnel Aídentu.
É a cara da molecagem fortalezense.
Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com