Com o título “Entre a cruz e o pão: a fé que floresce”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social que está de volta ao Blogdoeliomar, após finalizar alguns projetos profissionais.
Confira:
Muitas famílias católicas carregam símbolos, gestos e certezas que atravessam gerações. Nelas, a fé se veste de sacrifícios físicos, como se a conexão com Deus só pudesse ser através da dor. E é na Quaresma, sobretudo na Semana Santa, que esse fervor se manifesta mais fortemente, com uma mistura de devoção e culpa.
Confesso que nunca me convenci desse descompasso de sentimento e vivência. Desde cedo, recusei o jejum voluntário do alimento físico, não apenas na Sexta-Feira Santa, mas em qualquer tempo.
Na infância, havia algo de profundamente humano, quase sagrado, nos bolos de milho e de chocolate que chegavam à minha casa, trazidos pelas amigas e primas de minha mãe.
No pão de ló macio e nas broas feitas pelas minhas tias, ou na ova de curimatã cozida no leite de coco pela minha avó, cujo cheiro, ainda hoje, parece habitar as paredes antigas do casarão. Eram verdadeiros banquetes que invadiam à sala de jantar durante toda a semana da Paixão de Cristo.
E entre idas e vindas à cozinha, eu buscava uma outra forma de comunhão. Mesmo sem compreender, eu encontrava uma crença que alimenta, não que priva. Um Cristo que acolhe, não o que julga ou pune.
Enquanto isso, eu via as penitências que minha mãe se impunha em reconhecimento ao calvário de Jesus, as recusas a um doce oferecido por uma comadre, o café forte passadona hora, um prato farto de pirão com peixe fresco vindo das águas do Jaguaribe. Eracomo se, para honrar o sagrado, fosse preciso negar o afeto e o prazer da comida.
Hoje, aos 88 anos, ela já não jejua, pois a saúde não permite. Contudo, permanece firme na renúncia ao orgulho, no exercício do perdão, na escolha diária pela compaixão. Há, nela, uma fé que amadureceu, mais profunda, serena e que a sustenta. Há alguns dias, me peguei refletindo sobre a Semana Santa e percebi que não precisamos da abstinência ou de culpa e que estamos carentes de mais solidariedade e respeito ao outro, suas crenças, valores.
Em tempos tão duros, atravessados por crises que alcançam a humanidade, pelo endurecimento dos discursos, pela escalada de medos e intolerâncias, gosto de imaginar que o verdadeiro sentido da cruz não reside no sofrimento em si, mas no movimento persistente em direção ao bem. E que a ressurreição é a teimosia luminosa do coração em reaprender a amar, mesmo quando o mundo parece insistir em esquecer como viver o amor.
*Suzete Nocrato
Jornalista em Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará.