“Europa começa a sentir o peso da internet sem regras” – Por Luiz Henrique Campos

“O mito da internet como território naturalmente democrático ruiu diante da realidade. O que se observa hoje é uma terra sem lei, onde mentiras organizadas produzem efeitos reais e devastadores na política, na economia e no tecido social”, aponta o jornalista Luiz Henrique Campos

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As redes sociais deixaram há muito de ser apenas espaços de interação e passaram a funcionar como verdadeiras usinas de desinformação, operando sem freios, sem responsabilidade e, muitas vezes, contra o interesse público. O mito da internet como território naturalmente democrático ruiu diante da realidade. O que se observa hoje é uma terra sem lei, onde mentiras organizadas produzem efeitos reais e devastadores na política, na economia e no tecido social.

Na Europa, esse diagnóstico começa a ser feito com clareza e o que estamos vendo agora é que Governos e parlamentos compreenderam que a autorregulação das plataformas fracassou e que o modelo de negócios das big techs recompensa o conteúdo mais extremado, mais falso e mais sensacionalista. A resposta está vindo na forma de regulação dura, com leis que impõem obrigações e sanções. Não por acaso, essas medidas foram tratadas como defesa da democracia — e não como censura.

No Brasil, o cenário não é diferente, embora o debate seja intoxicado por má-fé ideológica. As decisões do Supremo Tribunal Federal, conduzidas pelo ministro Alexandre de Moraes, surgiram como reação a esta engrenagem profissional de desinformação voltada a sabotar eleições, desacreditar instituições e estimular o caos. Ainda assim, setores que se beneficiam desse ambiente passaram a vender a narrativa de que qualquer limite imposto às redes seria um ataque à liberdade de expressão.

O caso recente das mentiras sobre o Pix é emblemático. Bastou a circulação de boatos fabricados — amplificados por influenciadores e perfis políticos — para gerar pânico, confusão e desconfiança em relação a um sistema de pagamentos que é referência mundial. Não houve fato, não houve base concreta, apenas a velha lógica da mentira repetida à exaustão, produzindo efeitos econômicos e sociais reais. O custo da ausência de regulação é a instabilidade deliberadamente produzida como estratégia política.

Chamar o combate a esse tipo de prática de “censura” é uma distorção consciente. Liberdade de expressão não é salvo-conduto para fraude informacional, terrorismo digital ou sabotagem institucional. Democracias maduras sempre impuseram limites quando a palavra deixa de ser expressão e passa a ser arma. A diferença é que, nas redes, essa arma se multiplica em escala industrial.

A verdade incômoda é que a desinformação virou um negócio lucrativo e uma ferramenta de poder. Manter as redes como um faroeste digital interessa apenas a quem prospera no caos. Europa e Brasil, cada um a seu modo, enfrentam o mesmo dilema histórico. Ou se regulam as plataformas e se protege a esfera pública, ou se aceita que a mentira organizada continue ditando rumos políticos, econômicos e sociais. Regular não é autoritarismo — é um ato de defesa da democracia diante de um inimigo que opera em tempo real e sem escrúpulos.

Luiz Henrique Campos é jornalista

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