O Prémio Literário José Saramago, instituído pela Fundação Círculo de Leitores com periodicidade bienal e que celebra a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 1998 ao escritor José Saramago, destina-se a promover a divulgação da cultura e do património literário em língua portuguesa através do estímulo à criação literária e à dedicação à escrita por parte de jovens autores da lusofonia.
Para participar, é preciso o envio de uma obra de ficção inédita por autores da lusofonia com até quarenta anos.
Por que a limitação de idade? Foi o que a escritora cearense Ana Márcia Diógenes perguntou nas redes sociais e não obteve resposta. Além dela, outros autores, como Maurício Mendes, também questionaram que “Saramago só começou a fazer sucesso aos sessenta anos, com Memorial do Convento. Lançar um prêmio literário em homenagem a ele com limite de idade de quarenta anos é uma afronta à trajetória do autor”, desabafa o autor de “O Homem não foi feito para ser feliz”.
A justificativa é que o prêmio revela novos olhares e coloca em circulação narrativas que dialogam com o presente. Por e-mail, a editora Record me enviou a seguinte nota: “O Prêmio José Saramago foi criado para apoiar a carreira de novos talentos. A Editora Record tem enorme orgulho de ser parceira da premiação no Brasil. É natural que existam contestações quanto às regras de qualquer tipo de concurso literário, mas há um propósito muito bem estabelecido e consolidado, que é o de estimular a renovação do cenário da Língua Portuguesa”, informou por meio de sua assessoria de imprensa.
O escritor Bruno Paulino, que disse nunca ter ouvido falar em etarismo literário, aponta entender o destaque do prêmio aos jovens autores e diz que
soa até boba e obsoleta a discussão. “Não é fácil publicar, construir um nome, ter espaço no meio literário e publicar uma obra e isso não tem nada a ver com qualidade literária, se pensarmos que Rachel de Queiroz publicou “O Quinze” quando era muito jovem e já tinha bastante maturidade. O mesmo não aconteceu com Cora Coralina e o próprio Saramago. Acredito que limitar a idade tenha mais a ver com incentivo ao jovem do que com preconceito aos escritores que já passaram dos quarenta anos. Eu acho obsoleto falar em etarismo literário, até porque o bom escritor reconhece as lições dos que o antecederam. Adélia Prado está no auge de sua maturidade e de sua produção literária”, aponta Bruno Paulino, autor de “A menina da Chuva”.

Manuela Titoto fez nas redes sociais um apontamento justo e intrigante:
– E se Saramago fosse uma mulher?
E eu a fiz refletir tanto sobre isso que ela mandou um texto que eu divido com vocês agora:
– “É justo um gênio como ele ter florescido aos quarenta, afinal, “é bem sabido que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe”.
Fosse mulher, teria alguns obstáculos à sua frente, como arrumar a cama, lavar a louça, teria feito de seu corpo um veículo para uma nova vida, cuidado das gripes e febres e ajeitado o lanche da escola, além de se encaixar em um trabalho remunerado nesse ínterim, afinal, é preciso certa independência (e uma carreira sem envolver escrita: todos sabem que é raro viver de literatura). Dia desses, eram três da manhã quando me descobri obsoleta. Estava acordada, esperando minha filha adolescente ligar para que eu fosse buscá-la em uma festa de quinze anos, quando me deparei com uma publicação no Instagram sobre o Prêmio Literário José Saramago. Eu, com 41 primaveras nas costas, já não poderia submeter minha obra. Era pra ser pegadinha com o homenageado ou com os escritores mesmo? O mundo será dominado (já não é?) por autores masculinos, que tiveram tempo para se dedicar à sua arte desde cedo? Se Saramago fosse mulher, talvez nunca tivesse tido a chance de começar a escrever. Nunca agarraria um momento para conseguir publicar, atropelada pela vida corrida do segundo sexo. José Saramago, aos 45, recém-renascido como escritor, estaria desqualificado do prêmio que leva seu nome. E a mulher que poderia ser a próxima Saramago — aquela que está, neste exato momento, lavando a faca enquanto uma frase se forma em sua cabeça e se dissolve ao som da torneira — essa mulher jamais terá essa chance”.

Agora, pergunto eu:
– E Saramago, o que diria sobre o “Seu Prêmio”?
Fofoca literária: Perguntaram-me se eu não poderia acelerar a escrita do meu novo livro para estar apta à premiação. Respondi que não! Ninguém escreve pra concorrer a prêmio. Escrever é entrega. É espantar e conviver com os próprios demônios, é abraçar quem já morreu e ainda precisa do meu abraço. É um fazer milagroso e espiritual, uma alquimia. Como Van Gogh, que comia as próprias tintas, quero marinar meus sentimentos até apurar, refogar minhas próprias dores e temperar emoções para, só assim, jogar ao fogo, brando ou alto, tudo o que me habita.
Pode passar, “Saramago”. No auge dos meus quarenta anos e três meses, não é chegado ainda o tempo de degustar a conclusão de mais uma obra.
(Coluna publicada excepcionalmente fora do horário das 14h04min)