“Escrito à mão” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Escrito à mão”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Gosto de escrever à mão – afinal de contas, elas também falam. Quando cutuco o quengo teimoso da inspiração, o lápis, de ponta bem-feita à gilete, risca o papel, e as palavras se emendam em frases, dando corpo às ideias que me chegam ligeiras aos olhos. Na outra ponta, a borracha alva, já abolada, se aboleta feito biloto, mais marcando um tempo que não existe do que apagando qualquer coisa.

Escrevo em cadernos, com folhas pautadas em azul. Em cada página, conto causos e canto poesias. É um espaço silencioso que escuta pelo toque da pele.

Para escrever, a mão se avexa, tentando acompanhar o voo das aves que chegam e armam seus ninhos criativos. E o processo de criação – esse – segue me surpreendendo, prazerosamente, cada vez mais.

Quando passo de um mote a outro – escrito ou desenhado – leio textos e ambientes, ou assisto a um filme. Vi, outro dia, um em que um robô queria ser humano. Em certo momento, um cientista diz que ele poderia alcançar a perfeição, mas jamais a imperfeição de um ser humano.

Fico com o que a arte ensina: muitas vezes, os erros são os nossos acertos. Mas será que toda tentativa de acerto pode ser chamada de erro?

O erro faz parte do nosso processo. É um acerto que não se deu como esperávamos – e, por isso mesmo, nos ensina e nos sacode. Vem do latim errare: vagar, tentar caminhos, buscar rumo. Errar não é só falhar – é também explorar.

Há um erro que constrói: nasce da vontade de aprender, inventar, ir além. Esse é necessário – aumenta a compreensão e afina o gesto. Há outro, porém, que vem do desleixo, da repetição sem atenção – esse pouco ensina e convém evitar.

Enfim, falhar tentando acertar não é desvio: é caminho. E, não raro, é nele que o acerto se revela.

Não sei bem por que, mas me lembro de quando cursava o Básico da Escola de Arquitetura da UFC. O professor de Introdução à Sociologia era o padre Gotardo. Houve uma avaliação – NPC, salvo engano – com questões objetivas e uma redação.

Um colega pediu para espiar minha prova. Consenti. Na aula seguinte, ao devolver os trabalhos, o professor comentou: “Meus estimados alunos, leciono há mais de trinta anos e já vi de tudo em sala de aula – quase tudo. Pela primeira vez, deparei-me com um caso de paranormalidade: duas redações idênticas. À que tinha mais erros de português, dei um generoso zero. A outra recebeu a nota que merecia.”

Pois não é que o sujeito copiou até a minha redação? Pode um negócio desses?

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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