Com o título “Filho do século: Mussolini, fascismo e sistema político”, eis artigo de Carlos Holanda, jornalista. “O sistema político dá corda ao fascismo sempre que, por ingenuidade ou falsa ingenuidade, acredita que acomodá-lo será uma forma de adestrá-lo. É uma inverdade no Ceará, no Brasil e em qualquer lugar do globo. O fascismo fará capitulações estratégicas, mas nunca sinceras à institucionalidade”, expõe o articulista.
Confira:
A palavra fascismo provém de um termo anterior, “fascis”, no latim. Trata-se da junção de varas amarradas e unidas a um machado. Sozinha, uma vara se quebra facilmente. Tornam-se mais resistentes quando agrupadas. É um símbolo romano de autoridade. No italiano, converte-se em “fascio”. Para o português, “feixe”. O movimento político liderado por Benito Mussolini (1883–1945), o fascismo, não vê valor no galho isolado, somente no feixe. O duce e seus seguidores nomearam-se Fascio di Combattimento (algo como “grupo de combate”) como forma de enaltecer a disciplina, a unidade e a força coletiva. Reivindicavam a legitimidade da violência contra opositores.
A série “Mussolini, o filho do século” está na plataforma Mubi. Vai da gênese do fascismo à marcha sobre Roma, capital da Itália. Até agora, quatro capítulos estão disponíveis no serviço de streaming, prioritariamente voltado a filmes autorais, independentes e clássicos. Por que não foi parar em serviços mais conhecidos, como a americana Netflix? As linhas definidoras do fascismo são traçadas por Mussolini, encarnado pelo ator italiano Luca Marinelli.
Os trejeitos caricatos de Mussolini são indicativos de quem entendia a política fascista como ato de performance. O excesso de gestos, de caras e bocas, facilitava a ridicularização e, ao mesmo tempo, a propaganda de sua imagem. A tensão e a violência lideradas por ele estão sintonizadas com uma câmera dinâmica, em cenas sonorizadas por Tom Rowlands, um dos Chemical Brothers. Imagem e som captando a selvageria da hora.
Benito foi expulso do Partido Socialista Italiano (PSI) por defender a presença da Itália na Primeira Guerra (1914–1918). Era adepto do entendimento nacionalista, estranho aos socialistas, segundo o qual a guerra era oportunidade histórica para a violência criativa, de modo que a destruição das estruturas sociais burguesas e liberais pudesse dar passagem ao novo, o que quer que isso signifique. Na contramão da neutralidade e pacifismo defendidos pela Segunda Internacional Socialista (1889), foi expulso do PSI e do jornal Avanti!, do qual era editor-chefe.
Fundou o Il Popolo d’Italia (O Povo da Itália), a partir do qual difundiu o ideário fascista. Inicialmente, defendeu a participação militar italiana na Primeira Guerra. O nome do jornal entrega uma de suas características: o ultranacionalismo. O apelo ao povo como nação é um traço em comum com o partido Fratelli d’Italia, da primeira-ministra Giorgia Meloni. “Fratelli d’Italia” é a primeira frase do hino nacional italiano.
Depois, Il Popolo d’Italia defendeu a ação direta dos Camisas Pretas contra socialistas e comunistas como meios de higienização da Itália. A série mostra a sede do Avanti! sob ataque do pessoal de Mussolini. Il Popolo, refletindo a escalada de Mussolini, defendeu a existência de um Estado que controlasse todos os aspectos da vida dos italianos. Para isso, promovia o culto à personalidade e atacava a institucionalidade liberal-parlamentar, práticas que marcham lado a lado. O jornal defendia interesses econômicos da burguesia industrial e, no paralelo, se apresentava como representante das massas, compostas por trabalhadores explorados pelos primeiros. As contradições inundam o discurso de Mussolini e do fascismo. Como método, não como acidente.
Em vários momentos, rodeado de gente, o líder sussurra os segredos mais podres ao espectador por meio da técnica teatral chamada quebra da quarta parede, ao estilo House of Cards. O procedimento foi popularizado pelo dramaturgo alemão e marxista fervoroso Bertolt Brecht, ferrenho opositor do nazifascismo. Brecht entendia que colocar seus personagens para falar diretamente com o público era meio de afastá-lo do envolvimento emocional, provocando-lhe o pensamento crítico. O teatro dele era marcadamente político.
Algumas frases na série são emblemáticas. “O fascismo é tudo e o oposto de tudo.” A sentença é reveladora de que o fascismo não é uma doutrina fixa. É desprovido de corpo teórico. Pode se reivindicar aliado do capital aos capitalistas e anticapitalista às massas; conservador e modernizador; adepto da ordem (estático) e revolucionário (movimento). Diz o Mussolini cênico: “Somos a síntese de todas as afirmações e todas as negações.”
A segunda frase se conecta a uma terceira: “Nós, fascistas, não temos ideias pré-concebidas.” Quando nega princípios fixos, nega bases em cima das quais um debate racional de ideias pode ocorrer. Qualquer incoerência já está, de antemão, justificada. A recusa da ultradireita mundial ao debate racional da realidade tem a mesma essência. Discursos anticiência, difamatórios e inverídicos contra adversários políticos são derivações dessa compreensão.
“Somos reacionários no sentido de que pretendemos reagir a toda corrente subversiva da vida nacional. E seremos revolucionários tantas vezes quantas forem necessárias para despertar novas forças de vida”, brada Mussolini aos seus Camisas Pretas, reforçando a ambiguidade moral e política.
Quando finalmente entra no Parlamento, Mussolini mira Giovanni Giolitti, primeiro-ministro cinco vezes, ligado às elites agrárias e industriais. Giolitti, expressão pura do sistema político e do político tradicional. Habituado a cooptar opositores e construir amplas alianças sob a justificativa do pragmatismo. Então, o futuro ditador pensa em voz alta: “Ele pensa que nos domesticou, mas apenas nos legalizou.”
O sistema político dá corda ao fascismo sempre que, por ingenuidade ou falsa ingenuidade, acredita que acomodá-lo será uma forma de adestrá-lo. É uma inverdade no Ceará, no Brasil e em qualquer lugar do globo. O fascismo fará capitulações estratégicas, mas nunca sinceras à institucionalidade.
*Carlos Holanda
Jornalista.
carlosholandajor@gmail.com