“Entre o Brinde e o Medo” – Por Plauto de Lima

Plauto de Lima é coronel RR da PMCE e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas.

Com o título “Entre o Brinde e o Medo”, eis artigo de Plauto de Lima, coronel RR da PM do Ceará e mestre em Planejamento de Políticas Públicas. “O ano se despede, mas a sensação de insegurança permanece. Até mesmo momentos de alegria passaram a carregar preocupação. Resta torcer para que não aceitemos essa normalidade distorcida, como já aceitamos tantos outros extremos da violência”, expõe o articulista

Confira:

O último mês do ano é pródigo em confraternizações. Amigos se encontram em bares, restaurantes e até em residências para celebrar o encerramento de mais um ciclo. Esses encontros quase sempre avançam além do horário combinado. Quando chegam as despedidas (primeiro animadas, depois apressadas) repete-se uma frase que virou quase um protocolo silencioso: cuidado… e quando chegar em casa, avisa no grupo.

Foi este detalhe que mais me chamou a atenção nas confraternizações de que participei. Já não se presume a chegada segura; ela precisa ser confirmada. O pedido não é apenas um gesto de carinho, mas o reflexo de uma desconfiança cotidiana, típica de um cenário urbano marcado pela violência. Outros sinais dessa inquietação cotidiana do cearense, provocada pelo medo da violência, estão por toda parte.

Mulheres escondem celulares na lingerie; nos veículos, um telefone “reserva” fica sempre à mão para ser entregue ao bandido; motoristas de aplicativo evitam circular em determinadas áreas da cidade; motociclistas são obrigados a retirar o capacete ao entrar em territórios dominados por criminosos; policiais escondem a carteira de identidade quando estão fora de serviço; estudantes evitam se matricular em escolas localizadas em áreas sob o comando de facções rivais às de seus bairros; meninas deixam de pintar os cabelos de vermelho para não serem agredidas por faccionados inimigos da organização que carrega essa cor no nome; festas noturnas encurtaram seus horários, enquanto eventos matinais passaram a ser preferidos.

São comportamentos típicos de uma sociedade amedrontada. Vivemos, assim, um paradoxo inquietante. Enquanto o governo comemora a queda de determinados índices de criminalidade, o comportamento das pessoas revela outra realidade: a de cidades onde sair para celebrar exige cautela e voltar para casa gera apreensão.

O ano se despede, mas a sensação de insegurança permanece. Até mesmo momentos de alegria passaram a carregar preocupação. Resta torcer para que não aceitemos essa normalidade distorcida, como já aceitamos tantos outros extremos da violência.

*Plauto de Lima

Coronel RR da PMCE e mestre em Planejamento de Políticas Públicas.

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Respostas de 2

  1. Excelente reflexão! Trata-se, infelizmente, de um retrato fiel da nossa sociedade. O escritor Plauto de Lima demonstra grande sensibilidade ao abordar, com profundidade e lucidez, as questões enfrentadas pelo Brasil.

  2. “Entre o brinde e o medo”, um título adequado e inteligente da realidade exaustiva desse permanente estado de alerta que vivemos, em decorrência da insegurança pública e inércia governamental.
    Parabéns ao autor. Leitura necessária e pedagógica.

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