Com o título “Fé, contradições e o espelho incômodo do nosso tempo”, eis a coluna “Fora dsa 4 Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Se Deus voltasse a viver entre nós, na forma humana que tantas tradições descrevem, não correria o risco de ser novamente rejeitado, perseguido ou até eliminado? A história sugere que sim — e essa possibilidade deveria nos inquietar profundamente”, expõe o colunista.
Confira:
A chegada da Semana Santa, mais do que marco no calendário cristão, deveria funcionar como convite íntimo à reflexão, dado ao simbolismo que remete ao sacrifício, à redenção e, sobretudo, à capacidade humana de se reconciliar consigo mesmo a partir do olhar sobre o outro. Sem esquecermos a mensagem central, associada à trajetória de Jesus Cristo, referenciando empatia, perdão e transformação interior.
No entanto, ano após ano, o que se percebe é o esvaziamento progressivo desse sentido. A Semana Santa, assim como outras datas cristãs, vem sendo reduzida a mais um feriado prolongado, frequentemente dominado por apelos consumistas. O que deveria ser introspecção torna-se distração; o que deveria ser espiritualidade converte-se em oportunidade de consumo. Não há problema em descansar, viajar ou celebrar. O problema reside na substituição quase completa do significado original por práticas que pouco dialogam com ele.
Essa desconexão não é apenas simbólica; ela se reflete de maneira concreta no mundo em que vivemos. Basta observar o cenário internacional, marcado por guerras persistentes, tensões geopolíticas e discursos cada vez mais polarizados. Em vez de líderes comprometidos com a construção de pontes, vemos a ascensão de figuras que encontram eco justamente na retórica da destruição, da divisão e do medo.
Mais preocupante ainda é a existência de grupos que não apenas aceitam, mas idolatrizam essas lideranças. Em diferentes contextos, surgem seguidores que tratam tais figuras como salvadores, mesmo quando suas ações apontam para o oposto, que é a negação do diálogo, o desprezo pela vida e a naturalização da violência. É como se, em pleno século XXI, ainda estivéssemos presos a ciclos históricos que insistem em se repetir.
Diante disso, a Semana Santa se transforma também em espelho incômodo. Ela nos obriga a perguntar até que ponto aprendemos com as lições que dizemos celebrar. Afinal, se os valores pregados — amor ao próximo, humildade, compaixão — fossem realmente praticados, o mundo seria este que vemos hoje?
Mas talvez a pergunta mais desconcertante seja inevitável. Se Deus voltasse a viver entre nós, na forma humana que tantas tradições descrevem, não correria o risco de ser novamente rejeitado, perseguido ou até eliminado? A história sugere que sim — e essa possibilidade deveria nos inquietar profundamente.
Mais do que rituais ou tradições, a Semana Santa propõe revisão de postura. Não se trata apenas de lembrar acontecimento do passado, mas de questionar o presente e reposicionar atitudes. Em tempo marcado por excessos — de informação, de consumo, de intolerância —, talvez o maior desafio seja resgatar o essencial.
E o essencial, como a própria data insiste em lembrar, não está no que compramos ou exibimos, mas na forma como nos relacionamos. Com o outro, com o mundo e, principalmente, conosco.
*Luiz Henrique Camps
Jornalista etitular da coluna “Fora das 4 Linhas” do Blogdoeliomar.