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“Entre o Evangelho e o humanismo de Teilhard de Chardin” – Por Barros Alves

Barros Alves é jornalista e poeta

“O homem não é Deus. A humanidade não é a própria salvação, a história não é capaz de redimir-se por suas próprias forças. É nesse ponto que a fé cristã introduz uma diferença absolutamente decisiva”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves

Confira:

Costumo ler os documentos pontifícios com respeito, piedadade e, sobretudo, com atenção. Sem desvestir-me do espírito crítico, mesmo estando quilômetros abaixo da respeitanilidade intelectual dos escritores sacros. Documentos são publicados que, por sua importância e pelas ideias que mobilizam, exigem uma atitude serena de discernimento rigoroso. É com essa disposição que, a meu juízo, deve ser analisada a Encíclica “Magnifica Humanitas”, de Leão XIV.

Publicada em 15 de maio de 2026, a Encíclica trata da salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial e procura responder a uma das grandes indagações do nosso tempo, que pode ser assim posta: o que significa permanecer humano quando a técnica começa a imitar, ampliar e, eventualmente, pretender substituir capacidades que julgávamos exclusivamente humanas?

A pergunta é legítima e requer resposta urgente. Respondê-la constitui atitude profundamente cristã. O problema começa quando, ao tentar respondê-la, certas categorias do pensamento contemporâneo parecem aproximar-se de uma concepção de humanidade que encontra notáveis ressonâncias no pensamento de Pierre Teilhard de Chardin, eminente teólogo que influenciou gerações no século XX, e continua influenciando.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, paleontólogo e pensador de privilegiada inteligência, empenhado em estabelecer uma ponte entre a visão evolucionista do universo e a fé cristã. Sua concepção enxergava a história cósmica como um processo ascendente de complexificação, consciência e convergência, orientado para aquilo que denominou “Ponto Ômega”, associado por ele a Cristo. Não se pode negar a grandeza intelectual desse empreendimento. Tampouco seria justo transformar Teilhard em um simples adversário da fé. Mas também não se pode esquecer que sua obra teológica e filosófica encontrou sérias reservas por parte do Magistério da nossa Igreja Católica. Em 30 de junho de 1962, o então Santo Ofício publicou um “Monitum” advertindo que determinadas obras de Teilhard continham, no campo filosófico e teológico, ambiguidades e erros considerados graves e ofensivos à doutrina católica. O documento, significativamente, distinguia a apreciação da pessoa e de seus méritos científicos do juízo sobre seu método e pensamento filosófico-teológico.

Essa advertência não pode ser simplesmente apagada da história.

É justamente por isso que “Magnifica Humanitas” merece uma leitura particularmente atenta. Leão XIV emprega uma linguagem fortemente centrada na dignidade humana, na construção histórica, no desenvolvimento humano integral, na transformação da sociedade e na necessidade de orientar o progresso técnico para uma humanidade mais plena. A Encíclica fala de uma humanidade que deve construir, transformar e amadurecer a história, sempre procurando impedir que a técnica se converta em instrumento de dominação. Há aí uma evidente proximidade temática com a grande intuição de Teilhard: a história humana não é concebida como algo estático, mas como uma realidade em movimento, em processo de desenvolvimento e de crescente integração. Mas é precisamente aqui que precisamos perguntar: qual é o motor desse desenvolvimento? E qual é o seu termo final? Para o cristianismo, a resposta não pode ser simplesmente “o homem”. O homem não é Deus. A humanidade não é a própria salvação, a história não é capaz de redimir-se por suas próprias forças. É nesse ponto que a fé cristã introduz uma diferença absolutamente decisiva em relação a qualquer humanismo autossuficiente. O homem encontra sua plenitude não na própria humanidade, mas em Deus. A Encíclica, felizmente, afirma isso com clareza em vários momentos. Logo no início, Leão XIV recorda que o homem somente encontra sua verdadeira compreensão no mistério do Verbo encarnado. Mais adiante, ao falar do verdadeiro “mais que humano”, rejeita expressamente a ideia de uma transcendência produzida pela técnica e afirma que a verdadeira transformação do homem é obra da graça de Deus recebida em Cristo. Essa é uma distinção fundamental.

Toda obra humana deve ser edificada tendo Deus como referência. Essa é, indiscutivelmente, a questão fundamental que deveria orientar a leitura da Encíclica. A imagem utilizada pelo próprio Papa é, sem duvida, por demais apropriada e ao cristão impõe uma escolha entre Babel e Jerusalém. De um lado, a torre construída pelo homem que pretende alcançar o céu por suas próprias forças; de outro, a Jerusalém reconstruída sob a ação de Neemias, em uma obra acompanhada pela oração e orientada para Deus. A Encíclica afirma expressamente que construir o bem exige “edificar sobre a rocha da relação com Deus”. Aqui está a grande diferença entre um verdadeiro humanismo cristão e qualquer humanismo meramente antropocêntrico. O cristianismo não despreza o homem. Pelo contrário, somente o cristianismo consegue atribuir ao homem uma dignidade verdadeiramente incomensurável sem transformar o homem em Deus.

O homem é grande porque foi criado por Deus, é digno porque traz em si a imagem do Criador. O homem é chamado à transcendência porque Deus o chama para participar de Sua própria vida. Não somos grandes apesar de Deus; somos grandes por causa de Deus. Essa distinção não é meramente acadêmica, mas determina toda a arquitetura moral da civilização.

É justamente nesse terreno que a aproximação com Teilhard precisa ser feita com prudência. Encontramos no pensamento teilhardiano uma poderosa visão dinâmica do universo e da humanidade. A criação aparece inserida em um movimento evolutivo que conduz a níveis crescentes de complexidade e consciência. A história adquire uma dimensão ascendente e cósmica.

A Igreja pode dialogar com a ciência e com a filosofia e, por óbvio, dialogar com o mundo moderno. Mas não pode subordinar a Revelação a nenhuma filosofia da história. Evolução biológica é uma questão científica, mas desenvolvimento histórico é uma questão humana e Redenção é uma realidade sobrenatural. Misturar essas três ordens pode produzir uma visão sedutora, mas teologicamente perigosa. O próprio Magistério demonstrou, em diferentes momentos, que não há incompatibilidade necessária entre ciência e fé. O problema aparece quando uma determinada interpretação filosófica da ciência começa a ocupar o lugar reservado à Revelação. O próprio debate católico posterior reconheceu a contribuição de Teilhard para o diálogo entre ciência e fé, embora suas construções filosófico-teológicas permanecessem objeto de cautela. Por isso, não devemos transformar Teilhard em um autor proibido de ser estudado. Devemos transformá-lo em um autor que exige discernimento.

Esse é o ponto que me parece essencial na leitura de “Magnifica Humanitas”. Quando o Papa afirma que a técnica deve estar a serviço da pessoa, que o progresso precisa respeitar os pobres e os vulneráveis e que a inteligência artificial não pode reduzir o homem a dados, desempenho ou matéria aperfeiçoável, ele está defendendo algo genuinamente cristão. Quando ele afirma que o verdadeiro “mais que humano” não é produzido pela tecnologia, mas pela graça, está ainda mais próximo do coração do Evangelho. O perigo aparece quando a linguagem do desenvolvimento humano, da construção histórica e da fraternidade universal pode ser compreendida como se o próprio homem fosse capaz de produzir, progressivamente, sua redenção.

Não é o homem que constrói o Reino de Deus; ele trabalha pelo Reino de justiça e testemunha por ele. Deve diligentemente preparar, na medida de suas possibilidades, os caminhos de justiça, caridade e paz. Sem jamais perder a vonsciencia de que o Reino é dom de Deus.

Eis o que faz a diferença, em determinados momentos, entre a doutrina católica e o pensamento de Teilhard de Chardin.

São Paulo não diz que o homem salvará a criação pela própria evolução histórica. Diz que “a criação inteira geme e sofre como em dores de parto” aguardando a redenção. A esperança cristã não termina no progresso da civilização, mas na consumação em Cristo. Ler tudo, mas conservar o que é verdadeiro. Essa é, portanto, uma regra antiga e segura para o leitor católico. São Paulo ensina: “Examinai tudo; ficai com o que é bom” (1Ts 5,21). Regra que continua extraordinariamente atual. Destarte, não precisamos temer as ideias de Teilhard de Chardin; também não precisamos aceitar tudo o que ele escreveu. É sempre aconselhável conhecer ideias divergentes, principalmente se o são da Igreja, para que possamos nos defender da sutilidade de Satanás. Nada demais ao reconhecermos a tentativa de Chardin de dialogar com a ciência, sua preocupação com o destino do homem e sua percepção da dimensão cósmica da criação. Mas, devemos rejeitar qualquer formulação que dissolva a diferença entre natureza e graça, entre evolução e salvação, entre progresso humano e Redenção. Da mesma maneira, podemos receber da “Magnifica Humanitas” aquilo que é luminosamente evangélico, tais como a defesa da dignidade humana, a crítica à idolatria tecnológica, a proteção dos frágeis, a primazia da pessoa sobre a máquina e, sobretudo, a afirmação de que o verdadeiro “mais que humano” nasce da graça de Deus em Cristo. Mas devemos permanecer vigilantes diante de toda formulação que possa sugerir que a história humana, por si mesma, seja capaz de produzir sua própria plenitude. No fundo, a questão é muito simples. Quem é o centro: o homem ou Cristo? Se o centro é o homem, temos um humanismo puro e simples; se o centro é Cristo, temos um humanismo cristão. A diferença parece pequena; na verdade, é abissal. O primeiro pode terminar na idolatria do homem; o segundo começa reconhecendo que o homem é criatura, imagem de Deus e destinatário do amor divino. Por isso, a melhor maneira de ler “Magnifica Humanitas” não é com espírito de contestação sistemática, muito menos com submissão intelectual acrítica. É preciso lê-la com respeito ao Sucessor de Pedro, mas também com a inteligência formada pela Escritura, pela Tradição e pelo Magistério da Igreja. O Papa acerta quando se arrima no Evangelho, acerta quando proclama que Deus deve estar no fundamento da construção humana, quando recorda que a técnica não pode substituir a dignidade da pessoa. Está correto, sobretudo, quando ensina que o verdadeiro “mais que humano” não é o homem que se diviniza pela tecnologia, mas o homem que é elevado pela graça. Mas, justamente por isso devemos recordar que a Igreja não tem necessidade de recorrer a Teilhard para encontrar o caminho da esperança cristã, posto que ela já possui esse caminho.

O nome desse caminho é Jesus Cristo (Jo. 14.6).

Nele, e não na evolução indefinida da humanidade; na graça, e não na autossuficiência do homem; na Revelação, e não em qualquer filosofia histórica, encontra-se a verdadeira resposta para o drama humano. E se o humanismo for ateu, para lembrar a advertência de Henri de Lubac, a humanidade mais se perde e não conseguirá encontrar “o Caminho”.

A humanidade pode construir cidades, máquinas, impérios e inteligências artificiais; conquistar o espaço; decifrar o genoma; produzir máquinas capazes de aprender, mas continuará diante da pergunta que nenhuma tecnologia poderá responder:

Para que existe o homem? A resposta cristã continua sendo a mesma, antiga e sempre nova: o homem existe porque foi querido por Deus e somente encontra sua plenitude quando retorna a Deus. Eis o motivo pelo qual devemos ler “Magnifica Humanitas” com atenção, respeito e espírito crítico. Examinar tudo, reter o que é bom.

E, acima de tudo, não perder Cristo de vista.

Barros Alves é jornalista e poeta

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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