“Fora de Posição – Por Plauto de Lima

Plauto de Lima é coronel RR da PMCE e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas.

Com o título “Fora de Posição”, eis artigo de Plauto de Lima, coronel veterano da PMCe e mestre em Planejamento de Políticas Públicas. “A decisão de encerramento da existência de torcidas organizadas, tão ansiada pelas instituições de segurança e até por quem flerta com esse campo de atuação, não partiu delas. Partiu das lideranças das facções”, expõeo articulista.

Confira:

Gosto muito de futebol. Vou ao estádio, assisto aos jogos pela televisão, quando estou no carro escuto programas esportivos e até me aventuro dentro dos gramados. Prefiro jogar no ataque. Minha posição é a de centroavante. Ali é meu território. Já precisei, certa vez, improvisar no gol por falta de quem assumisse a posição. A experiência foi breve e fracassada. Cada qual no seu lugar costuma ser uma boa regra.

Há coisas que funcionam muito bem e são bastante eficazes naquilo a que se propõem. Isso vale para o futebol e também para as instituições de segurança pública.

Os estados têm duas polícias: uma militar e outra civil. À primeira cabe o policiamento ostensivo, visível, fardado, preventivo. À segunda, a investigação. A polícia de gabinete, de inquérito, de prova técnica. Esse modelo veio da França e foi implantado no Brasil desde o Império. Ambas as polícias são importantíssimas e, muitas vezes, se complementam.

Digo “muitas vezes” porque, em alguns estados, a cooperação dá lugar à competição. Onde deveria haver integração, surgem disputas. Onde se espera coordenação, instala-se o ruído institucional.

No Ceará, é justo reconhecer: a integração avançou e os atritos diminuíram. Quando cada instituição compreende seus limites e suas atribuições, o sistema ganha eficiência.

Mas voltemos ao futebol.

Pior do que um jogador atuar em uma posição para a qual não tem habilidade é quando alguém, praticante de um esporte individual, se aventura no futebol, que é um esporte coletivo. Primeiro, tenta resolver tudo sozinho. Depois, como percebe que o futebol exige articulação, começa a adaptar regras do seu esporte à nova modalidade. Em seguida, sente-se autorizado a ditar normas, redefinir papéis e orientar o time inteiro segundo sua própria lógica. O resultado, invariavelmente, é a derrota. Não por falta de esforço, mas por excesso de protagonismo.

No campo da segurança pública, algo semelhante ocorre quando uma instituição que integra a estrutura do Estado, mas não figura no capítulo constitucional dos órgãos de segurança pública, decide assumir funções típicas de polícia. Ainda que movida por boas intenções, sua entrada no jogo altera o equilíbrio já delicado entre atores que ainda disputam espaço, competências e reconhecimento.

O Estado brasileiro não precisa de mais uma nova polícia, mas de polícias novas (modernas, integradas, tecnológicas, cooperativas), nas quais a atividade policial se desenvolva sem sobreposição de funções e sem disputas por protagonismo.

Quando instituições passam a discutir quem conduz formalmente uma investigação, quem lidera determinada operação ou a quem cabe determinada atribuição, o foco se desloca do resultado para o rito. E nesse intervalo, quase imperceptível, abre-se espaço para quem não enfrenta dilemas institucionais.

As facções não disputam competências; disputam territórios. Não debatem atribuições; executam estratégias. O crime organizado, gostemos ou não, compreendeu que organização é poder. Já o Estado, quando fragmentado, torna-se previsível. E previsibilidade é sempre uma vantagem para quem age nas sombras.

Mas não poderia encerrar esse jogo de metáforas de futebol sem falar da torcida. Times que vencem mais costumam ter mais torcedores. Ninguém deseja seguir um derrotado. Isso vale no futebol e na vida. E é justamente nas disputas por protagonismo que surgem novos líderes, novos porta-vozes. O que talvez não se imaginasse era que decisões tão impactantes para a ordem pública pudessem emergir fora da estrutura estatal tradicional.

A decisão de encerramento da existência de torcidas organizadas, tão ansiada pelas instituições de segurança e até por quem flerta com esse campo de atuação, não partiu delas. Partiu das lideranças das facções.

No início do “campeonato”, essa era uma odd improvável. Hoje, tornou-se previsível. Afinal, essa desorganização institucional só gera conflitos e, nesse cenário, o grande beneficiado é o crime que avança e se organiza.

*Plauto de Lima

Coronel veterano da PMCe e mestre em Planejamento de Políticas Públicas.

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