“Entre um gole e uma história: a cafeteria que serve café e espalha livros, em Fortaleza” – Mirelle Costa

Se Fortaleza já é conhecida pelo sol, pelo mar e pela boa mesa, agora também ganha um novo capítulo — daqueles que se lê com calma, entre um gole e outro de café. No coração da Varjota, bairro onde nasci e me criei, nasce a Giardini Café: uma experiência que vai além do paladar e convida o público a redescobrir o prazer da leitura de um jeito surpreendente.

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Logo na chegada, o visitante percebe que não se trata de uma cafeteria comum. O casarão antigo abriga múltiplos ambientes, cada um com sua própria atmosfera. Tem lugar pra sentar, pra trabalhar e até pra deitar. Há um jardim ao ar livre que acolhe quem busca leveza, espaços internos com decoração inspirada na Indonésia e uma charmosa sala de leitura para quem deseja silêncio e mergulho nas páginas. Tudo parece pensado para desacelerar — e, sobretudo, para sentir.

Mas o grande diferencial está na proposta: aqui, livros podem ser trocados por café. Sim, você leu certo. A ideia, que parece saída de um roteiro poético, é real — e já vem conquistando os frequentadores. Mais do que uma estratégia criativa, é um convite direto à circulação de histórias, ao compartilhamento de saberes e à valorização da leitura como experiência viva.

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À frente do projeto está Marcelo Ferreira Peixoto, idealizador que decidiu remar contra uma ideia ainda bastante repetida: a de que o brasileiro não lê. Para ele, essa percepção não acompanha as transformações dos últimos anos. Com o avanço da tecnologia e a ampliação do acesso à informação, o livro deixou de ser um objeto distante para se tornar mais presente na vida das pessoas — seja no formato físico ou digital.

“O grande problema da formação do público leitor no Brasil ainda é o acesso. Acredito que o interesse pela leitura nunca deixou de existir, basta observar feiras literárias cheias, livrarias movimentadas e eventos culturais cada vez mais disputados. O que faltava, talvez, era reinventar a forma de aproximar o público desse universo. E é exatamente aí que a Giardini encontra seu propósito”, conta o proprietário.

Professor por cerca de uma década nas áreas de finanças, economia e marketing, ele descobriu nos livros uma paixão que ultrapassa o conhecimento técnico. Foi essa relação que o inspirou a criar um espaço onde o livro não fosse apenas decoração, mas protagonista. Um lugar onde ler não seja uma obrigação silenciosa, mas uma experiência compartilhada, leve e prazerosa.

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A ideia ganhou força após uma viagem à Ásia, onde Marcelo conheceu cafeterias que já trabalhavam com o conceito de troca de livros por café. De volta a Fortaleza, decidiu adaptar o modelo à realidade local, respeitando as particularidades do público, mas mantendo a essência: democratizar o acesso à leitura.

Na prática, a dinâmica é simples e acolhedora. O cliente pode levar um livro, doar, trocar ou até mesmo pegar emprestado para ler em casa. Não há rigidez — apenas o incentivo. Para quem prefere, também há títulos novos à venda, adquiridos diretamente de editoras, ampliando o acervo e as possibilidades.

“A biblioteca é um ambiente bom e necessário, mas solitário, de algum modo. A cafeteria vem pra dar mais essa opção. Aqui até rede tem, além de três salas de leituras. Já recebemos muito clubes de leitura como também lançamentos de livros. Aqui o livro não é um acessório!

Mais do que um espaço bonito — e ele é, de fato, encantador — a Giardini Café surge, há paenas três meses, como um respiro na rotina acelerada da cidade. Um convite ao encontro: com o outro, com as histórias e, principalmente, consigo mesmo.

Em tempos de excesso de informação e pouca pausa, iniciativas como essa lembram que ler ainda é um dos gestos mais revolucionários que existem. E, se vier acompanhado de um bom café, melhor ainda.

Eu acho que é impossível sair daqui de mãos vazias. Eu, por exemplo, trouxe a obra “Após a Morte do Conto de Fadas, a Ressurreição”, organizada por mim. O livro conta a história de onze mulheres vítimas de violência doméstica atendidas na Casa da Mulher Brasileira. Saí de lá bem agarradinha com Guimarães Rosa.

“O acervo tem muita rotatividade e isso é maravilhoso. Hoje, por exemplo, havia quase quinhentas obras prontas para serem degustadas. “O Diário de uma Paixão” será sempre o meu preferido”, conta Marcelo Ferreira Peixoto.

Convidei minha amiga jornalista Maristela Gláucia para conhecer a casa. Provamos duas iguarias, dois trios de brusquetas, o primeiro foi o Confit Rústica, com tomates confitados, manjericão fresco e parmesão e o segundo foi surpreendente: Vigneto Cremoso é com homos de queijo gorgonzola e castanha de caju e manjericão.

“Vale lembrar que aqui você sempre vai encontrar o nosso bom carioquinha, tapioca e cuscuz. Estamos aqui de terça a domingo, de sete da manhã, às oito da noite. Minha equipe é cem por cento de mulheres”, orgulha-se o proprietário.

A cafeteria fica localizada na Rua Tavares Coutinho, 1580, na minha Doce, Amada e Eterna Varjota.

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