Com o título “Fortaleza 300 anos: a humanidade que sobrevive nas ruas”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. “Nos seus 300 anos, orgulhosa de seus cartões-postais e do título de um dos principais destinos turísticos do país, mantém-se impassível à desigualdade social que atravessa suas ruas. Reverencia os dezenove bilionários que concentram cerca de 24,5% do PIB do Ceará, enquanto ignora os invisíveis que vivem entre a sobrevivência e a desesperança”, expõe a articulista.
Confira:
Quem se dispuser a olhar para além das praias de águas mornas e do pôr do sol que colore a orla vai encontrar uma Fortaleza ferida, gritando por socorro. Basta caminhar pelo Centro ou atravessar os bairros periféricos para perceber um número crescente de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Elas estão nos sinais, nas praças, sob viadutos, nas portas de igrejas e templos, caídos nas calçadas. É um retrato duro da Terra da Luz, pioneira na abolição da escravidão, mas que convive indiferente com homens, mulheres e crianças presos à pobreza e à invisibilidade.
Fortaleza carrega contrastes profundos. Nos seus 300 anos, orgulhosa de seus cartões-postais e do título de um dos principais destinos turísticos do país, mantém-se impassível à desigualdade social que atravessa suas ruas. Reverencia os dezenove bilionários que concentram cerca de 24,5% do PIB do Ceará, enquanto ignora os invisíveis que vivem entre a sobrevivência e a desesperança. Muitos acabam sendo engolidos pelo abandono, pelo ressentimento e pela violência.
Ao mesmo tempo, muita gente decidiu não ficar parada.
Em diferentes comunidades, multiplicam-se ações voluntárias movidas simplesmente pelo sentimento de humanidade. Independentemente da religião que professam ou ideologia que seguem, unem-se em cozinhas solidárias para preparar marmitas e sopas distribuídas a qualquer hora do dia ou da noite.
Outros confeccionam enxovais para bebês, organizam campanhas de roupas, arrecadam produtos de higiene, oferecem atendimento psicológico gratuito ou dedicam algumas horas da semana para ouvir quem já quase não encontra espaço para falar.
Há também quem apoie de forma mais simples e pontual, com uma doação, um alimento, um cobertor ou um gesto de atenção. E embora existam diferenças entre essas formas de ajuda, todas produzem impacto real.
São iniciativas discretas, muitas vezes desconhecidas para a maior parte da cidade, mas profundamente sentidas por quem precisa. Gestos realizados sem alarde, sem propaganda, sustentados apenas pelo compromisso silencioso com o outro.
Um exemplo é o trabalho do grupo “Irmão Sol, Irmã Lua”, que diariamente garante café da manhã e almoço para centenas de pessoas em situação de rua que se dirigem à avenida Tristão Gonçalves, 935. É difícil não se impressionar com a dedicação daqueles voluntários diante de uma demanda que cresce a cada dia.
Quando comecei a participar da distribuição de sopa produzida pelo Gevluz, grupo espírita do qual faço parte, já encontrei muitos necessitando de ajuda. Hoje, a cada semana, o número aumenta.
Também emociona a atuação da AVA (Associação Amigos Voluntários em Ação) nos bairros Serrinha e Barroso. A entidade sem fins lucrativos auxilia idosos, crianças, gestantes e jovens e desenvolve projetos como alfabetização para idosos, distribuição de sopão, campanhas solidárias e atividades de acolhimento comunitário.
Muitas vezes, é a solidariedade que chega onde o poder público se ausenta.
Esses grupos representam uma rede de pessoas que se recusam a aceitar a desigualdade como algo natural. Algumas contribuições acontecem diariamente, outras de forma pontual. Mas todas revelam um movimento crescente de cidadãos que decidiram transformar a indignação em cuidado e solidariedade concreta.
*Suzete Nocrato
Jornaslista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará.